Notas do Autor | Crepúsculo dos deuses

Por Marcelo Moro



ser escritor: o confronto das emoções


 

Como bom leitor, quando o texto é bom eu viajo nele, me entrego e vivo todas as emoções possíveis, de rir infinitamente e de chorar profundamente.

Eu leio quase sempre em voz alta, por isso ler em público é meramente desconfortável.
Um dia no metrô, de fones nos ouvidos torando um Camisa de Vênus lá dentro da minha alma, lendo um conto de Borges, o senhor sentado ao meu lado me cutucou e disse – Ninguém quer saber essa história estranha aí não – eu ri.

Um androide controlado por esse sistema multifacetado mas com um único amém no final, falando dessa maneira, não comigo, mas com Borges, merecia um murro bem dado ou um tiro no escuro, mas eu não sou de violência e apenas ri da impertinência.

Me confronto com as emoções e vivo do confronto entra elas quando leio, até bula de remédio tem esse efeito e tomo partido mesmo, como se não houvesse amanhã.

Quando escrevo é um pouco mais intenso e mais grave, sou deus com o gatilho nas mãos, faço sofrer, faço se dar bem, faço gozar de um gozo hiperbólico sem moderações.

A emoção faz parte do rasgo na carne e do buraco na alma, e assim elétrica como é vai se conduzindo das unhas dos pés ao couro cabeludo.

Em muitas páginas se confrontam bem e mal, intenso e frouxo, cálido e gélido, mentes, mãos, línguas e viagens sensoriais possíveis, basta ter coragem.

A emoções se contrapõem e a alma embarca numa montanha russa de sensações, mais ou menos isso, taquicardias e suores noturnos além de café escorrendo pelas paredes internas.

Escrever é um desafiar amplo e irrestrito de nossas próprias estruturas, físicas, mentais, morais, éticas e religiosas, é um desatar e reatar de nós e linhas, trevos neurais que levam ao infinito ou ao aqui e agora, na velocidade da luz, por um buraco de minhoca.

Depois de confrontar emoções nas tramas mais tensas, a boca fica agridoce e o sorriso ora selvagem, ora menino, ora sacana, e por muitas vezes você vibra com o destrinchar sem piedade de algum canastrão ou com seu sucesso pleno sobre quem vacila.

Caminhamos por vielas escuras assoviando tranquilamente ou com o coração aos trancos e é assim que a mão gelada do viés são das frestas nos muros para tocar sua pele e te devolver às sensações mais primitivas.

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Nota do autor | Trans(in)piração!

Por Marcelo Moro


o que me inspira


 

Cotidiano!
Ele me inspira no mesmo ritmo e tempo em que acontece.
Sou mais dos links que dos versos, frases sintéticas que contém os comprimidos para todas as horas, isso é o que deixa suspenso e sem ar.
O soco, na boca do estomago nunca vem de grandes conspirações, mas de curtos e inspirados segundos que podem ou não se abrir em leques, vórtices perenes e eternas, dízimas.
Os espaços dispares entres os passos, o bambolear torto dos quadris, o desconforme das cores nas roupas, tudo isso me é lúdico. Aromas ao lusco fusco de praças verdes cinzentas e o concreto armado são amados aqui dentro como entes que contracenam com as pessoas. A chuva fina sobre pano branco, suas reações e as esperadas críticas vertiginosas a quem observa tudo são acúmulos que dissipar-se-ão sobre o papel virgem.
Caos, fumaça e as explosões siderais dão hipérbole ao que eu preciso dizer sem a grosseira visão carnal dos fatos, transpirando sempre todos os desabafos. Seu perfume me inspira, os jardins de flores ou porcelanas brotam em minhas linhas voluntários e senis, são sorrisos de quem me inspira a rasgar a carne.
Esse meu condenável gosto pela agitação dos dias, pelo ir e vir frenético dão rumo aos pensamentos quando esses se solidificam em tinta e papiro…é uma relação nervosa, literalmente, comigo mesmo senhor e juiz do que escrevo, nunca do que você lê.

 

CARTAS PARA ABRIL | Um café do Porto, um vinho sorvido à míngua.

Por Marcelo Moro


 

Cara Sophia,

 

É tão antagônico escrever-te desde de aqui da colônia, ainda mais sendo eu, um sujeito tão anticlerical, o que também é antagônico pois, no fundo, tenho admiração e verdadeira amizade por alguns seres de batina.
Namorei por algum tempo uma moça do vale D’ouro… navegante do meu coração, feito os barcos coloridos que partem e chegam em Aveiro carregado de histórias, sonhos e vinhos.
Foi essa moça, de muita fé e nenhum recato que primeiro me mostrou sua poesia e seu teatro quase sacro. Tirei de dores ali despidas… belos azulejos.
Ler as paredes desenhadas como atos seguidos dão vida aos torreões de cimento e cal virgem. Abrem portas à minha alma para que sejam navegados mares doces e dourados, uma visão próxima do céu para quem crê em tal artefato.
Visto sua nobreza, educação e extrema beleza creio ser uma ousadia minha convidá-la para um café ou um vinho curto desses bons licorosos que por aí se dão. Porém minha cara, uma ousadia a mais ou a menos para mim é de nenhuma importância. Gosto quando ara o papel branco com afiada pena visando sangrar dessas curvas de nível da sua caligrafia o sangue – vinho vivo bebido para harmonizar com o cordeiro imolado. Me levas a crer em alguma coisa além dos órgãos pulsando por finito lapso de tempo.
Confesso que talvez seja isso que nos move… crentes ou não, a viver trafegando entre olhares sempre escusos. Faço muito gosto em que aceites tanto o café quanto o vinho e quiçá um bom pão doce para que eu possa ouvir em seu original português alguma esperança de vida celeste. Não que eu faça gosto em ir para o céu que confesso achar uma cafonice, mas por poder imaginar que as pessoas que o ansiaram terão em plenitude. Aguardo uma resposta

 

Com ousada admiração,

 

CARTAS PARA ABRIL | é tão claro pra mim essa escuridão…

Por Marcelo Moro


 Caro poeta,

Permita-me chama-lo assim, ainda que eu saiba que a fama que o precede vem dos contos fantásticos aos quais deu vida e dos quais roubou vidas.
Escrevo para contar que, de uma forma inusitada e extraordinária, estive na biblioteca de Babel e essa aventura é de grandeza tal insólita que só a ti poderia contar sem que me julgassem louco.
Bem dizes que um escritor não pode ser nunca julgado pelas suas ideias, mas sim pela emoção e prazer que proporciona, esse é você, um orgasmatron a soltar gotas de linhas em tons de sépia e perfume francês.
Lá, em Babel, depois de uma porta estreita que fica diante de um jardim suspenso se acumulam corredores de prateleiras e escadas em planos infinitos, o cheiro que invade as narinas é o excitante cheiro do papel banhado em jatos precisos de tintas coloridas, comparaste isso ao paraíso, eu digo que é de outro planeta onde vivem os sábios.
Talvez o paraíso seja isso mesmo, o que pode nos proporcionar emoção e prazer de forma infinita, não como prêmio ao bom comportamento dado aos caretas e os espécimes gerados desses, mas como uma evolução da morte física.
Ali notei outra verdade, as línguas não se distinguem, antes se completam, se entrelaçam e dizem o que precisam num uníssono texto ditado, todos e nenhum fazem parte da mesma trama, variações de um mesmo tema sem fim.
Aproveito para convida-lo a um café num fim de tarde desses, quem sabe nesses estilosos das ruas centrais de Buenos Aires ou aqui mesmo pela terra da Garoa e do Bauru sem bife.
Aperto-lhe as mãos e beijo antes de me despedir aqui, me deste sua terna amizade através do que firmastes no papel como seu contributo ao todo dessa enorme biblioteca de Babel.
Sim o sonho acima, desses que se sonha acordado, me inspira a seguir comendo dos frutos do conhecimento plantado no centro do jardim e uma vez inocentemente proibidos para nosso engano.
Estamos nus querido Jorge…diante do espelho de livros e sob a luz das ancestrais estrelas e assim de novo e de novo e de novo.

 

Com admiração sempre renovado
Do Poeta, discípulo e amigo

Cartas para abril | só queria entender…

Por Marcelo Moro


 

Ana C.,

Eu queria entender… toda essa ira… essa ferida exposta e essa dor contida nas duras linhas que nos dedica. Belas linhas, sem afagos nem esperanças mas, lindas.
Sinceramente gostaria de ver por dentro como funciona esse íntimo… mas sei que é querer demais.
Aos poucos, e te digo porque quero que saibas, as coisas para mim vão perdendo o sabor e o sentido, a escrita, as imagens, as minhas admirações e logo serão as paixões que me desmentirão deixando me nu diante do infinito.
Sei que entendes querida Ana. Sei que no fundo dessa sua alma de alamedas sombrias entendes.
Sabes por fim o que sinto, o que me sufoca e faz disparar meu coração empurrando-me a atropelar teclas como quem soluça palavras.
Eu só queria entender… nada me seria mais caro que isso.
Sei que não se deve mudar nada em função dos outros e de outras coisas que não as nossas convicções, isso chama-se liberdade, mas mesmo livre, e o sou, mudaria para poder entender… agradar talvez, fazer contente e se um dia, se assim o universo permitisse, trazer um sorriso, um lapso de felicidade dessas em que se joga no sofá e respira profundamente.
Podes receber essa missiva com desdém, pode também guardar numa gaveta escura, numa dessas caixas que guardas laços de vida e de morte sem que leia, e podes simplesmente rasgar, deixando assim incomunicável nossas angustias. Escrevo sem saber que destino terão minhas linhas, por querer escrever, por desejar sobretudo entender.
Toda sua força disposta em finalizações prematuras de convívios e laços… retratas em suas linhas. E quando leio, vejo que não há culpa, maldade ou má fé, apenas rasgos pelos quais eu queria entrar e entender, apenas estar e entender o porque se enche de cadeados, não só em ti como em tuas portas e janelas.
Amo-te embora não entendas, ou não acredites que seja isso possível, mas amo-te e te quero, acima desse amor, bem, sem egoísmos vãos ou sentimentos sombrios.
Espero, doce e forte Ana, que leia essa minha tentativa de entender suas premissas e sinceramente desejo, pelas lágrimas geladas que desceram–me, que aceites tomar um café num ocaso desses para uma conversa sincera, o tempo nos deve esse fortuito encontro, e perdoe-me se em algum momento ofendi… eu só queria entender.

 

Com afeto,

 

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga
e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

Cartas para abril | Insulto

Por Marcelo Moro


 

Caríssimo,

Nesse dia em que o tédio notadamente toma conta de nove entre dez pessoas que circulam por aqui – eu sou o “um” que não se sente assim às segundas-feiras- ouso escrever-te para te pôr a par sobre os insultos que fazes a mim já há longos cento e sessenta e um anos.

Sim, bons insultos que penetram e desnudam a alma em formas de versos aos quais seu gênio interior chamou de Les Fleurs du mal – amo e odeio esses versos.

Charles, aos tenros treze anos esses versos invadiram a minha pós-infância feliz e me colocaram redemoinhos interiores com poderes infinitos de centrifugar de mim linhas e de destruir conceitos que hoje trato como inadequados – Deus seja louvado.

Desde então me senti desafiado, excitado e mordido mortalmente pela poesia, causa e efeito dessa minha violenta sangria desatada moderna que me empurra a mergulhos abissais no caos, mas graças ao seu insulto é como se passeasse por alamedas de sombras.

Caro poeta, sei que podes rir de tamanha infâmia e desse meu vil pensamento, porém vejo nesses teus versos uma luz sobre os becos escuros das necessidades, uma boca imensa a consumir nossos medos e angustias.

Lanças nos meus escuros a dúvida : “ A mesma mão que acaricia pode ferir e escapar furtiva ?” – seria inocência não crer nessa insolente verdade.

Por fim, em nada gosto de alongar e falar por aqui pode causar encrenca e confusão – creia-me, sei disso! Por isso te proponho: que tal um café um dia desses? Para rirmos das pequenas grandes importância das pessoas e das coisas e de nós mesmos.

Com admiração, carinho e flores (do mal)

Do amigo e poeta

 

Crônica | a mulher que me inspira

Por Marcelo Moro


 

A mulher que me inspira tem ritmo e melodia – café passando lento e saborosamente, no quase fim de tarde, acompanhado pelas cavalgadas harmônicas de Wagner.

Ártemis singra os céus entre o azul escuro final e os laços laranjas indo para o rosa fogo da sua dança mágica, tudo ao mesmo tempo agora – é assim essa mulher

Cafeína nos seus mais amplos efeitos – termais, elétricos e estimulantes.

Essa dama tem nome de santa com sobrenome de flor, duas pintas – Marte e Saturno na ida e na volta, orbitando um Jardim de porcelanas – centro do universo, sorriso aberto e fluente.

Me inspira porque que me transpira os poros quando mexe o encaixe dos quadris nas escadas, ramblas, pela sala ou ali …

Encanta-me como passa pela vida, sem tempo quente, sem mornar a água, flui e desliza como acrobata de si mesma – Áries pela terra do Sol.

Aguça-me curiosidade, pensamentos, lidas…sei dela o que ela quer que eu saiba, no momento exato da vital importância desse saber, o resto é desnecessário.

Inspira pela resiliência e pelos ciclos, pela lealdade nas suas crenças, tão somente por ser o que é, ser o máximo mesmo quando está no volume mínimo.

Aflições, pesadelos, dúvidas todo mundo tem, e quando o mundo desaba oferece arrimo não importa o peso da porra toda – Inspira –me e suspira-me entre notas graves soletrando meu nome.

Traça sua luta com extrema inteligência e sutil bom gosto…pequena gigante, força máxima e plena – Me inspira.

 

Poesia | Marcelo Moro


  CORRIQUEIRO


 

 

Apitava o trem
A fábrica… uma aqui, outra ali, acolá
Soltavam seus vapores as caldeiras
E o dia amanhecia
Trazendo o Sol a fórceps
Para banhar de luz amarela a velha feira
Onde as comadres pechinchavam o almoço médio
Onze horas em ponto
Ao som da rádio clube
As alamedas se enchiam de passos
Movimento contrário
Que logo se reestabelecia
Depois do cochilo
Naquelas longas tardes de primavera
Calor, canto da cigarra
E, quem sabe, alguma chuva que nos divertia
nas enxurradas da Professor Ignácio
Até as cinco, onde os apitos decretavam
Que a Princesa Tecelã enfim descansaria

Ainda tinha o bate-papo nos portões
Cadeiras nas calçadas depois da janta
E o banho de Lua, sempre bela

 


 

Tanta coisa é só promessa…

Por Marcelo Moro


 

Passei um café novo e aguardei a hora morta, os passos mentais em círculos e o coração aos solavancos, não era mais noite de ano novo mas de um solstício em mim.

Em geral as promessas para um novo ano são temas requentados idealizados e não realizados em anos anteriores, nada de novo… só promessas.

Muita coisa mudou para esse giro em torno do sol, teoricamente mais leve, inocentemente mais fácil ou apenas mais um ledo engano, e já foram tantos, giros e enganos.

Nesse me propus, viajante que sou, fluir apenas, deixar que a pena deslize alma no papel apático e frio, em branco.

Decidi por menos teoria e mais prática, ação ao invés de pensamento, realizações simples antes de complexas reflexões … enfim ser apenas mais cru, menos puro e nada ingênuo.

Frases curtas para grandes profundidades.

Não tenho confiança que se renova e muito pouca fé no futuro, levem em conta que o segundo seguinte se quer existe e o segundo de trás já ficou mergulhado no tempo, questões de física.

Até tinha feito minha listinha das tais promessas e esperas para esse ano novo, lá no chuvoso e vazio primeiro de janeiro, e talvez daria uma crônica mais emocionante… mas passados dois terços do mês de São Sebastião e São Paulo rasguei…ontem mesmo a noite…

Agora assumiu a antiga tese de quando inquilino da Kit na Avenida São João…

Ontem foi Ontem… Hoje é Hoje e Amanhã eu me preocupo Amanhã…

Feliz ano velho…

Por Marcelo Moro


 

Parece que foi ontem trezentos e sessenta e cinco dias atrás —, quando o Miguel curioso achou uma caixa que guardava nosso antigo presépio, tradição esquecida já há tantos anos aqui em casa. Entre mil e duzentas perguntas, todas respondidas, fomos desembrulhando as peças, peça por peça trazia uma lembrança saudosa e deliciosa… estavam todos ali, conservados de forma exemplar, os Magos, José e Maria, o Menino Jesus, a Estrela e todos os animais, Burrinho, Vaca, Boi, Camelos. Continuar lendo “Feliz ano velho…”

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

 


 

 


 

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.

 



Participaram desse ‘coletivo’ os autores:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto