23 – Nem sempre a lápis | três poemas de Ingrid Morandian

Outra face

amemo-nos como lâminas
na escura trincheira das horas
no acolhimento de versos sem distância

guardado no silêncio, tanto melhor
a lua surge na escadaria em modulações do corpo

não faço mesuras, ditei pensamentos em frente ao espelho
minha voragem são os minutos dentro das respirações
amemo-nos, dois foragidos na noite

 


 


Ferrovia leste

meu estado de neblina encobre os trilhos da longa ferrovia,
incontáveis esporas saem do meu corpo e machucam
como palavras afiadas,
a quem pertence estes caminhos?
o funcionário da estação não deixou
as correspondências de Deus. Falta-me a noite
e seu entorno, falta-me a realidade atrás das montanhas.
Por que os deuses repartiram o sol?
se não haveria mais tendas no frêmito das horas?
a estrada continua nebulosa, a luz do poste flutua na estação,
o funcionário esqueceu de deixar uma cópia da chave.
preciso abrir as ondas para limpar o oceano.
preciso partir.

o funcionário dizia: qualquer camada que se aporte no prurido
das vírgulas, causa um incômodo.
e, eu não entendia.
atravessei os quartos da casa como se fossem continentes
infinitos de histórias. O rumorejar de passos no assoalho
decompõe a química das sombras. O arredor borrado de escritas.
preciso partir

na véspera, uma senhora embarcou no último trem,
levando a existência de sonhos, a carregar a impermanência das palavras

 


 

Planar

Você, intumescido, agasalha o relevo
Da minha geografia
Após longa estiagem,
Pousamos leves na cama

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Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

|  versão digital clique aqui | 

Feliz Ano Novo…

Por Ingrid Morandian


 

A bolsa permanece no mesmo lugar. As flores de plástico na mesa da sala. As contas do mês, o copo de água pela metade e a cartela do remédio para a pressão. No 673, todos os dias florescem iguais para a dona Adalgisa, a minha vizinha da frente. Ela é a única pessoa da rua que ainda tem uma vitrola de madeira, daquelas antigas dos anos 70. Eu a vejo da sala ouvindo Frank Sinatra apaixonadamente no último volume. E, eu conheço a sua coleção de discos de vinil.

Nesse dezembro, as estações não se definiram, as ruas mais quentes com chuvas e frente fria. Dona Adalgisa sempre gostou do calor. Quando seu Adalberto era vivo passeavam na praça de mãos dadas contando histórias, relembrando “causos”.

Nesse dezembro, não terá a ceia com o seu Adalberto e as tardes com os amigos na calçada. Ele fumando seu cachimbo e jogando dominó. O seu Adalberto não bebia, mas gostava de fumar. Ficava no canto da sala com o olhar meditativo e se perdia na fumaça insinuante que insistia em desenhar o ambiente.

Nesse dezembro, dona Adalgisa não passará a camisa branca do seu Adalberto, não ajustará as pregas da calça cinza que ele tanto gostava. As roupas dele eram impecáveis e milimetricamente dobradas e guardadas. Ele sempre prezou pela organização.

Nesse dezembro, dona Adalgisa verá as árvores da rua balançarem ao sabor da nova estação. Verá a vida galgar as horas e minutos no seu corpo. As noticias nos jornais ainda serão as mesmas. As flores e pássaros surgirão como cena de filme na janela da sala. E seu Adalberto não cantará Dolores Duran com o seu vozeirão.

Nesse dezembro, eu percebo que dona Adalgisa verá o principiar do amanhecer com o coração ainda cheio de amor. Regará as plantas do quintal, deixará a luz do dia entrar no quarto e banhar de cores a casa do 673.

Nesse dezembro, dona Adalgisa irá preparar uma ceia pra um com gosto de casal. Não esquecendo a sobremesa do seu Adalberto. Mousse de coco e pudim de leite.

Nesse dezembro, dona Adalgisa assistirá aos fogos da passagem do ano pela TV, acompanhada pela Telinha, a gata. Beberá o suco de maracujá bem doce pra assistir a passagem do ano. Mas, com o sabor dos mesmos ‘dezembros’ dos últimos 40 anos.

Coletivo 2017

 

R$ 50

 

 


Um projeto idealizado por Lunna Guedes…  ilustrado por Adriana Aneli e riscado por autores convidados a caminhar a cidade através das palavras e propor ao leitor uma viagem através da poesia… o livro é todo movimento, das cores-aromas-e-sensações. Ouse experimentar…

 

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto