Poesia | Marcelo Moro


  CORRIQUEIRO


 

 

Apitava o trem
A fábrica… uma aqui, outra ali, acolá
Soltavam seus vapores as caldeiras
E o dia amanhecia
Trazendo o Sol a fórceps
Para banhar de luz amarela a velha feira
Onde as comadres pechinchavam o almoço médio
Onze horas em ponto
Ao som da rádio clube
As alamedas se enchiam de passos
Movimento contrário
Que logo se reestabelecia
Depois do cochilo
Naquelas longas tardes de primavera
Calor, canto da cigarra
E, quem sabe, alguma chuva que nos divertia
nas enxurradas da Professor Ignácio
Até as cinco, onde os apitos decretavam
Que a Princesa Tecelã enfim descansaria

Ainda tinha o bate-papo nos portões
Cadeiras nas calçadas depois da janta
E o banho de Lua, sempre bela

 


 

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Tanta coisa é só promessa…

Por Marcelo Moro


 

Passei um café novo e aguardei a hora morta, os passos mentais em círculos e o coração aos solavancos, não era mais noite de ano novo mas de um solstício em mim.

Em geral as promessas para um novo ano são temas requentados idealizados e não realizados em anos anteriores, nada de novo… só promessas.

Muita coisa mudou para esse giro em torno do sol, teoricamente mais leve, inocentemente mais fácil ou apenas mais um ledo engano, e já foram tantos, giros e enganos.

Nesse me propus, viajante que sou, fluir apenas, deixar que a pena deslize alma no papel apático e frio, em branco.

Decidi por menos teoria e mais prática, ação ao invés de pensamento, realizações simples antes de complexas reflexões … enfim ser apenas mais cru, menos puro e nada ingênuo.

Frases curtas para grandes profundidades.

Não tenho confiança que se renova e muito pouca fé no futuro, levem em conta que o segundo seguinte se quer existe e o segundo de trás já ficou mergulhado no tempo, questões de física.

Até tinha feito minha listinha das tais promessas e esperas para esse ano novo, lá no chuvoso e vazio primeiro de janeiro, e talvez daria uma crônica mais emocionante… mas passados dois terços do mês de São Sebastião e São Paulo rasguei…ontem mesmo a noite…

Agora assumiu a antiga tese de quando inquilino da Kit na Avenida São João…

Ontem foi Ontem… Hoje é Hoje e Amanhã eu me preocupo Amanhã…

Feliz ano velho…

Por Marcelo Moro


 

Parece que foi ontem trezentos e sessenta e cinco dias atrás —, quando o Miguel curioso achou uma caixa que guardava nosso antigo presépio, tradição esquecida já há tantos anos aqui em casa. Entre mil e duzentas perguntas, todas respondidas, fomos desembrulhando as peças, peça por peça trazia uma lembrança saudosa e deliciosa… estavam todos ali, conservados de forma exemplar, os Magos, José e Maria, o Menino Jesus, a Estrela e todos os animais, Burrinho, Vaca, Boi, Camelos. Continuar lendo “Feliz ano velho…”

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

 


 

 


 

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.

 



Participaram desse ‘coletivo’ os autores:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | Alameda das Sombras…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


“mas eu não me importava e seguíamos juntos numa boa
— sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes
um em volta do outro, como novos amigos apaixonados.”
on the road

 


 

Quando Marcelo começou a me enviar o material para o seu novo livro, estava a ler pela milionésima vez ‘on the road’… e não podia imaginar o quão significativo seria esse ‘pequeno detalhe’ — uma ‘espécie de trilha sonora’ na arquitetura de ‘alameda das sombras’… que veio para minhas mãos com outro rótulo — descartado após meia hora de conversa com o Poeta.

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