PALAVRA DO EDITOR | Zine Comédia…

Por Lunna Guedes


 

Toda idéia precisa de um estopim… o tão aclamado nada-vazio é um espaço onde tudo se organiza… inclusive as idéias, mas é preciso alimentá-lo para que se estabeleça o caos que, uma vez organizado, determina o ritmo.

No meu caso, foi lendo “A felicidade dos tristes”, de Luc Dietrich, que me deparei com o tão desejado caos para, enfim, estabelecer o ritmo entre o antes e o depois das minhas emoções para então alcançar a compreensão da citada irreverência… na história do riso.

Na vã condição de não equilibrista, me senti na corda bamba diante da proposta que chegou pronta em minhas mãos… “como fabricar o riso”. (?) Não consegui alcançar a palavra que me leva diretamente a um período da história… anterior a esse. O elemento de organização social. A Paris do início do século passado, sua desconstrução. O distanciamento social. O filme de Chaplin, em que cada peça faz parte de um engenho arquitetado para limitar-intimidar, gerar um novo molde… absurdamente sufocante.

O interessante na Arte é que ela te obriga a rever os estereótipos. É preciso esvaziar-se. Voltar à condição de ninho-nicho-feto. É preciso retroceder e descobrir todos os movimentos de vida-morte. Reaprender.

Com músculos e nervos regidos por uma conhecida inquietação, fui até a prateleira e, amparada pelo tato, encontrei a resposta de que precisava: “porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, muito pálida, mesmo quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol”.

O riso é uma arma engatilhada, pronta para o disparo, mas é preciso mira e conhecimento do instrumento que se tem em mãos. O riso é ciência-consciência, um mecanismo natural, que não se pode ensinar, mas é possível provocar, contanto que se conheça os artifícios.

O zine “Comédia”  escrito por Rachel Villela Alves e vivenciado por Anselmo Vasconcellos — te oferece exatamente isso… conhecer os artifícios existentes e reconhecê-los através dos tempos e culturas.


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Palavra do Editor | Ylie-Samê — estiletes para cortar brumas…

Por Lunna Guedes


 

explodiu-se-me
em cores. 

todo o resto
calou-se em rabisco,
tentativa de cinza.

 


 

 


 

Quando recebi o conjunto poético de Ylie-Samê — estiletes para cortar brumas, para publicação… respirei fundo, fechei os olhos e me preparei para caminhar a cidade de São Paulo — não a que conheço, que chega pela janela do carro, que eu chamo pelo aplicativo. Tampouco a do ônibus elétrico, que me conduz por mil hemisférios… outra.

A poesia, para mim, é qualquer coisa líquida, e escorre… é como ter sede e beber um copo de água num gole só. É preciso saciar a carência momentânea e sentir aquela falsa calma a bordo das veias, músculos e nervos.

Claudinei Vieira e seu Yurei, Caberê fizeram isso comigo, assim que pousei o olhar em seu livro… a galope. Virei página por página para saber o lugar do poeta — sua cidade. Ele me atravessou o corpo, a alma. Rasgou minhas memórias. E me apresentou outra São Paulo… me tirou daquele lugarzinho comum no qual nos colocamos, ao deslizar sempre pelos mesmos lugares.

Claudinei é um poeta urbano… metade humano, metade cidadão. Ele atravessa a cidade com seus passos, percebe as ruas cheias de restos humanos… e nos mostra o melhor e o pior de uma Metrópole contraditória.

Eu o li uma… duas… três vezes — novamente a galope — e comecei ali mesmo a pensar as páginas do livro. Queria o movimento urbano… páginas como calçadas… capa como uma das muitas vitrines que São Paulo deita em nossos olhos. Imensidão na pele e, nos olhos, um labirinto.

 


YLIÊ-SAMÊ
Claudinei Vieira


 

Palavra do Editor | Impressões

Por Júlia Bernardes

 

Fosse eu apenas uma leitora, já agraciada teria sido pelo aprendizado transmutado em linhas singelas. Entretanto, tendo eu tido a oportunidade e honra da Editar, testemunho não ter tropeçado em pausas interruptivas, nem tampouco pontos finais desacompanhados de suspiros e breves apresentações de esperança ao pensamento desenhado.

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Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

 


 

 


 

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.

 



Participaram desse ‘coletivo’ os autores:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | A REALidade das coisas…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 

Sou o tipo de Editora que leva os textos para andar… pelos cômodos da casa, as ruas e calçadas da cidade porque preciso dar passos com o texto em mãos-mente-memória-cuore para sentir o Autor e seus movimentos. A escrita é movimento das palavras e seus muitos sons, os lugares que pisa e os corpos que habita.

A maioria dos textos-crônicas que compõe essa copilação denominada ‘REALidade’ — uma obvia brincadeira do Autor e sua Editora com a questão da vida-mundo-persona — vieram do Facebook, onde “dom’ Obdulio arremessa vez ou outra os seus pensamentos-ações-olhares — para o meu completo e total desgosto.

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Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 


O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016


 

Palavra de Editor | M I A

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


 

Passava das seis de um dia de semana qualquer. Eu não somo dias, sou feita de momentos e regida por Kairos. Me sentei no meu lugar de sempre… no café entre esquinas, com um latte extra hot ao lado, lapiseira Pentel 0,5 em mãos. Nos ouvidos ‘hold back the river’ de James Bay e um calhamaço de folhas A4 para os olhos… começava a tomar contato com ‘MIA’… leitura de tato — como gosto e prefiro. Sem pressa, apenas um pesado gole…

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Palavra do Editor | Alameda das Sombras…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


“mas eu não me importava e seguíamos juntos numa boa
— sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes
um em volta do outro, como novos amigos apaixonados.”
on the road

 


 

Quando Marcelo começou a me enviar o material para o seu novo livro, estava a ler pela milionésima vez ‘on the road’… e não podia imaginar o quão significativo seria esse ‘pequeno detalhe’ — uma ‘espécie de trilha sonora’ na arquitetura de ‘alameda das sombras’… que veio para minhas mãos com outro rótulo — descartado após meia hora de conversa com o Poeta.

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Editorial | O Mercado editorial não pensa leitores, pensa prateleiras cheias…

Por Lunna Guedes


 

Em conversa agitada na tarde de hoje — com uma pessoa que aparenta ter raízes bem fincadas no tal capitalismo, em que o principal objetivo é o capital —, argumentei, sem sucesso algum, sobre minhas estratégias para o meu projeto de vida, denominado “Scenarium”… nome este que tem o seu propósito: ser diferente… nesse cenário cada vez mais orientado por quantidade…

Não é novidade alguma que há cada vez mais pessoas interessadas em publicar livros. Nem mesmo há editoras suficientes para tantas publicações. Mas, inventa-se uma aqui e outra ali… pronto: satisfeitos? Não…

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Editorial | Livro Artesanal

Por Lunna Guedes

 


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Escolhi o modelo artesanal quando pensei em publicar um livro escrito por mim… por achar charmoso, elegante, mas principalmente por me permitir ousar, sem precisar ficar presa ao modelo tradicional-convencional. Nunca fui fã de prateleiras, sempre gostei do livro em mãos… toque-tato-virar-de-folhas.

E sempre fui apaixonada pelo universo underground… no tempo do colégio me divertia forjando zines, inventando revistas alternativas. O prazer de criar-transformar-reinventar sempre me fez pulsar-agir…

Eu vivia-vivo em constante fuga do universo comum-igual… onde o livro é um mero objeto para prateleiras, produzido para agradar o mercado e não o Leitor, que se acostumou a comprar os famosos e enlatados best-sellers — tampouco o autor, que sempre se rende ao cenário por ter um sonho de ver seu livro em vitrines, como se fosse uma mera peça de roupa.

revista-plural

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