Crônicas | Feliz Ano Velho

 



F e l i z   A n o  V e l h o 

adriana aneli | adriana bozetto | ingrid morandian
maria florêncio | lunna gouveia | maria vitoria |
mariana gouveia |  marcelo moro | nic cardeal
obdulio nuñes ortega |tatiana kielberman | virginia finzetto

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Feliz Ano Novo…

Por Ingrid Morandian


 

A bolsa permanece no mesmo lugar. As flores de plástico na mesa da sala. As contas do mês, o copo de água pela metade e a cartela do remédio para a pressão. No 673, todos os dias florescem iguais para a dona Adalgisa, a minha vizinha da frente. Ela é a única pessoa da rua que ainda tem uma vitrola de madeira, daquelas antigas dos anos 70. Eu a vejo da sala ouvindo Frank Sinatra apaixonadamente no último volume. E, eu conheço a sua coleção de discos de vinil.

Nesse dezembro, as estações não se definiram, as ruas mais quentes com chuvas e frente fria. Dona Adalgisa sempre gostou do calor. Quando seu Adalberto era vivo passeavam na praça de mãos dadas contando histórias, relembrando “causos”.

Nesse dezembro, não terá a ceia com o seu Adalberto e as tardes com os amigos na calçada. Ele fumando seu cachimbo e jogando dominó. O seu Adalberto não bebia, mas gostava de fumar. Ficava no canto da sala com o olhar meditativo e se perdia na fumaça insinuante que insistia em desenhar o ambiente.

Nesse dezembro, dona Adalgisa não passará a camisa branca do seu Adalberto, não ajustará as pregas da calça cinza que ele tanto gostava. As roupas dele eram impecáveis e milimetricamente dobradas e guardadas. Ele sempre prezou pela organização.

Nesse dezembro, dona Adalgisa verá as árvores da rua balançarem ao sabor da nova estação. Verá a vida galgar as horas e minutos no seu corpo. As noticias nos jornais ainda serão as mesmas. As flores e pássaros surgirão como cena de filme na janela da sala. E seu Adalberto não cantará Dolores Duran com o seu vozeirão.

Nesse dezembro, eu percebo que dona Adalgisa verá o principiar do amanhecer com o coração ainda cheio de amor. Regará as plantas do quintal, deixará a luz do dia entrar no quarto e banhar de cores a casa do 673.

Nesse dezembro, dona Adalgisa irá preparar uma ceia pra um com gosto de casal. Não esquecendo a sobremesa do seu Adalberto. Mousse de coco e pudim de leite.

Nesse dezembro, dona Adalgisa assistirá aos fogos da passagem do ano pela TV, acompanhada pela Telinha, a gata. Beberá o suco de maracujá bem doce pra assistir a passagem do ano. Mas, com o sabor dos mesmos ‘dezembros’ dos últimos 40 anos.

FELIZ ANO VELHO…

 

Por Virginia Finzetto


Minhas idas ao centro são frequentes. Pego o Praça Ramos fora do horário de pico e vou sentada até o ponto da Xavier de Toledo. Quando eu desço do ônibus, outra viagem se apresenta. Dificilmente fico no presente assim que olho para o Teatro Municipal. Envolvida em reminiscências, pergunto-me como tamanha beleza ainda se conserva como baluarte da história paulistana a despeito de tantos estragos já promovidos ao seu redor, seja pela falta de consciência de programas políticos, que não levam em conta a preservação do nosso patrimônio, seja pela ausência de cidadania dos ignorantes, que deliberadamente depredam e emporcalham nossas ruas.

Sigo em caraminholas, enquanto atravesso o viaduto do Chá em direção à Praça do Patriarca. No vaivém da multidão, de repente, alguém segura meu braço com firmeza. Levo um tremendo susto, pensando em assalto…

Qual deveria ser minha reação diante do avanço da miséria e da violência que aumentou barbaridade? Mas olho melhor para ele: um idoso de expressão bondosa, olhos de íris opacas amareladas, sorrindo com dentes marcados pelo abuso do fumo, face envolta em longa barba alva, prestando muita atenção em mim.

— Bom dia, menina, você continua bela!

— Ãhn…?

Rapidamente, minha memória vasculha nos arquivos recônditos imagens da infância e da juventude tentando encontrar alguma que case com a da insólita figura. Para minha surpresa, certa que estou de se tratar de um desconhecido, e já me esquivando com ar de ofensa, ele me chama pelo meu nome completo na língua do pê!

Depois, gargalhando ao ver minha expressão de “cruz credo”, ele prossegue:

— Ei, Virginia Finzetto, sou eu… o Papai Noel! Não se lembra de mim?

Não faço a mínima ideia de como esse sujeito maluco descobriu meu nome. Isso só pode ter sido, para não fugir do espírito natalino, uma presepada de algum amigo que estaria por ali escondido e rindo da minha cara. Em seguida, o bom velhinho me solta e desaparece rapidinho na contramão.

Oh, céus! Só posso ter enlouquecido em meus delírios, penso.

Então, venho tornar público o caso, para que, quem sabe, possa chegar até ele, agora, todos os pedidos que armazenei desde a época em que passei a ser uma garota incrédula sobre sua real existência.

Diz a lenda que Papai Noel lê, além de cartinhas, o coração de todos os puros. Mesmo assim, resumo minha lista em apenas este desejo:

Xô, 2017!

Dissolva e leve, com a mesma velocidade vertiginosa com a qual você aconteceu, todos os equívocos cometidos covardemente em nome de qualquer divindade.

Assinado:

Eu,

a que prefere apostar em sonhos realizáveis.”

Feliz ano, velho! 

O último capítulo…

Por Lunna Guedes


 

Espiar as horas, os dias, as semanas encadeadas umas nas outras e ver o calendário todo marcado. Chegou dezembro… e uma pergunta se agiganta dentro, enquanto amasso a folha de novembro com a mão esquerda: para onde foram todos os meses de 2017?

Continuar lendo “O último capítulo…”

Feliz ano velho…

Por Marcelo Moro


 

Parece que foi ontem trezentos e sessenta e cinco dias atrás —, quando o Miguel curioso achou uma caixa que guardava nosso antigo presépio, tradição esquecida já há tantos anos aqui em casa. Entre mil e duzentas perguntas, todas respondidas, fomos desembrulhando as peças, peça por peça trazia uma lembrança saudosa e deliciosa… estavam todos ali, conservados de forma exemplar, os Magos, José e Maria, o Menino Jesus, a Estrela e todos os animais, Burrinho, Vaca, Boi, Camelos. Continuar lendo “Feliz ano velho…”

Feliz ano velho

Por Nic Cardeal…


 

Entra ano, sai ano, e assim vai girando esse nosso mundo ao redor do Sol, ao redor de si mesmo, numa louca corrida redonda e sem fim… Enquanto isso o tempo nos leva o sorriso, a graça, as brincadeiras de criança, muitas risadas bobas e outras tão gostosas e loucas, tantas lágrimas a perder de vista, sonhos feitos, desfeitos, refeitos, por fazer, muitas folhas em branco e outras tantas repletas de rabiscos e motivos… Também nos leva a calma, a falta dela, a ansiedade e a plenitude, a infância, a juventude e a velhice, a paz e o que sobra das guerras, as mesmices, as surpresas, o caos e o renascer das cinzas, nos rouba a vida e nos deixa como única saída somente morrer daqui…

Sim, esse mesmo tempo que um dia nos deu de viver no primeiro respiro, nos deu tempo ao tempo para o aprender do mundo, nos embalou no colo quente da mãe quase sem tempo para o amamentar do filho, nos presenteou com tantas tardes tranquilas sem relógios ao sabor do vento, nos serviu café quentinho e bolinho de chuva em tardes ensolaradas, nos concedeu a graça de chuvas bem feitas para o banho na terra seca e o germinar das sementes, nos alimentou da seiva, da folha e do fruto das matas abençoadas, nos fez sentar na calçada pra tantas conversas fiadas tão bem destrinchadas e desfiadas…

Esse mesmo tempo que nos sufoca e desatina, nos concede tantas graças e desgraças, nos revira ao avesso e depois, sem mais nem menos, nos devolve a esperança e a gente espera e um dia, quem sabe, alcança… Não tem jeito mesmo. Está feito. Entra ano, sai ano, não há como fazer parar essa roda assim gigante… Então vamos seguindo o giro, a roda, o círculo, a prosa, a valsa, o caminho sem volta. Vamos vivendo. Porque não há outro modo de passar por tudo isso sem seguir em frente — malabaristas de nós mesmos nessa linha esticada feito um breve horizonte – sem sabermos de fato (e isso é fato) se depois dele — desse tão breve horizonte — continuaremos no ato de existir, ainda que em algum infinito a contento.

Não sei mesmo dizer a que fim se destina esse viver.
Só uma coisa é certa: nada é certo!

Então, teimosa, ainda pergunto: de que serão feitas as certezas nos sonhos de outros mundos? Bem sei que outrora esse gosto que me chega à boca era bem outro: um gosto doce de viver a vida tão esticada e comprida, a se perder de tão longínqua no interminável fio de tecer fantasias na alma tão vasta de meu corpo miúdo…

Eram tempos de outrora, marcados a ferro e brasa em roupas tão engomadas…
Hoje sou outra. Tantas outras. Talvez nenhuma. Lembro de um varal estendido no quintal por trás de casa. Muitas coisas penduradas. Uma toalha de mesa florida, desejos amortecidos, roupas velhas servindo de pouso para sabiás tão atrevidos, alguns sonhos em suspenso tomando um sol e uns ventos, várias vidas sendo vertidas no tear das nossas horas vagas… tudo a seu tempo, com início, meio, fim, em todos os (des)temperos!

Entra ano, sai ano, vou preparando as sementes de romã, já nasceu o cacho das uvas, a roupa branca espera sua hora pendurada no cabide, minha alma já esqueceu porque tenho de fazer pedidos para o ano que ainda nem veio e nem sabe o meu nome…

Mas eu insisto. Vou querer o meu pedido anotado na agenda do futuro, sublinhado em caneta marca-texto, com endereço e remetente, para que não haja nenhum erro de postagem — e quando chegar a hora da entrega do meu ano novo, estarei com a minha porta escancarada, aguardando sentada à beira da calçada, porque sou dessas de Saturno, que sabe o tempo certo de dizer o mesmo verso outra vez: feliz ano velho.

O futuro já acabou.

 

Promessas ao ano que (quase) passou

PorAdriana Elisa Bozzetto


 

É o primeiro dia do último mês de 2017 e as tradicionais promessas feitas no início do ano não se cumpriram. Dezembro parece ser um mês ideal para pensar em novas promessas para o novo começo de ano que, para variar, não serão cumpridas. Pensando nisso, resolvi inovar nessa transição de ano. Ao invés de comemorar o ano novo, vou celebrar o que resta do ano velho e fazer promessas para dezembro. Continuar lendo “Promessas ao ano que (quase) passou”