Nota do autor | Vox literary

Por Marcelo Moro


ser escritor: a minha voz de escritor


 

Sempre que leio… e leio sempre em voz alta, imagino as vozes do autor e de seus personagens, como seriam de fato.  Quando o texto é bom, quando absorve e leva junto é mais fácil imaginar essas vozes e o porquê de serem como são. O conceito de voz deve estar implícito na formação do personagem. Mas não é tão somente a voz que se ouve que interessa ao leitor atento.

Da nossa voz de autor, em som, só se percebe uma ínfima porcentagem quando a grande maioria é o silencio sapiente e sepulcral das ideias representadas pelas letras frias sobre o papel. Minha voz de autor está naquilo que destilo, brota dos rasgos que produzo na própria carne para expor a matéria da alma. Uma espécie de vocalização imaterial que vaja em ondas de energia transparente e plena, o plasma que se conecta em tantos outros laços até os sentidos do leitor.

Eles e Elas me ouvem… sabem os sotaques e a dislexia. Tentam adivinhar a próxima palavra ou rumo e se arrepiam por inteiro quando se veem surpreendidos por tons acima, como as fugas fortíssimas das sonatas e sinfonias.

A voz conduz o verbo, leva na correnteza de ar soprada diafragma acima, calor, dor, prazer, intensidade e brilho, entre todas as outras sensações. É fato que as vezes a voz embarga, embaraça, enrola e tropeça nas palavras tudo multiplicado por dez quando a audição é a do aparelho sensitivo. Nasce como rio e devora as almas como o mar essa voz ditada calmamente aos ouvidos, lucidamente clara e indignamente pesada quando preciso for.

É voz de ouvir sentindo, vivenciando, experimentando as paixões mais absurdamente mágicas, ora belas, ora tristes, ora belissimamente tristes. Tem quem ouça como um alegretto de Vilvaldi o rompimento do cinza gelado invernal para o colorido agradável primaveril.

De verdade em verdade voz digo, a voz do autor é a emulação da realidade, é o vento que acaricia o cabelo da menina mais bela enquanto desce o ocaso.

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Nota do autor | Ser escritor: a minha voz de escritor

Por Nic Cardeal


 

Tenho guardado um segredo: minha voz, já quase muda, praticamente silencia na palavra escrita. Meus silêncios falam tão alto que nem percebo o som do mundo. Meus silêncios quase cantam, reverberando meus gritos emudecidos. Assim escrevo, prenunciada a melodia dos impossíveis gestos, a sinfonia dos sentidos em mim tão loucos, as sensações inusitadas que me avizinham à sombra de cada eclipse de mim mesma a descoberto. Quase sempre escrevo em versos, porque não sei seguir a linha em contínuos gestos, sou de poucos respiros, dos respiros aos sussurros, desse modo em descontínuo me nascem poemas, porque não sei dizer ao largo, ao vasto, em longínquos, sou tão descontínua de mim que não me atrevo a arriscar longas narrativas.

Por isso, muitas vezes me pergunto: o que é, afinal, um poema? Uma pessoa com asas, um voo em palavras, verdadeiro relâmpago de luz que cai dos céus por um triz, um sentir sem pensar, um pensar do sentir, um falar do sonhar? Geometria de abismos, o impossível dos mundos, a veia em que o sangue deita e, num átimo, levanta afoito para o grito quase rouco? Um viver quase louco, um despertar bem aos poucos, um fugir de mim porque sou tão pouca, em minha voz quase rouca, tão muda, que não se escusa a dizer silêncios?

Vou contar-te outro segredo: meus silêncios são fecundos porque preciso ouvir as vozes que me falam bem fundo. A voz do mundo, tão nua e crua, quase corta minha garganta e faz jorrar o sangue pousado nas veias (sim, é bem vermelho esse viver)! Está revelado: eu ouço vozes até no silêncio – as vozes ásperas, às vezes ríspidas, às vezes cândidas, às vezes velozes, ou mesmo rústicas. Por isso já disse, digo e prossigo a dizer, em alto e bom som: ‘tenho silêncios incrustados na garganta: eu grito por escrito’!

 

Notas do Autor | Gritos são hinos, clamados por pessoas mortas

Por Maria Vitoria


ser escritor: a minha voz de escritor


Quando bato os olhos no bigode de uma mulher dentro de um banheiro público e ligeiramente observo o que ela trás nas mãos, uma voz faz ecoar em mim os anos de escrita muda que eu trago na mala.

Quando uma mulher com o corpo cheio de germes passa a língua em toda a extensão do bocal de minha garrafa d’água, uma voz gutural emana em mim palavras de ódio.

Quando avisto pessoas prostradas em muros fumando maconha, vestindo terno e gravata, uma voz sobressai de minha mente direto a minha boca e ficam travando um vai e vem de questionamentos psicológicos.

Eu me sento em privadas de estações de metrô enquanto boto para rodar em minha frente todo o filme que gravei sobre uma suposta humanidade. E eu sinto vontade de rasgar as paredes com letras que são pesadas demais para jorrar nos papéis. Viro os olhos tantas vezes rápidos o bastante para não perder um ínfimo detalhe das cenas tristes, das milagrosas e das fodidas.

Respiro…

Deixo com que meu lado escritor não prevaleça. Pondero as feridas que tenho vontade de cuspir. Jogo para dentro de mim um colorido que não altere as cores das minhas paredes intestinais. Espremo os olhos. Seco com papel barato uma quantidade enorme de vezes o suor de minhas próprias mãos. Tento me olhar em algum reflexo visível. Contorso todo meu torso. Enjoo e me vômito na cor cinza chumbo. Então, finalmente, meu lado escritor expele toda a morte que meu lado racional fraciona.

O mundo grita em mim. As palavras vorazes gritam em mim. A guerra em mim habita e eu não sei distinguir o quão estranhamente eu ainda sou. Ser escritor é isso, é gritar com os olhos o que a boca não consegue alcançar e deixar com que as palavras que tanto carregamos na surdina das páginas se façam reféns de nossa própria loucura latente.

Gritemos!

Nota do autor | ouço vozes…

 

Por Obdulio Nuñes Ortega

 


ser escritor: a minha voz de escritor


 

…e, sinceramente, não saberia dizer qual delas me representaria. Ser escritor me dá a chance de me expressar pelas bocas de personagens. Muitos deles, falam por mim. Outros, contra mim…

Em meio a tantas expressões, eu concordo ou discordo, aceito ou contesto o que me revelam. Certamente seria um caso psiquiátrico. Algum tipo de transtorno. Contudo, reúno todos os meus fantasmas em uma mesma persona e enfrento o conflito, consciente do risco de motim a qualquer momento.

Eu acreditei que tinha construído esse personagem-escritor para comandar todas as ações… deixando sob a responsabilidade dele as suas-minhas-nossas idiossincrasias. Como se dessa maneira tivesse encontrado uma espécie de cura para os meus males, mas percebo com o passar dos dias, que fiz piorar a doença que me consome.

O que esse personagem faz… é espalhar côdeas de pão para marcar o trajeto e eu me vejo, na condição de bicho sorrateiro, a comê-las, para apagar seu rastro e ser o único a seguí-lo. Armadilha feita… me deixei sem chance de voltar, me obrigando a esse Norte que ele se transformou para mim. Às vezes, fico mudou se ele nada diz e, às vezes, feito um típico capitão de um navio pirata, sinto que ele se tornou minha própria alma, autônoma do corpo.

Notas do Autor | Papel em branco não é cartolina…

Por Maria Vitória


o branco que me atormenta


 

Embrulho meus olhos em colchas com fiapos de arame e não há saída, tudo o que eu posso ver de uma forma meio turva, são folhas e mais folhas em branco pulsando de minhas retinas.

Caminho até a cozinha em busca de vinho branco. Mastigo meia garrafa de uma vez. Dou uma bebericada num licor de jabuticaba na esperança que uma luz acenda em meu cérebro e eu possa me livrar deste maldito branco que me atormenta. Infelizmente, as duas coisas falham miseravelmente.

Me dirijo a varanda portando apenas chinelos e cueca. Trago todo o peito desnudo num dia de sol com uma temperatura pra lá de choca. Observo de ouvidos atentos as conversas que se dão lá em baixo nas ruas.

— Vou matar sua mãe, seu filho da puta.

E por aí as coisas se seguem…
Retorno a minha escrivaninha e tento separar as latas de alumínio das garrafas de vidro. Toco bruscamente as folhas em branco de baixo de um livro de psicologia. Respiro agoniada… Porra, já fazem uma semana que eu não tenho nada a dizer, que meu cérebro não formula nada, que meus dedos não assam pelo atrito da caneta, que eu não boto uma vírgula numa poesia qualquer.

Resolvo sair pra caminhar e fumar um beck. Dia de feira. Paro para comer um pastel especial que é tão grande, tão grande que são quatro pastéis normais em apenas um. Encharco o recheio de pimenta. Tomo uma cerveja e uma lata de vodka sabor kiwi.

— Moça, você não é filha da Marta, a escritora?
— Não meu senhor. Eu sou filha da Marta a cozinheira.

Me sento num ponto de ônibus e retiro do bolso o celular, abro no bloco de notas:
Vinte minutos se passam, sete ônibus passam, uma criança cai e esfola o joelho, dois carros da polícia militar perseguem um Honda Fit cinza a toda velocidade, a fila do banco cresce, três pombos cagam bem próximos a mim. Lembro que não levei o lixo pra fora… mais vinte minutos olhando para uma tela em branco.

Se fosse só escrever e tapar toda a branquitude de folhas em branco seria tão mais fácil. Mas, pra mim é tudo tão penoso, não é só sentar e escrever e versar por entre um milhão de linhas. É necessário vomitar um pastel especial de carne com ovo, azeitonas pretas, presunto, cebola e muita pimenta. Ai talvez, eu disse talvez… é possível burlar o branco que tanto me atormenta.

Notas do Autor | Morte em vida…

Por Obdulio Nuñes Ortega

 


o branco que me atormenta


 

Há uma paz que mata – o branco da não-criação. Branco que parece abarcar sentidos-sentimentos-emoções-olhares, invadir o coração, paralisar o passo para dentro de si.

Aconteceu comigo recentemente. O meu pai faleceu e, por quase um mês, não consegui escrever palavra. Reeditei escritos para o blogue. O mais estranho é que não queria aceitar o luto. Tinha uma relação tempestuosa com o Senhor Ortega. Não chorei. Não escrevi.

Acostumado a vir jorrar os temas a cada passeio que fazia pela terra dos homens, só fui perceber a minha abstinência de palavras quando precisei entregar um texto. Pedi ajuda a um escritor que estou tentando deixar de ser – aquele que erra por omissão, quando escreve. Que se perde em fórmulas repetidas. Que reitera desalinhos. Como um náufrago na imensidão do mar branco, eu o busquei como boia de salvação.

Inconformado com o branco que lavava minhas impurezas, talvez estivesse até mais ressentido com meu pai por esse efeito de desertificação criativa. Eu odiava me sentir tão pequeno e rancoroso. Debitava isso em sua conta. Evidentemente, o desvio de comportamento se ajuíza ser o meu. Isso acontece, quando tentamos não mentir mais para nós mesmos.

Voltei a escrever quando surgiu um personagem-tema em um dos eventos que fazia. Fiquei feliz ver nascer uma história triste para ele. Mal sabe aquele senhor o quanto o seu comportamento fora de prumo ajudou a um estranho. Baile Eterno. A do escritor em busca da contradança perfeita.

Quanto ao meu malvado favorito, agora que passou, nunca esteve tão presente em minhas horas. Sei que, um dia, na eternidade, passaremos nossas diferenças à limpo. Ou antes, acabarei por ficar igual a ele, homenageando a sua maldição. Seria como se o (me) perdoasse…

Notas do Autor | Crepúsculo dos deuses

Por Marcelo Moro



ser escritor: o confronto das emoções


 

Como bom leitor, quando o texto é bom eu viajo nele, me entrego e vivo todas as emoções possíveis, de rir infinitamente e de chorar profundamente.

Eu leio quase sempre em voz alta, por isso ler em público é meramente desconfortável.
Um dia no metrô, de fones nos ouvidos torando um Camisa de Vênus lá dentro da minha alma, lendo um conto de Borges, o senhor sentado ao meu lado me cutucou e disse – Ninguém quer saber essa história estranha aí não – eu ri.

Um androide controlado por esse sistema multifacetado mas com um único amém no final, falando dessa maneira, não comigo, mas com Borges, merecia um murro bem dado ou um tiro no escuro, mas eu não sou de violência e apenas ri da impertinência.

Me confronto com as emoções e vivo do confronto entra elas quando leio, até bula de remédio tem esse efeito e tomo partido mesmo, como se não houvesse amanhã.

Quando escrevo é um pouco mais intenso e mais grave, sou deus com o gatilho nas mãos, faço sofrer, faço se dar bem, faço gozar de um gozo hiperbólico sem moderações.

A emoção faz parte do rasgo na carne e do buraco na alma, e assim elétrica como é vai se conduzindo das unhas dos pés ao couro cabeludo.

Em muitas páginas se confrontam bem e mal, intenso e frouxo, cálido e gélido, mentes, mãos, línguas e viagens sensoriais possíveis, basta ter coragem.

A emoções se contrapõem e a alma embarca numa montanha russa de sensações, mais ou menos isso, taquicardias e suores noturnos além de café escorrendo pelas paredes internas.

Escrever é um desafiar amplo e irrestrito de nossas próprias estruturas, físicas, mentais, morais, éticas e religiosas, é um desatar e reatar de nós e linhas, trevos neurais que levam ao infinito ou ao aqui e agora, na velocidade da luz, por um buraco de minhoca.

Depois de confrontar emoções nas tramas mais tensas, a boca fica agridoce e o sorriso ora selvagem, ora menino, ora sacana, e por muitas vezes você vibra com o destrinchar sem piedade de algum canastrão ou com seu sucesso pleno sobre quem vacila.

Caminhamos por vielas escuras assoviando tranquilamente ou com o coração aos trancos e é assim que a mão gelada do viés são das frestas nos muros para tocar sua pele e te devolver às sensações mais primitivas.

NOTAS DO AUTOR | Ser escritor: o confronto das emoções

Por Nic Cardeal


Não sei ao certo se já posso me dizer oficialmente escritora. Às vezes, penso que seja atrevimento de minha parte pensar-me assim, já que livros escritos em papel passado ainda não os tenho. Só sei dizer que escrevo como em um desatino de vida. Sigo a colecionar participações em coletâneas e antologias aqui e acolá, num fluir de correntezas às vezes mansas, às vezes agitadas e profundas.

Escrever tem sido em mim, desde sempre, quase como uma espécie de subterfúgio do mundo. Preciso desaguar rios e mares de sentir muito fundos, e como não encontro cais de aportar meu navio de viver, faço-me em palavras, como uma forma de emprestar sentidos ao que pode não ter nenhum. De fato não sei dizer… Enquanto não sei dizer, procuro ancorar a alma n’algum lugar seguro, longe do grande escuro, onde pelo menos haja um farol, uma lanterna, uma vela de pavio comprido, para alumiar nem que seja alguma réstia de caminho. Nesse processo de criação, inspiração, conspiração ou tão somente ‘piração’, agarro com todas as forças qualquer luz que se acenda em minha grande noite de alma, pois esse é meu maior e mais puro milagre — estar frente a frente com o emocional que mora em mim — a grande luta, o grande confronto do existir. Nem sempre faço uso das minhas próprias emoções, muitas vezes tomo por empréstimo, por usucapião ou em ‘terras devolutas’, as emoções de outrem, tentando colocar ordem na desordem que os sentidos provocam, em busca de alguma lucidez doce e fresca na escrita. Assim, vou buscando a palavra como uma forma de salvação. Acho até que a expressão dos meus sentidos é muito disfuncional. O esquadrinhar de sentimentos e sensações e o processo de transformação disso tudo em palavras causa uma dor interna imensa, que lateja agudo dentro das minhas veias, e então eu me imprimo inteira em palavras (raramente verbalizadas, sempre escritas), mesmo que eu esteja aos pedaços ou mesmo trôpega, porque, confesso, sou disléxica nos pensamentos…

Minhas emoções estão em confronto o tempo todo, sem trégua. Eu beiro ventos e tempestades traiçoeiras. Eu cirzo palavras a passos lentos, porque palavras em mim não são dadas a sangrias desatadas. Desde sempre eu sinto saudades de uma de mim que não sei quem sou, e amanso essas saudades por meio da escrita. As palavras não se permitem ficar à beira de serem ditas em minha garganta, por isso tomam caminhos diversos, preferem o arado da linha e, depressa, confinam-se inteiras entre as margens e as entrelinhas. Assim me faço — e vou sobrevivendo a mim mesma. Porque escrevo no confronto das emoções. Porque “ser escritor é ter a escrita como batimento cardíaco”, como bem disse Leonor Brito. E os batimentos, aqui dentro, aceleram-me todos os demais sentidos.

Notas do autor |Emoções são vísceras expostas

Por Maria Vitoria


ser escritor: o confronto das emoções


 

Me rasgo e deixo as vísceras expostas, sem preocupações ou receios de culpa, apenas jogo partes de mim no primeiro sinal de vento que passar e espero que tudo vire uma bagunça mesclada com uma sujeira difícil demais de limpar.

Por vezes, todo esse processo de escrita me causa ânsia. Vez ou outra sou acometida com uma insônia de três dias, porém, no final de cada texto escrito sempre há um pouco de lágrimas para derramar ou uma boa quantidade de insatisfações para acolher seu fragilizado ego.

É tudo um mix, um dia você tem em mãos uma coisa tão sutil, delicada, fácil e leve… Noutra, você tem o pior dos pesadelos infincados bem fundo no meio do seu peito e por mais que você tente retirar um pouco de toda dor, uma lasca de emoção ferrenha se instala em você para sempre.

Ser escritor é sucumbir entre o céu e o inferno literalmente. É dormir em nuvens cercada de anjos e dois segundos depois sentir sua carne queimar num fogo alto e depois degustar pedaços sortidos de sua própria pele. Não tem jeito, em nós tudo muda de lugar, tudo se aloja em lugar proibido. Do nada, as emoções te tomam e quando você se dá conta, você morreu um pouco em cada verso antes mesmo de colocar uma vírgula na última estrofe de sua vida.

Tudo se confronta e tudo pesa. Tudo gira, gira, gira… E nunca volta pro mesmo lugar.

Notas do autor | secretar…

Por Obdulio Nuñes Ortega


ser escritor: o confronto das emoções


 

O escritor segreda paixões, secreta humores, excreta desejos, expõe amores. É capaz de vender a alma para conseguir expelir o parágrafo ideal. O escritor mente e se desmente. É contraditório e reformista. É ré escritor… réu de sua própria consciência. Não pedirá clemência, se isso eliminar a frase perfeita. Conservador. Conservará a dor e a explorará. Visceral. Esviscerar a si, é seu projeto de ser. Quer mostrar as suas contradições em textos e teatralizar o incorreto com a certeza da verdade… a sua verdade. Senhor e servo de sua obra. Faz nascer mundos novos – dois sóis para cada amanhecer contra a noite sem lua e estrelas. Passeia pela escuridão com olhos de gato… para espiar os amantes em becos sem saídas. Entra por portas e janelas. Vampiriza seus personagens. Sorve seus sangues no café da manhã. Ri sem remorso ao som de ossos triturados feito batatas-chips amassadas aos pés de incautos na sala de jantar. Faz sexo sem culpa com mulheres e homens de suas páginas. Gera filhos que abandonará à própria sorte que ele-deus dará. Brande a espada da justiça, enquanto mata suas crias. Remorso por não ter matado melhor. Paralisa o tempo e faz o planeta girar. Sem rumo. Sem chegada. Sem graça que o absolva. Sofrimento sem ponto final. Sem satisfação. Apenas reticências até a próxima tentativa de se fazer eterno enquanto durar a leitura de sua sã loucura…

NOTAS DO AUTOR | vomitando desejos

Por Maria Vitoria


o que me inspira


 

Álcool. Maconha e mulheres.
Gosto dos pés em formato de nuvens quando caminho por ruas esguias. Sinto sempre minha mente desplugar da extensão de meu corpo. Aprecio com os olhos, com o tato e com a boca, corpos femininos e os uso em meus poemas e crônicas. Deixo que o tripé me enlace de uma forma sutil ao mesmo tempo em que me faz caminhar sobre abismos. Quando acordo bebo. Quando entristeço bebo. Quando comemoro bebo. Quando não existo, bebo bem. Às vezes, tomo o ar salgado de plantas e flores verdes e engulo tudo para dentro de meus poros e pulmões. Isso me faz chorar observando a vida das janelas. Isso me faz levitar sobre os céus que homem nenhum pode pisar. Sinto o perfume de uma fêmea no cio. A sigo com meu olfato de perdigueiro. As memórias vem e um passado-futuro se lançam sobre meus poucos ouvidos e peito frágil.

Um tripé firme. Estático. Sólido. Inspira em mim essências que por anos perdi em meio ao caos de minhas bugiganga emocionais. Deixei sete vidas passar pela fresta de uma apenas e não concegui dar liberdade para o menor dos meus singelos cortejos. Agora isso rasga em mim, me abre, arreganha, me faz vomitar…

Em mesas de mármore jogo em cima de pedras frias minhas inspirações em formato de paparelepipidos sem cores. E então tudo escorre pelo meu peito. Me semeio em meio um vômito calejado. Fico incolor. Não me limpo. Deixo apenas que o tempo seque os dejetos que minhas palavras proporcionam.

Misturo álcool. Maconha e mulheres de uma forma que desgasta o mais forte dos touros. Posso sentir meu lombo trovejar por falta de resistência. Toco meu útero e posso sentir meus próprios galhos se quebrarem ocos e velhos.

Tomo álcool para produzir. Fumo maconha para produzir. Como mulheres para produzir.

Uns me nomeiam poeta. Outros alegam que sou escritora. Eu mesma, me sinto exilada dentro das parábolas que eu nunca conto.

E isso me inspira. Isso me castiga. Faz com que eu vomite um pouco do que eu sou…

NOTAS DO AUTOR | Respiração

Por Obdulio Nunes Ortega


o que me inspira


 

Eu sou o centro do Universo, ainda que sinta a presença de uma força fantasma a me assombrar. Comungo a crença, totalmente sem provas, que passeio por vidas e mortes sucessivas. Águas passadas que movem moinhos, para desaguarem em um presente de futuro aberto-certo de incertezas. Já coloquei Deus no corpo de um marimbondo. Eu, mesmo, como um mouro ciumento. Lembranças ou imaginação…

Contemplo o planeta como palco de meus personagens. Seus habitantes, de todas as espécies e formas, participam de meu mundo pela escrita. São especialmente para os animais da minha espécie para os quais dirijo o meu olhar e a minha fala. É entre as pessoas que carrego o meu sorriso desconfiado. Eu me reconheço cada vez mais inconfidente da história do Homo sapiens como ser superior às outras espécies. Os humanos vivem a tentar extinguir outros humanos baseado em detalhes como diferenças de cor, religião ou time de futebol…

Na busca da emancipação de minha consciência, me apoio sobre os escombros de uma sociedade doente. Adoeço, igualmente, para entendê-la. Testifico-pronuncio-expurgo. Eu me inspiro em mim. Transito, com todo o conhecimento de causa, na zona cinzenta, ao me perceber um homem. Das minhas contradições como cidadão da polis, retiro subsídios para me expressar. Me utilizo de portas e janelas. Adentro por elas por passos e olhares. Vivo disso. Por isso, quase morro. Não que estimule minha precariedade. Apenas a constato. Tento decifrá-la em palavras. Provavelmente, falhe…