CARTAS PARA ABRIL |coisas esquecidas…

Por Lunna Guedes


 

Minha cara, Sophia

 

…é a primeira vez que lhe escrevo, conscientemente. Lembro-me de me inaugurar em linhas, que lhe tinham como destino, em outro momento-vida. Tinha acabado de lhe conhecer na voz de uma atriz que me calou… e deixou o corpo em suspenso. Senti um solavanco, igual ao dos Comboios ao engatar-desengatar vagões.

Saí as ruas… com destino a uma livraria. Precisava tê-la comigo… e de posse do único livro teu que consegui… corri até um dos cafés de Lisboa. Chovia forte. Ocupei uma mesa qualquer e me distrai por alguns segundos com movimentos de vida-realidade… a tua figura-poesias.

Porque os outros se mascaram mas tu não | Porque os outros usam a virtude | Para comprar o que não tem perdão. | Porque os outros têm medo mas tu não.  | Porque os outros são os túmulos caiados | Onde germina calada a podridão. | Porque os outros se calam mas tu não. | Porque os outros se compram e se vendem | E os seus gestos dão sempre dividendo. | Porque os outros são hábeis mas tu não. 

Sempre acreditei ser possível nos reconhecermos no outro e foi o que nos aconteceu. A leitura é exatamente isso. Um olhar no espelho para espiar os nossos contornos-recortes-formas-e-fôrmas. Colorimos os olhos-lábios. Disfarçamos as rugas. Fingimos os anos, mas o íntimo — essa caixa onde tudo se guarda-esquece — se mantém intacto.

E me reconheci em ti… e gostaria imenso de me lembrar do que risquei no papel naquela tarde-noite de chuva. Mas tudo que vejo e sinto são os movimentos do grafite pelo papel. Não alcanço palavras… apenas o silêncio do momento, o som da chuva e pequenos movimentos dentro e fora.

Talvez porque sua poesia me faça olhar para dentro e redescobrir coisas esquecidas… “porque os outros vão à sombra dos abrigos | e tu vais de mãos dadas com os perigos.  Porque os outros calculam mas tu não”. 

Ao menos eu me lembro de ti e espero nunca esquecer-te.

 

Au revoir

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resenha | o vermelho por dentro…

Por Julia Bernardes


 

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A autora Lunna Guedes nunca cansa de me surpreender e, quando o assunto é se divertir com a reação alheia, provocada, é claro, por suas ações estrategicamente pensadas, ela se esmera para poder desfrutar de cada momento, transformando-os sempre em “experimentos”. Ela adora observar, analisar… Tomar o corpo do outro para si e então… Ritmar e alinhavar palavras que componham em folha de tom amarelado de papel desnudo, a história que clama para que seja contada. e foi exatamente isso o que fez com “Vermelho por Dentro”.

Quando ouvi que o título-nome de seu próximo livro seria esse, pensei: “Com este título… Certamente ela deve ter percorrido a derme de cada um dos personagens, explorando seus anseios, conhecendo seus medos, pulsando seus amores — incluindo os considerados tidos como impossíveis —, sentido o enraizar das mazelas do fracasso, absorvendo sua ira, sonhos, fraquezas e, sobretudo, analisando suas ações, ora frustradas, ora gloriosas. Preciso ler esse livro “ontem”, porque o título já me causou reações e… As quero dentro de mim e …adversas”. Ou seja, enquanto eu divagava, devo ter feito cara de louca ansiosa… e ela deve ter adorado ver. Típico!

“Vermelho por Dentro” é obra que entorpece o leitor por sua inexatidão de movimentos, tal qual a imperfeita vida que nos ronda, instiga, desafia… Os personagens se apresentam como a transcrição do que nos é conhecido… Seres à primeira vista comuns, iguais… Entretanto, com um pouco de perspicácia e sutileza despercebida, a autora consegue despi-los de suas enfadonhas carcaças estereotipadas e perfeitas para uma sociedade que se satisfaz com falácias, e deles passa a extrair o vermelho que os move.

Ao ler, vermelho por dentro, pude perceber que a escrita de Lunna dinamizou o que a olho despretensioso pareceria apenas o óbvio, me permitindo ignorar julgamentos para apreciar o humano. Pude explorar a ranhura por dentro de cada personagem e, com eles, passei a questionar ações minhas e dos que me cercam, porque vermelho por dentro sou eu, ou qualquer outro que se atravesse em leitura catártica.

Não há diálogo sem motivação, não há ação sem consequência, ainda que seja o nada. Perguntas existem, muito embora respostas venham apenas com particularidades paradoxais. Não pense ler “Vermelho por Dentro” e encontrar a natureza semântica dos movimentos dos personagens, ainda mais se quiser começar por Eva, mulher forte, determinada, com alma movida à liberdade e tolerância zero para dramas impertinentes e acusações infundadas… Ela não pode ser analisada, pois sua natureza é ser observada. Claudia exala previsibilidade ao se apoiar em muletas de culpa. E George, figura que cativa sem estardalhaços, se sobressai com sua delicadeza ao abordar os mais variados temas, sem nunca abraçar inconveniência. Tantas personalidades… Tantas derivações de mesmo tema… Tantas distrações nomeadas erroneamente como pertinência… Mas apenas uma história, com caminhos que se cruzam, se paralelizam e se findam para que outros sejam traçados.

Não há como ler e não querer sugar mais informações sobre os personagens, sobre o futuro, sobre nós mesmos… A leitura é intensa, em ritmo ajustado pela frenética busca por respostas e por finais que nos promovam a satisfação, ou… O que possamos considerar justo, entretanto para a autora não há culpa, tampouco justiça… Então, não procure saber os “porquês”, pois a grata leitura às suas linhas está justamente em descobri-los sozinho.

CARTAS PARA ABRIL | o outro, o mesmo!

Por Lunna Guedes


 Meu caro Borges,

 

…enquanto ouvia o sr. Mischa conduzir magistralmente seu violoncelo, dedilhando Bach, revisitei ‘o outro, o mesmo’. Seu livro preferido dentre tantos que rabiscou em vida.

Antes de saber disso já o tinha eleito ‘meu favorito’ pelo título… que cresceu aos meus olhos. Me encantei com sua Buenos Aires ‘dentre as ruas que afundam o poente / alguma (não sei qual) eu percorri / por uma última vez, indiferente / e, s adivinha-lo, obedeci’.

Sei que o livro foi escrito ao longo dos dias, sem pressa. Com o olhar, mesmo em grande dificuldade, a capturar o pouco que lhe chegava, em gotas embaçadas.

Não consigo imaginar como foi para esse outro, o poeta que lhe habitava, ver esmaecer gradativamente a poesia. Existir sem esse importante sentido deve ter lhe custado uma vida inteira. Como viver sem esse outro? Não consigo imaginar Pessoa sem cada uma de sua personas e não consigo lhe imaginar Borges sem o poeta que me me seduziu com grandes goles de tudo-e-nada.

Sempre que leio seus poemas… inevitalmente recordo suas reclamações e acabo com um sorriso pintado nos lábios — nunca entendi porque minhas segundas versões, como ecos apagados e involuntários costumam ser inferiores às primeiras’.

Tenho para mim que o título de seu livro-favorito foi um afago em seus queixumes. Quem escrevia primeiro, era o outro, o poeta. Quem reescrevia era o Homem… a bordo de todas as suas insatisfações-inquietações. O poeta era mais leve  ‘todas as coisas são palavras da / língua em que Alguém ou Algo, noite e dia, / escreve essa infinita algaravia / que é história do mundo’. Era quem sorvia tudo.

…ao Homem restava o fundo da xícara, o café frio-amargo.

 

Ó destino de Borges,
Talvez não mais estranho que o teu.

Cartas para abril | a teus pés…

Por Lunna Guedes


 

my dear,

 

Faz sol entre esquinas. O latte acabou e a leitura que era feita entre goles, agora vai a seco. Leio-te novamente e recordo coisas nossas-suas-minhas. A nostalgia-gavetas… coisas tão minhas-suas. Causa de espanto-soluço. Uma soma improvável.

Guardei algumas coisas do passado recente. O mais antigo… fiz questão de estragar — amassei-rasguei-queimei. No tempo em que a raiva fervia em meu íntimo. Brasa acesa. Fúria crescente. Uma tempestade a causar estragos por onde passa…

É estranho recordar essa outra pessoa que fui… faz tempo. É como abrir uma dessas gavetas e revirá-la. Foi ela quem lhe escreveu ao saber-te através de outra poeta, a que apresentou a poesia à menina que eu fui. Nossa! Eu já fui tantas! — estou velha, minha cara. Já dei algumas voltas ao redor do mundo, sem mapas-destinos-lugar. Guardei alguns pores do sol na memória, o resto descartei. Hoje estou com os pés bem fincados nesta cidade urbana que eu gosto de dizer de Mário, apenas não dizê-la minha. Não ria…

Encontrei uma das cartas que lhe escrevi… não sei como sobreviveu. Estava no meio de outras tantas que escrevi e não enviei. Eu escrevo para o papel, ainda que tatue um nome nele. Não indica norte-destino-coisa-alguma.

Gosto imenso do ato de escrever… me faz lembrar das viagens de Comboio de ontem. A plataforma de Nervi. Os humanos em estado de partida-chegada. O tempo de espera. O velho relógio no alto a contar segundos-minutos… ignorados por mim. O apito agudo do trem. O embarque. Eu era sempre a última a embarcar…

Dentro do envelope que leva o seu nome, encontrei o bilhete-verde de meu último embarque. Virou marcador das páginas do teu livro — lido incontáveis vezes, esquecido outras tantas no fundo da gaveta-prateleira-caixa-alma e, que hoje voltou a aquecer minhas mãos, com suas dúvidas-certezas-medos-silêncios.

Acho que deveria lhe enviar um postal… com a cara da cidade empalhada — para marcar o momento de hoje… este dois mil e qualquer coisa, outono, dia de sol e uma libélula a bater contra o vidro, como se quisesse entrar e participar dessas linhas.

 

au revoir,

Cartas para Abril | É preciso estar sempre embriagado…

Por Lunna Guedes


 

Meu caro Poeta,

…parei em suas linhas ao arrumar as prateleiras no meio dessa tarde, quando seu livro se precipitou ao toque — oferecendo-se para leitura. É abril por aqui… e esse mês não lhe pertence. É de Eliot que o intitulou como ‘o mais cruel dos meses’… um precioso verso, não achas?

Mesmo assim, eu não resisti ao seu ‘convite’… abandonei a arrumação e fui para a cozinha: preparar um café… aceitas?

…‘como o mendigo exibe a sua sordidez’ — sempre que leio “les fleurs du mal” penso em tua Paris… mais humana, menos luz. As pessoas ainda tinham tempo para acenar umas as outras. Era possível dialogar as poucas notícias do mundo. Apreciar os artistas de rua… se oferecer como modelo ao pintor desconhecido, apenas pelo prazer de se deixar ver-retratar.

…‘fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça’ — será que foi após a passagem do famoso-arquiteto-urbano por lá… que tudo mudou? Ou será que outros antes dele, agiram sem serem vistos?

Remendaram tua Paris… e a fizeram Luz. Pouco humana — andrógina. Uma estranha, que eu conheci sem, contudo, reconhecer-te naquele mal elaborado traço, onde multidões se orientam. Andei com o teu livro por várias ruas, museus, galerias… e nada. Curioso é que vejo o mesmo acontecer na cidade em que vivo meus dias contemporâneos. Seria uma inspiração tardia  ou seriam os tais homens a agir nas sombras?

Eu não lhe disse… mas estamos a bordo do século XXI — e lhe confesso que é embaraçosa tal afirmação. Tudo por aqui se repete, como se a vida, o mundo andasse em círculos. A cidade luz de Haussmann sobreviveu com suas luzes… mas querem arrancar dela o seu bem mais precioso… a sua essência: a liberdade. Querem calar os pincéis. Quebrar os grafites. Rasgar cartazes. Mutilar telas.

… ‘a tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez’ — proibir voltou a ser Palavra de Ordem. Tudo orquestrado por Senhores que erguem a voz para defender a tal: ‘família tradicional’… aquela que zela pela moral e bons costumes.

…‘em meio às hienas, às serpentes, aos chacais’ — e esses senhores, meu caro poeta… estão a vencer. Uma nova forma de censura já se faz notar.

Eu espio pessoas do alto de seus discursos inflamados, tão certos e definitivos… e não digo palavra. E sei que não sou a única a sentir cansaço. Essa gente só quer dialogar com iguais… tão acostumadas as mesmas falas — repetidas incansavelmente — que estão.

Eu confesso que estou me acostumando a sorrir e acenar… como faziam as moças vitorianas. Imagino sua gargalhada, mas é cansativo existir nesse tempo, lhe asseguro… embora — insistente —, ainda percorra os arredores de todos os corpos-mambembes, convertidos em marionetes a marchar rumo a esquerda-direita. Tanto faz… mais café?

…‘é o diabo que nos move e até nos manuseia!’.

Não é promessa… é regra!  

Por Lunna Guedes


 

…ainda há um pouco de dezembro em minhas laterais — mas há também um pouco de novembro-outubro-setembro… e de todos os outros meses que ainda não foram devidamente degustados, porque eu sou feita de pequenos goles e preciso de todos os meus cinco sentidos: o tato, o paladar, a visão, o olfato e a audição, quando tenho diante de mim uma taça-xícara-copo-branco-de-papelão-transparente-de-vidro… e eu gosto, sobretudo, daquele último gole que fica no fundo — sempre me demoro nesse pequeno ato-gesto… de levá-lo à boca. Gosto de saber que alguma coisa fica para o momento-dia seguinte, porque aprecio deveras olhar para trás e mergulhar nessa superfície que tanto me agrada, afinal, sou uma colecionadora de “pretéritos”.

Eu não faço parte da turbamulta que grita, lança oferendas ao mar, come lentilhas e faz promessas — no último minuto — que não serão cumpridas. Não solto fogos… tampouco me lembro de dizer ao outro que passa por mim, a caminho de lugar nenhum: “feliz ano novo”.

Mas, troco o calendário-da-mesa…  a folhinha-de-trás-da-porta… compro agenda nova e tento me acostumar à nova sequência de números. Nos primeiros dias, sempre me atrapalho-erro-engasgo… e fico com o velho a soluçar em meus vãos.

Prefiro o ano escrito por extenso… “dois mil e dezoito” — o ano do cachorro —, de acordo com o horóscopo chinês, que neste ano só chegará depois do carnaval… e eu desejo apenas que seja realmente novo! E, quanto às promessas?

Concluí… que fiz pouco em 2017 — eu acordei dúzias de vezes e dormi outras centenas. Tive milhares de conversas que ainda não foram digeridas por completo. Me apaixonei. Me decepcionei. Chorei. Sorri. Esperneei. Descobri que nunca vou gostar de cerveja e vou sempre adorar uma taça de vinho. Escrevi milhares de palavras. Apaguei algumas… rasguei algumas folhas e amassei outras tantas. Escondi rascunhos no fundo do baú-gaveta… no meio dos livros. Me emocionei com o vento, as folhas, o chão de terra… e as flores. Com a chuva molhando a paisagem, os trovões iluminando as trevas e o sol se pondo a Oeste.

Deixei meu cansaço falar mais alto… ocupei bancos da praça e brinquei com os cães que atravessaram meu caminho. Afundei o olhar no fundo do espelho em busca de rugas… e me aborreci por não achar as benditas, mas há marcas-manchas novas, porque o ano precisa deixar marcas e eu as quero em mim — sempre quis.

Me zanguei. Gritei alto com o papel. Cortei a pele. Rasguei a alma. Cometi erros bobos-primários. Acertei a quina da cama. Bati com a cabeça no vidro. Recordei a vida anterior a essa. Ouvi as velhas badaladas da infância. Respirei fundo para não gritar com os humanos empacados à minha frente. Desviei da realidade.

Fiz bolo, pão, tortas… bebi muita água-chá-café-vinho… caminhei por ruas vazias e calçadas solitárias. Espiei janelas, portas entreabertas. Inventei moda. Pintei o sete. Rosnei para uns e sorri para outros…

Fui eu mesma…  outra. Fui o que quis… o que deu para ser… ninguém! Errei o caminho, tropecei, caí… me levantei. Tomei banho de chuva… de sol. Rolei na grama. Abracei árvores e fechei os olhos para adormecer junto às ilusões que coleciono dentro. Senti saudade-falta…. a presença na ausência das horas seguintes.

E, para esse ano — novo (?) —, eu quero tudo de novo… o mesmo, em dobro. Insisto… vou conjugar os mesmos verbos e re-formar antigas frases. Não é promessa… é regra.  

O último capítulo…

Por Lunna Guedes


 

Espiar as horas, os dias, as semanas encadeadas umas nas outras e ver o calendário todo marcado. Chegou dezembro… e uma pergunta se agiganta dentro, enquanto amasso a folha de novembro com a mão esquerda: para onde foram todos os meses de 2017?

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Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

 


 

 


 

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.

 



Participaram desse ‘coletivo’ os autores:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | A REALidade das coisas…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 

Sou o tipo de Editora que leva os textos para andar… pelos cômodos da casa, as ruas e calçadas da cidade porque preciso dar passos com o texto em mãos-mente-memória-cuore para sentir o Autor e seus movimentos. A escrita é movimento das palavras e seus muitos sons, os lugares que pisa e os corpos que habita.

A maioria dos textos-crônicas que compõe essa copilação denominada ‘REALidade’ — uma obvia brincadeira do Autor e sua Editora com a questão da vida-mundo-persona — vieram do Facebook, onde “dom’ Obdulio arremessa vez ou outra os seus pensamentos-ações-olhares — para o meu completo e total desgosto.

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Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 


O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016


 

Palavra do Editor | Alameda das Sombras…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


“mas eu não me importava e seguíamos juntos numa boa
— sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes
um em volta do outro, como novos amigos apaixonados.”
on the road

 


 

Quando Marcelo começou a me enviar o material para o seu novo livro, estava a ler pela milionésima vez ‘on the road’… e não podia imaginar o quão significativo seria esse ‘pequeno detalhe’ — uma ‘espécie de trilha sonora’ na arquitetura de ‘alameda das sombras’… que veio para minhas mãos com outro rótulo — descartado após meia hora de conversa com o Poeta.

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Palavra de Editor | Detalhes Intimistas

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


 

É preciso dizer que o universo dos livros — longe das estantes — é fascinante. Antes de existir em seu formato ‘tradicional’, de capas e páginas… o livro em si é apenas um emaranhado de folhas, com milhares de palavras. Antes de alcançar a estante, o livro passa pelo processo de criação — onde pode não ter tempo de ser mais que um mero rascunho…

Escreve-se muito, o tempo todo: enquanto se pisa calçadas, atravessa ruas… toma-se um café no meio da tarde, come-se uma generosa fatia de bolo. O pensamento não para… mas, nem sempre se tem tempo para espantar as sombras com o martelar das teclas do computador.

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