Envio de originais

Caro autor,

De 17 de setembro à 31 de outubro de 2018… a Scenarium livros artesanais receberá novos originais.

Antes de enviar o vosso original, peço que confira as ‘instruções para envio do seu original‘ descritas abaixo.

 



A Scenarium livros artesanais publica: contos, crônicas, poesias e romances na categoria adulto. Não publicamos títulos que se afastem desta linha editorial.


 

Prepare o seu original, seguindo as seguintes características:

Documento. Word
Fonte: Times New Roman
Tamanho: 12
Espaçamento: 1,5.

Na folha de rosto, coloco as seguintes informações:

Titulo da obra
Nome do Autor
E-mail de contato

Nomeie o seu arquivo com o seguinte padrão:
Nome do autor_Nome da obra_Gênero (poesia, ensaio, conto, crônica, novela ou romance)

Ex: Mar de dentro_Lya Lyft_Crônica

Faça uma breve descrição de vosso livro: 10 linhas, no máximo.
Em caso de romances: acrescente o primeiro capítulo da história.
Contos, poesias e ensaios: favor enviar 03 textos completos.

Na linha de ASSUNTO do e-mail… favor anotar: “Original Scenarium 2019 (Gênero do livro)”.

Ex: “Original Scenarium 2019 Contos.

 

E,  no corpo do e-mail, o autor deverá acrescentar uma breve biografia.

Envie para: scenariumplural@gmail.com.


 

A Scenarium livros artesanais informará através do e-mail informado pelo autor, até o dia 30 de novembro de 2018, se a proposta apresentada foi aceita para publicação em formato artesanal.

Os originais selecionados serão publicados a partir de março de 2019.

 


 

Em caso de dúvidas, entre em contato
scenariumplural@gmail.com.

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Palavra do Editor | S.e.t.e L.u.a.s

Por Lunna Guedes


 

Eu nunca sei como as coisas acontecem em mim… sei que ganham forma no decorrer do dias-horas — aos poucos… em pequenos punhados de tudo, em poucos goles de nada. Fico a espiar a parede e suas ranhuras, a pilha de livros por ler e a xícara vazia no canto da mesa. Em meio a tudo isso, há o branco da tela do Word a chamar por mim com seu cursor a piscar: escreva-me! — convite que eu nem sempre estou disposta a aceitar porque sou uma ávida colecionadora de desaforos.

De repente — como um estalo-trovão — acontecem palavras dentro da pele-mente… e eu escrevo no ar. Um sorriso ardiloso-ligeiro escorre pelos lábios e o olhar se perde em distâncias incalculáveis.

Dentro de mim tudo faz sentido.
Antevejo tudo e nada… em somas impossíveis.

Com Sete luas foi exatamente assim. Estava quieta… a observar as minhas paisagens favoritas quando vi a lua emergir imensa-cheia-poderosa no negro céu. Pensei — quase que imediatamente —, no poema de Cecília Meireles: “tenho fases como a lua, fases de andar escondida, fases de ir para a rua”.

Eu enxergo as fases lunares como ciclos improváveis… que se dependem. A Lua é nova por um curto período de tempo… e cresce até alcançar a fase cheia. Ao atingir o seu apogeu — esvazia-se gradativamente até minguar… nada mais restar e ser apenas Lua — sem brilho-opaca-vazia. A mais intrigante-instigante-e-ignorada fase: negra-escura…

Há quem estabeleça paralelos entre: nascer-crescer-reproduzir-envelhecer-e-morrer.
São processos unos, que cada um preenche com silogismos particulares. Algarismos, que nem sempre podem ser medidos — somados tampouco.

Eu considero que nós mulheres, somos a própria Lua… com ciclos e fases que começam e terminam e recomeçam — imprecisos e não-absolutos.

Sete Luas foi pensado a partir dessa premissa… sete mulheres-poetas a conceber-Ser enquanto fases-ciclos… de vida-morte-arte. Cada qual a partir de suas vivências múltiplas, orientadas por um Norte que é o olhar no espelho… essa fina lâmina lunar onde reconhecemos rastros-restos-retalhos do que somos — ou não!

 


 

Aden Leonardo |  Adriana Aneli |  Adriana Elisa Bozzetto |
Ingrid Morandian |  Mariana Gouveia |  Nic Cardeal  | Rebecca Navarro

Tiragem única de 15 exemplares
Pedidos: scenariumplural@gmail.com


 

Palavra do editor | Corredores, codinome: loucura

Por Lunna Guedes


 

“Que dizer da loucura? Mergulhado no meio de quase duas dezenas de loucos, não se tem absolutamente uma impressão geral dela. Há, como em todas as manifestações da natureza, indivíduos, casos individuais, mas não há ou não se percebe entre eles uma relação de parentesco muito forte. N]ao há espécies, não há raças de loucos; há loucura só.”

— escreveu Lima Barreto,
in; ‘diário do hospício’.


 

Começo dizendo que pode e deve fechar as janelas, mas não as do lugar onde vive e, sim, as de tua casa-corpo. Feche os estores, respire fundo e coloque a água no fogo. Escolha entre chá ou café, xícara e lugar. Antes, feche os olhos por alguns minutos e se esvazie de quase tudo, porque o mundo irá permanecer em ti, ou pelo menos, naquilo que de ti restar ao fechar a porta de tua morada, dessa casa que és… deixando o ruído do dia do lado de fora.

É nessa hora que eu me lembro de ontem, aquele dia em especial… ontem, na hora do almoço eu ouvi as mulheres falarem de uma parenta que havia enlouquecido. Foi de repente. Ela abandonou o curso natural da vida. Parou de falar com as pessoas e passou a dialogar com as paredes. O olhar dela transmutou. Havia medo e desconfiança. Tudo parecia lhe incomodar. Todas, exceto a nonna, terminavam as frases com alguma palavra de pesar.

A parenta foi levada após alguns meses para um Hospital Psiquiátrico, de onde não mais saiu. Estava louca, impossibilitada de conviver com as pessoas sãs.

Eu abandonei a cozinha e a conversa pelo meio… fui em busca de refúgio em um dos dos meus esconderijos — quase — secretos. Estava com o cuore na garganta, a pulsar forte. As mãos frias e um desconforto no fundo de mim. Não era fome nem sede o que eu sentia. Era a certeza de um destino inevitável. Eu teria o mesmo fim que a pobre mulher. Passaria dias trancada em uma sela, enfiada naquelas roupas brancas, descalça, com grades a me proteger do mundo, para que as pessoas se sentissem seguras… à salvo.

Tentei domar os sintomas. Mas confesso que não levou muito tempo para perceber que a sanidade era uma coisa muito monótona e irritadiça. Não sabia o que tinha levado a parenta a enlouquecer, mas sabia certamente que a sanidade me levaria à loucura, fatalmente.

Algum tempo depois, fomos visitá-la… o lugar não era horrível como eu o imaginava, motivada pelas histórias de Edgar Allan Poe, de quem era leitora fiel-e-infiel. Sempre reclamei com ele — como se fosse um amigo sentado ao meu lado — de certos desfechos.

A parenta estava enfiada em um vestido branco, tinha cabelos brancos, rugas pela face. Era impossível saber sua idade. Nos entregou uma boneca de pano. Tinha regressado à infância. Sempre sorridente, dizia não gostar de adultos e segurou minhas mãos, largando-a em segundos. Arregalou os olhos. Não senti medo. Entendi que ela era uma menina de poucos anos, presa em um corpo muito velho. Entendi que ela tinha sofrido algum trauma tão horrível, que só quem poderia socorrê-la era a menina que hoje habitava seu corpo, arrancando-a de seus temores. Entendi que a infância era seu abrigo-esconderijo… e eu a assustava porque eu era seu contrário, um adulto preso em um corpo pequeno.

Nunca falamos sobre aquela visita, mas uma parte de mim sempre quis saber o que tinha atingido aquela pessoa — como um raio atinge uma árvore, partindo-a ao meio — para entender o porquê de sua necessidade de se refugiar em algum lugar em si mesma… para sobreviver.

Ao ler “Corredores”, regressei a esse ontem e pousei nessa conversa de mulheres, na cozinha da casa da nonna e a todos os dias seguintes àquele encontro.

Me incomodei com a falta de sanidade de alguns personagens e com a loucura atribuída à Maria… uma menina-mulher-fantasma-coisa-objeto, escondida do mundo pela pessoa que deveria protegê-la de tudo-todos. Entregue às mãos de uma criatura sem alma-rasa, que punia por ser incapaz de punir a si.

Recordei o livro de Lima Barreto e suas narrativas sobre o lugar para onde havia sido levado por ser considerado impróprio… um alcoólatra indócil. Lugar em que conheceu outros tantos “loucos”… misturando-se a eles.

A loucura, como doença, não é contagiosa, mas quando se apoia em argumento… é o que é? Será que não optamos por enlouquecer, assim como a mente opta por nos esconder do mundo que nos agride-machuca-mutila? Será que não optamos pela loucura para preservar a nossa sanidade?

Eu não tenho respostas a oferecer, mas as linhas do livro, tecido por Mariana Gouveia em momentos plenos de uma loucura tenebrosa-e-maravilhosa… te servirão de afago-guia… ou não.

 


 

CORREDORES, CODINOME: LOUCURA
MARIANA GOUVEIA

Palavra do Editor | Rua 2

Por Lunna Guedes


 

…quando eu nasci, a minha família vivia em uma casa antiga, de pedras… que tinha pertencido à outra família, sem uma história conhecida por mim. Não sei quem eram, tampouco o que faziam. Partiram sem deixar marcas-rastros. Apenas uma placa deixaram:”vende-se essa propriedade”.

Cresci ali, na segunda rua de uma simpática Vila… que tinha uma bela vista. Nossa casa era a de número 141, quase esquina… quase fora da rua. Eu sabia cada morador-vizinho das outras casas… os dois irmãos na casa da frente, a signora falante que ia sempre à frente do marido, a tecer seu rosário de reclamações, o sargento e seus dois cães pastores, a professora e sua filha com o rosto queimado. E a melhor de todas: a casa da portuguesa, com seus cães-gatos-pássaros… e as lendas cantadas pelos moradores-vizinhos — que a anunciavam como sendo uma stregga.

Para mim… a melhor das amigas. A dama que me ensinou um idioma-novo, ao qual escrevo essas linhas.

Havia muitas outras casas com moradores peculiares, que povoaram a minha infância. Se você teve o prazer de viver em um bairro antigo-novo… feito de casas, certamente irá pousar em uma Rua 2 — ainda que tenha outro nome, como a rua onde nasci-cresci —, e se deliciar com lembranças saborosas de seus moradores.

E nesse jogo de casas pares e ímpares — proposto pelo autor — sobra vento, falta ar… e recordo-me dos precipícios de cesariny. Penso em ser nuvem, perder a forma e dissolver-me por cima dos telhados. Ser raiz nesse bairro e misturar-me a cada um desses personagens.

Chegar com um punhado de caixas, passar pela porta e dar pelos cômodos de uma casa-vazia. Ter dificuldade com o endereço, o número nos primeiros dias. E consciência de que sou estranha nesse cenário de casas altas e baixas, de formas conhecidas… como se tivessem sido pré-moldadas no lugar de onde vim.

Dou voltas e voltas na rua de cima, de baixo… e volto a esse traço — nada — reto… esbarro em personagens-personas, a bordo de suas vivências que posso espiar-aprender ao virar das páginas e concluir que é impossível sabê-las reais… ou inventadas.

São peças de um quebra cabeças… e todas se encaixam porque estão todas enlaçadas pelo autor, seu morador com vivências que se entrelaçam em encaixes impossíveis.

 


 

R U A    2
OBDULIO NUÑES ORTEGA

Palavra do Editor | O mapa de vênus

Por Lunna Guedes


Numa primeira fase, esse original destinava-se à revista Plural e dele se deveriam fazer separatas. Mas, por vicissitudes várias, não foi nunca publicado e acabou esquecido no fundo de alguma caixa-gaveta.

No final do ano passado, no entanto, reencontrei a pilha de livros selecionadas para leitura e os esboços das missivas escritas nas manhãs de domingo a uma correspondente habitual desde 2014. E, ocorreu-me rever a proposta original, dando novo ritmo ao material. Me rendi à publicação, como algo novo-inédito para a Scenarium, que ainda não tinha publicado algo nesse sentido, embora tenha flertado em vários momentos com propostas outras… todas descartas sequencialmente.

Em missiva escrita no começo desse mês — conclui com visível satisfação a possibilidade de ‘fazer um livro bonito’ com minhas poetas-mulheres… pelas quais tenho imenso apreço. Fui alfabetizada com poesias. Os versos de Dickinson me fizeram compreender sentimentalidades dissonantes em minha pele. Ela foi a primeira a se aninhar em minhas entranhas. Depois vieram outras tantas… e para a minha alegria, em tempos distintos, permitindo um respiro ao meu íntimo, que considero necessário.

Concluído esse original, só posso dizer que espero que o eco que as linhas dessas senhoras-damas-da-poesia deixa em minha pele, varra sua amalgama do leitor

 


 

 

PALAVRA DO EDITOR | S A D N E S S

Por Lunna Guedes

 

Maria Florêncio
Maria Florêncio, autora de S A D N E S S

 

 

Um dos meus jogos favoritos na infância era o dominó. Gostava imenso de espalhar-empilhar as peças — com suas alusões de números — por cima da mesa. O amarelo tom sempre me remeteu às folhas de papel e às sutis gotas de nanquim à manchá-las com singulares-símbolos: vogais aos pares, consoantes em ímpares. Eram tantas as combinações possíveis-impossíveis no jogo… que eu me esvaziava de mim naquele gesto solitário de peça e números — vogais e consoantes.

E foi repetindo o ritual da infância, que espalhei os poemas de sadness — coletados peça a peça, como se a autora soubesse desse meu singular prazer em observar linhas-figuras… humanas: combinando-as em mim.

A leitura acontecia sempre na última hora — como se trocássemos correspondência à moda antiga. Uma missiva que chega sem que por ela se espere… depois que o mundo faz silêncio e os enforcados se convencem da morte no breu. Tive a irrestrita companhia das xícaras de café, Turandot e um punhado de sensações-devaneios-memórias, além, é claro, da ilustre figura da poeta e seus versos alquebrados: “Maldizentes atmosféricos… de ontem | De vazios… mentiras-verdades | Um limbo convidativo… | o paraíso! …um eterno escrever-se na alma”

Traguei as combinações oferecidas em cada linha-peça, analisei cada quebra até aprendê-las pelo avesso — “Ateado às chamas. | — um Final… | A página crua! | Aquém de datas futuras. | A trama. | — o Fim. | O fogo a propagar — árduo — | pelo ‘céu da boca’.”.

As peças do dominó se ligam uma à outra e se desdobram em formulações novas, que são — enquanto poesias — fotografias antigas-e-novas. Um olhar polaroid. Um sentimento herdado dos tempos de ontem, onde tudo se organiza e materializa. Quando tudo era menos e a pressa inexistente. Quando tudo simplesmente era… as coisas inteiras-intensas e definitivas… sem amanhã para florear! Sem congestionamentos de olhos-bocas-mãos-braços-pernas. Tudo é barulho até que o silêncio se imponha…

Nesse livro-jogo-de-maria-florêncio percebemos que é preciso arqueologia para se fazer poesia e oferecê-la… ao outro, que não é convidado ao gesto mecânico de folhear páginas em busca de versos pela autora. A idéia nesse conjunto de folhas amarradas por linhas vermelhas é outra! Provocar com o que não se diz e conduzir às frestas de si… conscientemente de que é impossível evitar o pulo…



S A D N E S S
MARIA FLORÊNCIO

Palavra do Editor | Muiraquitã…

Por Lunna Guedes


 

Fecho-me dentro… janelas e portas. Lá fora todos os sons se orientam. As reformas-construções de cenários se multiplicam e eu identifico — mesmo sem querer — cada um dos ruídos de máquinas e homens. Tento me afastar da realidade comum — de minutos-horas-dias-semanas-calendário-sobre-a-mesa-relógio-sem-bateria-no-pulso —, a cada pesado gole de vinho tinto…

Descalça, trajando apenas uma peça de roupa… me esparramo sob o lençol e me atraco ao calhamaço de folhas onde os contos de Muiraquitã se orientam. Estou dentro de outro-eu…

Emerson é um autor dual, que resolveu transitar livremente pelo universo feminino — diariamente violentado, silenciado… — que sangra até a última gota de sangue com uma perspicácia típica de quem se alimenta da realidade em cada passo dado, consciente de que ficcionar a vida é para poucos — os loucos.

Depois de uma dezena de leitura… me pus a observar as folhas espalhadas por cima do lençol branco numa desordem natural. Havia muitos riscos-rabiscos e uma desordem natural de páginas. Começo. Meio. Fim… devidamente embaralhados. Mas conhecia muito bem cada personagem-pessoa e suas histórias.

Andei pelo quarto de um lado ao outro, ao redor do próprio eixo. Marcha inquieta. Engoli o que restava de vinho no fundo da taça. Precisava de ritmo… outra taça-garrafa-pele… outros ruídos. Recorri à Patti Smith e sua versão de “smell like teen Spirit” deixada no repeat… que me fez perceber que ler Muiraquitã é deixar a própria pele que habito e ir às ruas… andar calçadas, dobrar esquinas, ver gente, não ver ninguém, entrar e sair de ambientes esfumaçados, esbarrar em anatomias pulverizadas — personagens mambembes… com seus olhares severos-sérios-amedrontados-desconfiados-manchados-indiferentes-delineados-opacos-perversos-raivosos-exaustos — a caminho do trabalho-supermercado-escola-casa. Mulheres acompanhadas-solitárias-perdidas-abandonadas-sem-rumo-desiludidas-sonhadoras-apaixonadas-afoitas… damas da vida. Vida que nem sempre reserva o melhor lugar na platéia-palco-bastidores. Nem sempre reserva porque esse é um mundo de homens, feito por eles, para eles… E estão certos desde o nascimento que o que é deles está guardado, só se precisa pagar o preço.

O autor pincelou a realidade em busca de histórias conhecidas que ninguém quer ouvir-saber. A maioria fica guardada-esquecida no fundo de alguma gaveta. Vez ou outra ganha voz nas falas de certas damas que fazem questão de não deixar esquecer o passado, na esperança de que o futuro seja realmente possível para alguém que não elas.

As famílias — sabemos — são sempre constituídas por Santas… figuras sensatas-prendadas-cabisbaixas que sabem seu lugar no mundo-vida e que foram ensinadas desde o nascimento a honrar o que há de mais sagrado no mundo: pai-mãe-espirito-santo-marido-filho… menos a si, seus corpos-sentimentos-vontades-desejos e, por isso, as portas-pernas devem permanecer trancadas por dentro para que nada escape à meia noite. Amém.

Emerson Braga, no entanto, lhe entrega as chaves…


MUIRAQUITÃ
Emerson Braga

 

R$ 35,

Palavra do Editor | Ylie-Samê — estiletes para cortar brumas…

Por Lunna Guedes


 

explodiu-se-me
em cores. 

todo o resto
calou-se em rabisco,
tentativa de cinza.

 


 

 

Quando recebi o conjunto poético de Ylie-Samê — estiletes para cortar brumas, para publicação… respirei fundo, fechei os olhos e me preparei para caminhar a cidade de São Paulo — não a que conheço, que chega pela janela do carro, que eu chamo pelo aplicativo. Tampouco a do ônibus elétrico, que me conduz por mil hemisférios… outra.

A poesia, para mim, é qualquer coisa líquida, e escorre… é como ter sede e beber um copo de água num gole só. É preciso saciar a carência momentânea e sentir aquela falsa calma a bordo das veias, músculos e nervos.

Claudinei Vieira e seu Yurei, Caberê fizeram isso comigo, assim que pousei o olhar em seu livro… a galope. Virei página por página para saber o lugar do poeta — sua cidade. Ele me atravessou o corpo, a alma. Rasgou minhas memórias. E me apresentou outra São Paulo… me tirou daquele lugarzinho comum no qual nos colocamos, ao deslizar sempre pelos mesmos lugares.

Claudinei é um poeta urbano… metade humano, metade cidadão. Ele atravessa a cidade com seus passos, percebe as ruas cheias de restos humanos… e nos mostra o melhor e o pior de uma Metrópole contraditória.

Eu o li uma… duas… três vezes — novamente a galope — e comecei ali mesmo a pensar as páginas do livro. Queria o movimento urbano… páginas como calçadas… capa como uma das muitas vitrines que São Paulo deita em nossos olhos. Imensidão na pele e, nos olhos, um labirinto.

 


YLIÊ-SAMÊ
Claudinei Vieira


 

Palavra do Editor | Impressões

Por Júlia Bernardes


 

Fosse eu apenas uma leitora, já agraciada teria sido pelo aprendizado transmutado em linhas singelas. Entretanto, tendo eu tido a oportunidade e honra da Editar, testemunho não ter tropeçado em pausas interruptivas, nem tampouco pontos finais desacompanhados de suspiros e breves apresentações de esperança ao pensamento desenhado.

O que pude testificar foi a comunhão do sentir com o dizer, sem os apelos rebuscadores que encontramos em diversos textos que acabam se perdendo em semântica… esquecendo-se da essência do dizer.

Cintia não se atreveu a testar a inteligência emocional dos que pousarão seus olhos sobre suas linhas. Ela, com perspicácia, preferiu compartilhar suas impressões ao invés de impô-las… e o fez com maestria ao traduzir em palavras singelas o que a percepção, por vezes, deixa escapar por não saber transcrever o sentido do que acabara de presenciar.

Permitiu-me alforriar meus ignorantes olhos que, há tempos, não sabiam cores, aprisionados que estavam em alçapão de correria descabida e desenfreada. Os libertei para que pudessem admirar o rapaz no ponto de ônibus a estudar para uma prova. A moça, toda maquiada, a esperar por um amor que é só dela… se há amor no outro… pouco importa. A senhora a olhar para uma jovem, recordando-se de um baile nos anos 50, quando era apaixonada por Dean… e seus 20 anos vestiam saias rodadas e dançavam ao som de Elvis. A borboleta pousada no vidro do carro imóvel… a aguardar o verde do farol… sutilezas, belezas… cotidiano… IMPRESSÕES de um cotidiano que presenteia com o que há de mais abundante, embora sobreviva nas sombras de importâncias desimportantes e, por isso, passe despercebido inúmeras vezes: o simples.

 


 

IMPRESSÕES
Cintia Araújo

Para solicitar o seu exemplar,
clique aqui…

 


 

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

Palavra do Editor | A REALidade das coisas…

Por Lunna Guedes

 

Sou o tipo de Editora que leva os textos para andar… pelos cômodos da casa, as ruas e calçadas da cidade porque preciso dar passos com o texto em mãos-mente-memória-cuore para sentir o Autor e seus movimentos. A escrita é movimento das palavras e seus muitos sons, os lugares que pisa e os corpos que habita.

A maioria dos textos-crônicas que compõe essa copilação denominada ‘REALidade’ — uma obvia brincadeira do Autor e sua Editora com a questão da vida-mundo-persona — vieram do Facebook, onde “dom’ Obdulio arremessa vez ou outra os seus pensamentos-ações-olhares — para o meu completo e total desgosto.

Continuar lendo “Palavra do Editor | A REALidade das coisas…”

Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes

 

O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016