Entrevista | Marcelo Moro

Marcelo Moro é um poeta urbano… com dois livros alinhavados pela Scenarium. Um menino de linhas ariscas e imperfeitas, filetadas com uma lâmina cuidadosamente afiada para lascar a ponta do lápis e fazer sangrar as idéias pela ponta dos dedos, que sentem o pulsar de suas inquietações folclóricas.

Em seu novo livro, ele diz ‘melhorar’ o que observa na realidade e intitulou o conjunto de escritos  como se fosse ele mesmo o livro, unindo-os num mesmo corpo, que lhe entrega como sendo algo sagrado-profano, o homem-poeta-menino-personagem…

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Scenarium — O título de seu livro é ‘Religare’, que nos remete quase que automaticamente a questão que ganhou significantes capítulos nesse cenário atual brasileiro tão conservador. Como é a sua relação com a religião?
Marcelo Moro — ​Eu não acredito que as religiões tenha qualquer condição de reger o meio civil, para mim o estado precisa ser laico de fato.

Scenarium — A religião é uma firmeza no campo psicológico/emocional do individuo e para tal deve ser um apoio positivo nas construções individuais, mais que isso seria interferir na liberdade e na vida do coletivo e isso realmente é inoportuno.
Marcelo Moro — Eu sou umbandista, religião espiritualista brasileira de matriz africana.

Religare, Marcelo Moro

Scenarium — Como se deu o processo de escrita dos contos de seu livro?
Marcelo Moro — ​Esses contos, como digo no preambulo do livro são verdades melhoradas, não em detrimento das histórias como realidades mas em prol das mesmas. Habitavam minha alma há tempos, ficavam girando e se acumulando até que em três atos ( de sentar e escrever discorridamente) baixaram e nasceu o Religare como o leitor vai apreciar.

Scenarium — Como é a sua relação com as personagens de seu livro?
Marcelo Moro — É uma entrega total e sem moderação, são partes de mim que aconteceram em locais e tempos diferentes reunindo -se sempre de volta e se ligando e de novo e de novo.

Marcelo Moro, poeta

Scenarium — Antes de Religare, você publicou dois livros de poesias “teatro das ousadias” e “alamedas das sombras”. Como foi migrar da poesia para o conto?
Marcelo Moro — Toda poesia que escrevo nasce de um conto, acho que apenas fiz o caminho de volta, do conto ao conto passando pela poesia, nasci para literatura ouvindo, lendo e repassando contos, sempre foi minha casa ( risos)

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Marcelo Moro — ​Sou um leitor ávido, devorador de linhas, leio de tudo, nunca falo do que não li, nem bem e nem mal, mas leio apenas o que me prende decididamente. Escrevo vorazmente, preciso sempre estar dando vazão a tudo que me chega, seja para fins de publicar ou não, tem um montanha de folhas que talvez nunca chegue ao leitor. Minha relação é de amor e fidelidade(risos)

Marcelo Moro, leitor

Scenarium — Quem são os seus pares?
Marcelo Moro — ​Isso é bem relativo, me relaciono na literatura, consumindo e lendo, com muita gente, estou mais certo de quem não é nem de longe meu par, mas esses não digo (risos) essas coisas magoam.

Scenarium — Nos conte como foi descoberto na literatura?
Marcelo Moro — ​eu tinha um blog em que postava, textos, poesias , crônicas e contos chamado Um café, um cigarro e um trago, mas o dono dessa frase virou um babaquara de marca maior então troquei o nome para Cotidiano 242 e fui lido e pescado pela Scenarium Plural através da editora Lunna Guedes que selecionou 50 poesias para se tornar o Teatro das Ousadias… e de lá pra cá já se vão quase 4 anos de ousadias e cotidianos através dos atos desses teatro e das alamedas das sombras passando pela participação em coletâneas e na revista litrária Plural.

Marcelo Moro e Religare

Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Marcelo Moro — ​A internet pode ser um caminho para várias coisas e também para os escritores, o grande problema é a rapidez insólita em que as coisas trafegam pela rede, tudo é instantâneo para se fazer e desfazer, passa rápido demais e existe uma atenção muito disputada com textos e ideias ruins , de péssima qualidade que serve a esse instante. A palavra escritor remete a uma coisa mais etérea, sólida que navega através do tempo, a internet proporciona algum “sucesso” é claro mas em 90% dos casos vem com decepção a tiracolo, porque a realidade da literatura é dura e passa a foice no mesmo instante em que se realiza. É um caminho mas com altos estupendos e quedas vertiginosas.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Marcelo Moro — Patti Smith, vários títulos dela, agora em Babel um livro de 1978 no auge do movimento punk que a projetou.
Receito e recomendo.

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Religare | Marcelo Moro

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R$ 45

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Essa grande sinfonia de ir e vir, desligar-se para ligar-se novamente.
Isso é o Religare. Verdades melhoradas nas linhas dos 21 contos que compõe esse movimento. Intenso como maré alta a favor do ventos…o teor mínimo desse nosso encontro.

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Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

| clique aqui para ler a verão on line da revista |

Marcelo Moro

Autor

 

Virginiano místico, nascido sobre terras tecelãs.
Regido sob os véus de Ártemis e suas danças insones desde menino.
Cerziu suas histórias a passos soltos: Ora aqui…ora em Istambul, anéis de Saturno ou nos olhos fumegantes das costureirinhas e de suas entranhas nostálgicas.
Filosofa sua acidez cotidiana em torno de cafés ou doses etílicas, sob a regência dos burburinhos locais.
Com uma peculiaridade característica – musicaliza as curvas poéticas de suas musas como um domador de versos.
Ah! E como são inspiradores seus golfos insensatos! Sobre esse ir e vir, inúmeras vidas, a linha subentendida entre: O ser…o querer e o fato.”

Por Maria C. Florêncio

Poeta, ensaísta, publicitário, músico e futurista!

 


Marcelo Moro é autor dos livros de poesias
“Teatro das Ousadias” e “Alameda das Sombras”
Para maiores informações, clique aqui

22 – Nem sempre a lápis | três poemas de Marcelo Moro…

I

Suores noturnos
E cantigas de ninar
Nenhum sonho possível
Para quem não dorme
O homem no espelho
Oferece uma moeda
Não existe o que contar
Nenhum sonho plausível
Digno de mentira
Lá fora, do lado de lá
Da madeira velha da janela
Cimento e saturno
Dá me um olho de vidro
Para enxergar luas e anéis
Quem sabe conto meu último pulsar
Dentro do soturno
Numa caixa forrada de veludo
Vinho piegas
Guardei meus escritos
Como sonhos sólidos
A flutuar num oceano de vidro.


 

II

Não vejo fantasmas a indagar
Apenas sua dança serena
Arrancando sorrisos e reações
No final do corredor
Um cigarro aceso e um gole morno no café
Para praguejar
E dançar contigo
Um rabisco de Deus no seu rascunho
Teatro de fantoches
A pensar sobre porquês
Antes que a bomba caia

 


 

III

Já moço
Encontro-me as duras penas
Com plenos futuros
E perdas
Flores raras que murcham
Cores caras que desbotam
Destoam dos gritos agudos
E choros sem mágoas
Fantasmas de adultos
Pormenorizando o menino
Jogastes com suas mãos
Para meu chute, bola de meia
Centelha fina do religare
Que fatia dividindo
Falta e saudade…

 

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Marcelo Moro autor de ‘Teatro das Ousadias’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015 e ‘Alameda das Sombras  — ano 2016.

Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

|  versão digital clique aqui | 

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

Tanta coisa é só promessa…

Por Marcelo Moro


 

Passei um café novo e aguardei a hora morta, os passos mentais em círculos e o coração aos solavancos, não era mais noite de ano novo mas de um solstício em mim.

Em geral as promessas para um novo ano são temas requentados idealizados e não realizados em anos anteriores, nada de novo… só promessas.

Muita coisa mudou para esse giro em torno do sol, teoricamente mais leve, inocentemente mais fácil ou apenas mais um ledo engano, e já foram tantos, giros e enganos.

Nesse me propus, viajante que sou, fluir apenas, deixar que a pena deslize alma no papel apático e frio, em branco.

Decidi por menos teoria e mais prática, ação ao invés de pensamento, realizações simples antes de complexas reflexões … enfim ser apenas mais cru, menos puro e nada ingênuo.

Frases curtas para grandes profundidades.

Não tenho confiança que se renova e muito pouca fé no futuro, levem em conta que o segundo seguinte se quer existe e o segundo de trás já ficou mergulhado no tempo, questões de física.

Até tinha feito minha listinha das tais promessas e esperas para esse ano novo, lá no chuvoso e vazio primeiro de janeiro, e talvez daria uma crônica mais emocionante… mas passados dois terços do mês de São Sebastião e São Paulo rasguei…ontem mesmo a noite…

Agora assumiu a antiga tese de quando inquilino da Kit na Avenida São João…

Ontem foi Ontem… Hoje é Hoje e Amanhã eu me preocupo Amanhã…

Feliz ano velho…

Por Marcelo Moro


 

Parece que foi ontem trezentos e sessenta e cinco dias atrás —, quando o Miguel curioso achou uma caixa que guardava nosso antigo presépio, tradição esquecida já há tantos anos aqui em casa. Entre mil e duzentas perguntas, todas respondidas, fomos desembrulhando as peças, peça por peça trazia uma lembrança saudosa e deliciosa… estavam todos ali, conservados de forma exemplar, os Magos, José e Maria, o Menino Jesus, a Estrela e todos os animais, Burrinho, Vaca, Boi, Camelos.

Cada qual com sua história foi me levando ao passado e me encontrando na velha Papelaria Apollo. Até o cheiro de armário escolar pude sentir, onde cada peça foi comprada juntamente com as belas bolas da antiga árvore de natal prateada da minha mãe. O Natal aqui era de encher os olhos de qualquer criança.

Corremos, eu e Miguel, na casa do marceneiro, o bom amigo Armandinho, buscar pó de serra, depois comprar no mercadinho as tintas Guarani para tingir o pó de serra que virariam grama e flores coloridas, o chão do nosso presépio.

Ano passado na retomada da tradição, resolvi inovar e construí com palitos de sorvete a casinha que abrigaria a santa manjedoura, e o pai do Miguel deu uma ideia muito boa: ‘Porque não passa um verniz na casinha?’ — foi feito.

O Presépio entrou na minha vida por conta de uma família de italianos… meus vizinhos durante os primeiros doze anos da minha vida, e meu eterno amigo Neno que em um certo ano me chamou para ajudar na montagem, tinha sessenta e cinco peças e um moinho que com a ajuda de uma bombinha dessas de aquário rodava a água o tempo todo. Nunca consegui construir o tal moinho, mas peguei gosto por presépios.

Todo dia 6 de janeiro Dia dos Santos Reis se comia a Romã colhida no pé do nosso quintal e se desmontava o presépio, enrolando peça a peça com jornal e guardando sem aperto na caixa para não lascar ou quebrar, o pó de serra era guardado separado já por cor nos vidros de maionese e a espera já começava por um novo dezembro.

O Miguel, tão acostumado com os tais jogos eletrônicos, bichinhos virtuais e televisão, vibrou na montagem manual de algo que passou a compreender fazendo perguntas e comentando as respostas, às vezes, bem complexas porque aprendi que com os meus sobrinhos não adianta dar evasivas é pedir para ser sublimado.

Depois do período de exposição de tão saudoso e sacro objeto profano porque São Francisco ao montar o primeiro presépio da história teve a intenção grata e lúcida de humanizar o Messias que nascia , veio o dia de comer romãs… compradas no mercado e com gosto de isopor, e guardar nossa pequena sinfonia ao Salvador.

Miguel não comeu a romã, deixando esse fardo para o irmão mais novo Joaquim , que nunca compreendera porque só comer nove carocinhos e não a romã toda. Nesse dia começou o então Feliz Ano Velho que se encerra já precoce e tão tardiamente, um ano que passou “Voado” como dizia meu Pai. Um ano em que me redescobri capaz de ser resiliente. Não que me agrade nenhum um pouco, mas me faz sentir alguém que consegue nadar contra a maré de gente que apenas segue a correnteza. Me entregar nunca foi meu forte, não conheço rendição, mas assim como chega o dia de guardar o presépio, me guardo… num recuo de maré constante para avançar depois com força, para me remontar mais belo e maior a cada ciclo.

Esse ano, belo nos números, aconteceu, mesmo que guardado na caixa… nele fiz novos atos, novos versos, velhas rimas, reencontrei amigos, perderam-se pessoas, se solidificaram sentimentos e nasceram novos laços suplantando os antigos de forma mais apertada. Foi uma reconstrução.

Dois mil e dezessete, esse espaço de vida entre o brinde espumante da sua hora zero até a última respiração do seu trinta e um de dezembro será revelação… um solo de sax soprano sobre um oceano de notas, rudes, tristes e ao mesmo tempo maravilhosas.

Nesse espaço de universo que, soberbos, denominamos ano… me compreendi capaz de trabalhar solenemente minhas limitações e a lidar com o que todos lidam, hora ou outra, de forma mais razoável, distancia, saudade, anseios, ansiedade e dor, tudo me bateu mais real e sólido.

Trezentos e quarenta e tantos dias até aqui de sutilezas que fizeram diferença no meu pulsar como integrante desse inexorável infinito de pulsações, tão perto e tão distantes. Os conselhos noturnos da Caríssima T., o afeto marginal do menino Joaquim, a inteligência esvoaçante do garoto Miguel, um Tom Sawyer pós-moderno, o nascimento dos gatinhos dentro de casa, uma escolha inusitada da Mãe Marla assim a chamamos aqui. Dia após dia vão mostrando que há vida além das nossas vastas obsessões.

E entre um Jean Michel e outro aqui vou recordando as fronteiras das estações, já quase verão, do meu mergulho profundo ao mundo da fotografia amadora, que seja bem-dito que deu paz, se é que esse isolamento acústico é possível num mundo extremamente barulhento e desnecessariamente sujo.

Das gentilezas todas é bom louvar as de pessoas anônimas que conseguiram num ambiente caótico cuidar e trazer conforto e alívio corporal a minha querida T., numa tarefa odisseica de fazer o bem sem saber a quem, inesquecível isso… inesquecível dois mil e dezessete.

Inesquecível o prazer que me concedeu Maria ao me presentear, gentil e sutilmente com as experiências literárias mais belas e criativas concebidas nessa Terra Brasilis, digo que cada caixa que eu abri foi como desenrolar cada peça do velho presépio e meus olhos brilharam como os do Miguel ao tocar cada experiência viva trazida ali. Muito obrigado dois mil e dezessete.

Fiz quarenta e sete nesse ano e ainda nenhuma tatuagem, me arrependo disso, do que fiz nunca me arrependerei. Vou deixando esse ano fluir seus últimos passos porque também compreendi que a vida é um rio e quem represa pode acabar inundado de passado revolvendo as mesmas águas…

Um feliz Ano Velho a todos!!!

Coletivo 2017

 

R$ 50

 

 


Um projeto idealizado por Lunna Guedes…  ilustrado por Adriana Aneli e riscado por autores convidados a caminhar a cidade através das palavras e propor ao leitor uma viagem através da poesia… o livro é todo movimento, das cores-aromas-e-sensações. Ouse experimentar…

 

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

Alameda das Sombras | Marcelo Moro

 

 

R$ 35

 

 


— o poeta pretende que o leitor caminhe pelos lugares e insira pausas na realidade para olhar mais de perto uma-duas-três vezes o que é paisagem-cenário… porque os poetas enxergam sombras e as desenham no verso da folha para quem você compreenda o que é marcha dentro da sombria alma do poeta.