Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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O mapa de vênus | poesias

R$ 50

 

 


 

O mapa de vênus é um coletivo poético, organizado por Lunna Guedes que escolheu sete damas da poesias, que ronda sua vivência para traduzir. Nessa seleção, lê-se a poesia de Alejandra Pizarnik | Anne Sexton | Emily Dickinson | Laura Riding | Maria Gabriela Llansol e  Wislawa Szymborska… intercaladas por missivas que apresentam ao leitor o momento em que cada poeta atravessou o caminho da autora-editora-mulher-organizadora desse projeto.

 

Palavra do Editor | O mapa de vênus

Por Lunna Guedes


Numa primeira fase, esse original destinava-se à revista Plural e dele se deveriam fazer separatas. Mas, por vicissitudes várias, não foi nunca publicado e acabou esquecido no fundo de alguma caixa-gaveta.

No final do ano passado, no entanto, reencontrei a pilha de livros selecionadas para leitura e os esboços das missivas escritas nas manhãs de domingo a uma correspondente habitual desde 2014. E, ocorreu-me rever a proposta original, dando novo ritmo ao material. Me rendi à publicação, como algo novo-inédito para a Scenarium, que ainda não tinha publicado algo nesse sentido, embora tenha flertado em vários momentos com propostas outras… todas descartas sequencialmente.

Em missiva escrita no começo desse mês — conclui com visível satisfação a possibilidade de ‘fazer um livro bonito’ com minhas poetas-mulheres… pelas quais tenho imenso apreço. Fui alfabetizada com poesias. Os versos de Dickinson me fizeram compreender sentimentalidades dissonantes em minha pele. Ela foi a primeira a se aninhar em minhas entranhas. Depois vieram outras tantas… e para a minha alegria, em tempos distintos, permitindo um respiro ao meu íntimo, que considero necessário.

Concluído esse original, só posso dizer que espero que o eco que as linhas dessas senhoras-damas-da-poesia deixa em minha pele, varra sua amalgama do leitor

 


 

 

Lunna Guedes

2018-02-22 12.31.01

sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios e apreciadora de espaços urbanos. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. aprecia o outono em qualquer hemisfério.

| escreve por escrever somente |

seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros… a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabadas… nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. prefere reticências e cadernos com folhas de amarelecidos tons.

 


 

Lunna Guedes é autora de “reticências”,
da “trilogia lua de papel” — “septum” e “vermelho por dentro”
Para mais informações clique aqui…

Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

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Não é promessa… é regra!  

Por Lunna Guedes


 

…ainda há um pouco de dezembro em minhas laterais — mas há também um pouco de novembro-outubro-setembro… e de todos os outros meses que ainda não foram devidamente degustados, porque eu sou feita de pequenos goles e preciso de todos os meus cinco sentidos: o tato, o paladar, a visão, o olfato e a audição, quando tenho diante de mim uma taça-xícara-copo-branco-de-papelão-transparente-de-vidro… e eu gosto, sobretudo, daquele último gole que fica no fundo — sempre me demoro nesse pequeno ato-gesto… de levá-lo à boca. Gosto de saber que alguma coisa fica para o momento-dia seguinte, porque aprecio deveras olhar para trás e mergulhar nessa superfície que tanto me agrada, afinal, sou uma colecionadora de “pretéritos”.

Eu não faço parte da turbamulta que grita, lança oferendas ao mar, come lentilhas e faz promessas — no último minuto — que não serão cumpridas. Não solto fogos… tampouco me lembro de dizer ao outro que passa por mim, a caminho de lugar nenhum: “feliz ano novo”.

Mas, troco o calendário-da-mesa…  a folhinha-de-trás-da-porta… compro agenda nova e tento me acostumar à nova sequência de números. Nos primeiros dias, sempre me atrapalho-erro-engasgo… e fico com o velho a soluçar em meus vãos.

Prefiro o ano escrito por extenso… “dois mil e dezoito” — o ano do cachorro —, de acordo com o horóscopo chinês, que neste ano só chegará depois do carnaval… e eu desejo apenas que seja realmente novo! E, quanto às promessas?

Concluí… que fiz pouco em 2017 — eu acordei dúzias de vezes e dormi outras centenas. Tive milhares de conversas que ainda não foram digeridas por completo. Me apaixonei. Me decepcionei. Chorei. Sorri. Esperneei. Descobri que nunca vou gostar de cerveja e vou sempre adorar uma taça de vinho. Escrevi milhares de palavras. Apaguei algumas… rasguei algumas folhas e amassei outras tantas. Escondi rascunhos no fundo do baú-gaveta… no meio dos livros. Me emocionei com o vento, as folhas, o chão de terra… e as flores. Com a chuva molhando a paisagem, os trovões iluminando as trevas e o sol se pondo a Oeste.

Deixei meu cansaço falar mais alto… ocupei bancos da praça e brinquei com os cães que atravessaram meu caminho. Afundei o olhar no fundo do espelho em busca de rugas… e me aborreci por não achar as benditas, mas há marcas-manchas novas, porque o ano precisa deixar marcas e eu as quero em mim — sempre quis.

Me zanguei. Gritei alto com o papel. Cortei a pele. Rasguei a alma. Cometi erros bobos-primários. Acertei a quina da cama. Bati com a cabeça no vidro. Recordei a vida anterior a essa. Ouvi as velhas badaladas da infância. Respirei fundo para não gritar com os humanos empacados à minha frente. Desviei da realidade.

Fiz bolo, pão, tortas… bebi muita água-chá-café-vinho… caminhei por ruas vazias e calçadas solitárias. Espiei janelas, portas entreabertas. Inventei moda. Pintei o sete. Rosnei para uns e sorri para outros…

Fui eu mesma…  outra. Fui o que quis… o que deu para ser… ninguém! Errei o caminho, tropecei, caí… me levantei. Tomei banho de chuva… de sol. Rolei na grama. Abracei árvores e fechei os olhos para adormecer junto às ilusões que coleciono dentro. Senti saudade-falta…. a presença na ausência das horas seguintes.

E, para esse ano — novo (?) —, eu quero tudo de novo… o mesmo, em dobro. Insisto… vou conjugar os mesmos verbos e re-formar antigas frases. Não é promessa… é regra.  

O último capítulo…

Por Lunna Guedes


 

Espiar as horas, os dias, as semanas encadeadas umas nas outras e ver o calendário todo marcado. Chegou dezembro… e uma pergunta se agiganta dentro, enquanto amasso a folha de novembro com a mão esquerda: para onde foram todos os meses de 2017?

Amanheci estações… outonos-invernos-primaveras — luas… novas-crescentes-cheias-minguantes e negras. Vi semanas começarem-e-terminarem num estalar de dedos… feriados esvaziarem a Paulicéia. Festas coloridas-pálidas-religiosas. Eclipses do sol, da lua… da minha pele, de certos olhares. Mas, algo escapou pelos meus vãos. Eu sei e você também sabe que é impossível se lembrar de tudo o que foi feito durante trezentos e tantos dias. O não-feito, no entanto, acena e te avisa com uma gargalhada sonora-irritante: ‘você não deu conta de tudo’…

Acompanhei as cores impostas aos meses e as comemorações de amigos, nascidos aqui e acolá. Me despedi de uns… custei a acreditar na partida de outros. Solucei saudades. Sorri reencontros e celebrei conquistas e derrotas. As somas se repetem, independentemente do ano que o calendário anuncia com sua sequência numérica equivocada.  Dois mil e dezessete, certo?

Mas, esse ano foi de uma pressa impressionante… e as pessoas, em sua maioria, seguiram o mesmo ritmo. Os assuntos foram se sobrepondo uns aos outros, numa estranha desordem difícil — quase impossível — de acompanhar. Os temas se emaranharam nessa teia chamada realidade. Nada se esgotou de fato… tudo foi se enroscando, numa espécie de bola de neve a descer pelo vale.

Faltou silêncio-quietude. Sobrou barulho. Até os trovões se calaram diante de tantos ruídos tolos… humanos! Quanto cansaço… a empurrar o despertar para depois. E, no meio de tanto desaforo, já há pessoas implorando por 2018, para pode chamar de velho esse 2017 tempestuoso.

Mas, eu espio com alguma desconfiança esse falso-novo. Não sou de depositar esperanças em potes de barro-cru, portanto, sigo aqui tentando me acertar com as linhas emaranhadas desse novelo, para tentar fazer um par de luvas.

Vermelho por dentro | Lunna Guedes

 

R$ 45

 

 


…traz duas personagens femininas ‘mãe e filha’ e seus dilemas de vida. Duas figuras firmes-fortes-e-sonoras, conscientes de que tudo poderia ser diferente em suas vidas, mas uma vez feitas as escolhas, não é possível olhar para trás e pensar um futuro novo — diferente. É preciso conviver com o resultado das escolhas feitas. O passado de uma determina o futuro da outra, resultando em mágoas-distancias-e-ausência. Mas nem mesmo a mágoa que pauta os gestos das personagens impede que elas se amem, se respeitem e torçam uma pela outra, em seus caminhos inexatos’.

 

18 – Nem sempre a lápis | trecho de vermelho por dentro

Após o último prato ser retirado da mesa, passaram à outra sala, com seus estofados brancos e dúzias de retratos dos antepassados da família Amaral, pendurados nas paredes — sempre tão azuis —, pintados por Tony Koegl, um alemão que tinha migrado para o Brasil, em 1927.
Deborah reconheceu o estilo do pintor, que abusava das fortes pinceladas. Preferiu se afastar das telas… espiar de longe as cores quentes misturadas… se oferecendo aos olhos do ‘panteão’ Amaral.
— O melhor dos retratos dessa casa não está aí. O guardo para mim, pendurado na parede de meu quarto. — cochichou Eva, ao se aproximar de Deborah.
A troca de olhares e de sorrisos não passou despercebida de Claudia, que se sentiu mais uma mendiga de afetos, com as mãos vazias, em suspenso no ar, e foi atrás de um cálice de licor, como forma de amortizar seus desconfortos. Bebeu o líquido escuro de um gole só e sentiu imediatamente o efeito do gesto febril no corpo todo. Respirou fundo e se equilibrou nos saltos que, por um instante, pareceram afundar-se no chão. Passados alguns segundos, sentiu-se pronta para outro gole. Encheu o copinho, sob o olhar de reprovação de Helza, e pôs tudo para dentro.
Sentia-se melhor… sentou-se ao lado do pai, no braço da poltrona, enquanto procurava por respostas às perguntas que fervilhavam dentro. E, como os diálogos estavam inaudíveis, resolveu quebrar o silêncio com sua voz em ondas.
— Você é casada, Deborah?
— Non!
— Então, não tem filhos?
— Ne pas!
— Foi por falta de oportunidades?
— Certainement! — ironizou, dividindo o sorri-so com Dario e Eva.
— Você não parece o tipo de mulher que um homem escolhe para se casar?
— E esse ‘tipo’, por acaso, existe?
— Uma mulher de família… se prepara a vida toda, desde o seu nascimento, para viver o seu grande momento: entrar na igreja, com o mais belo dos vestidos, e caminhar por entre os convidados, ao som da
marcha nupcial. Uma vez no altar, diante do padre e da igreja lotada, ela ouve o melhor dos sons: o ‘sim’ definitivo de seu noivo.
Deborah percorreu com o olhar toda a figura de Claudia… um mísero borrão de tinta no canto da mesa, insistente-teimoso — e que custa a sair, quando sai.
— Não existe uma única mulher que não sonhe com esse grande momento. Ter um marido, a sua casa e filhos é o que nos faz realizadas, o que dá sentido às nossas vidas.
— A única coisa que dá sentido à minha vida é a minha arte.
Claudia respirou fundo e deu de ombros para
aquele comentário, que considerou tolo e insignificante, típico de alguém que quer se mostrar superior. Estava certa, no entanto, de que era apenas fingimento… e foi adiante em seus questionamentos.
— Eu estou curiosa — disse Claudia, em movimento pela sala —, como foi que você e Eva se conheceram?
Mauro quase desfaleceu ao ouvir a pergunta… engoliu o resto de licor, provocando arrepios na pele fria. Se tivesse forças, teria se levantado e deixado o recinto, mas permaneceu imóvel, a respirar com alguma dificuldade.
Deborah sorriu suas verdades arremessadas ao vento… seu livro de Baudelaire e seu velho caderno de folhas gastas, onde rabiscava ensaios futuros, deixados no canto da cama, pouco antes da partida. As ondas da praia, numa manhã de outono, a molhar seus pés… e o olhar de seu menino guitarrista a lhe confessar suas sentimentalidades. A primeira vez que percorreu seus mapas urbanos e as palavras de Martin, que adorava pescar e sabia como preparar uma isca perfeita.
— Em Paris! Acho que foi no outono de Setenta e nove.
Claudia se incomodou novamente com a intimidade nos olhares cúmplices que partiam de Eva e chegavam a Deborah… enroscadas em um silêncio paralisante, como se partilhassem realidades cheias, onde
apenas as duas se encaixavam.
— No pior ano da minha vida, claro… Por que eu não estou surpresa, Eva?
Helza, que sabia onde o discurso de Claudia iria parar, pediu licença… usou como desculpa a necessidade de ir verificar o andamento das coisas na cozinha e saiu, trocando rápidos olhares com Eva. Em minutos, estaria de volta para livrá-la daquele interminável interrogatório.
— Vocês são amigas, conhecidas? Porque Eva Peixotto do Amaral é uma mulher com preferências e costuma ser muito exigente em suas relações. Comigo, por exemplo, é inexistente. Eu implorei para que ela voltasse de Paris quando precisei ser hospitalizada, mas ela ficou por lá, na sua companhia, pelo visto. Ela sempre prefere outras coisas a mim. Paris, os filhos dos empregados, das amigas… Qualquer coisa no mundo é mais importante que eu: a filha legítima de um casamento legítimo.
— Um típico dilema freudiano, facilmente resolvido na terapia, deveria tentar! — ironizou Deborah, depois de beber mais um pequeno gole de licor, provocando risos em Dario e Eva.
— Eu não preciso de terapia — retrucou Claudia, visivelmente irritada com os risos —, eu sou uma mulher moderna que ocupa a mente com trabalho.

 


 

Lunna Guedes… sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios e apreciadora de espaços urbanos. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. aprecia o outono em qualquer hemisfério.

| escreve por escrever somente |

seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros… a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabadas… nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. prefere reticências e cadernos com folhas de amarelecidos tons

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

Palavra do Editor | A REALidade das coisas…

Por Lunna Guedes

 

Sou o tipo de Editora que leva os textos para andar… pelos cômodos da casa, as ruas e calçadas da cidade porque preciso dar passos com o texto em mãos-mente-memória-cuore para sentir o Autor e seus movimentos. A escrita é movimento das palavras e seus muitos sons, os lugares que pisa e os corpos que habita.

A maioria dos textos-crônicas que compõe essa copilação denominada ‘REALidade’ — uma obvia brincadeira do Autor e sua Editora com a questão da vida-mundo-persona — vieram do Facebook, onde “dom’ Obdulio arremessa vez ou outra os seus pensamentos-ações-olhares — para o meu completo e total desgosto.

Continuar lendo “Palavra do Editor | A REALidade das coisas…”

Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes

 

O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016