Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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Maria Florêncio

Autora

Parida na acidez de Áries, em uma madrugada de Abril… sob as águas mornas de uma cidade litorânea tupiniquim qualquer. Não gosta das ondas calmas. Brinca até hoje com todas as Manias que lhe habitam. Rabisca suas emoções desde que lhe ‘disseram’ ser gente, entre grafites e tintas. Aprendeu com os Anciões que linhas possuíam formas-dores e alegrias e cabiam em envelopes. Vive com os pés na Lua. Alma sem raízes ou culpas. Sorve bebidas quentes por compulsão… se veste de nostalgia para ir à guerra. Perde-se entre amores irracionais e ilógicos. Cansou de delegar ambições alheias. Jogou folhas e contratos ao vento e voltou a respirar. É mãe por acaso-pretensão instintiva e cheia de porquês… Sem respostas.

 


Maria Florêncio é autora do livro de poesias Sadness
Para maiores informações, clique aqui

Sadness | Maria Florêncio

$ 35

 

 


Sadness é um livro de poesias que são argumentos do dia-vida-noite-morte… e o tempo anda para frente e para trás… às vezes, avança para dentro-fora e se perde em contraditórios movimentos inesperados, como num soluçar ininterrupto ou aquela pontada mais aguda que não é fim, nem começo… é apenas uma pausa nas coisas, como aquele ponto no final de um verso.

Junho | rotina (?)

Por Maria Florêncio

 

Mas, diante a dissipação da verdade…
A realidade se dilui em uma tempestade
turva, estampando as personas, cerrando…
as persianas dessas inúmeras vis caricaturas.
Por desacreditar nas tais máscaras,
Que algo além do corpo, morre…
Uma noite por vez. Uma vida por dia.

E na transparência de amores mais sutis,
Estes… vistos apenas sobre a face nua de pesadelos libertos,
não se permite mais sonhar de forma vertical… ou lúcida.

Entende a parábola do impossível.
Desenha um ‘Não’ de talhão a reverberar
por um extra mundo.

Esse a(r)mar polido, varrido pelo tempo
Digno de ermitão.

Um imenso acúmulo de nadas a preencher as vistas,
além das próprias trincheiras.

Estende a mão à palmatória… trava uma
batalha — maxibuco — mandibular.
Simplória.

E a cada golpe… lê um céu redundante.
Nuance de mar a desviar o peso de uma
Espécie de asa ausente viajante.

Nada sabe de seus próximos caminhos.
Pisa em falso, por acostumar-se a dor.
Verte sangue… deturpa as lágrimas
como forma errante de se conduzir.
.
.
.
( Mas nada disso importa!
Desde que haja… a ousadia do sol.
Em outro novo e… maldito amanhã).

PALAVRA DO EDITOR | S A D N E S S

Por Lunna Guedes

 

Maria Florêncio
Maria Florêncio, autora de S A D N E S S

 

 

Um dos meus jogos favoritos na infância era o dominó. Gostava imenso de espalhar-empilhar as peças — com suas alusões de números — por cima da mesa. O amarelo tom sempre me remeteu às folhas de papel e às sutis gotas de nanquim à manchá-las com singulares-símbolos: vogais aos pares, consoantes em ímpares. Eram tantas as combinações possíveis-impossíveis no jogo… que eu me esvaziava de mim naquele gesto solitário de peça e números — vogais e consoantes.

E foi repetindo o ritual da infância, que espalhei os poemas de sadness — coletados peça a peça, como se a autora soubesse desse meu singular prazer em observar linhas-figuras… humanas: combinando-as em mim.

A leitura acontecia sempre na última hora — como se trocássemos correspondência à moda antiga. Uma missiva que chega sem que por ela se espere… depois que o mundo faz silêncio e os enforcados se convencem da morte no breu. Tive a irrestrita companhia das xícaras de café, Turandot e um punhado de sensações-devaneios-memórias, além, é claro, da ilustre figura da poeta e seus versos alquebrados: “Maldizentes atmosféricos… de ontem | De vazios… mentiras-verdades | Um limbo convidativo… | o paraíso! …um eterno escrever-se na alma”

Traguei as combinações oferecidas em cada linha-peça, analisei cada quebra até aprendê-las pelo avesso — “Ateado às chamas. | — um Final… | A página crua! | Aquém de datas futuras. | A trama. | — o Fim. | O fogo a propagar — árduo — | pelo ‘céu da boca’.”.

As peças do dominó se ligam uma à outra e se desdobram em formulações novas, que são — enquanto poesias — fotografias antigas-e-novas. Um olhar polaroid. Um sentimento herdado dos tempos de ontem, onde tudo se organiza e materializa. Quando tudo era menos e a pressa inexistente. Quando tudo simplesmente era… as coisas inteiras-intensas e definitivas… sem amanhã para florear! Sem congestionamentos de olhos-bocas-mãos-braços-pernas. Tudo é barulho até que o silêncio se imponha…

Nesse livro-jogo-de-maria-florêncio percebemos que é preciso arqueologia para se fazer poesia e oferecê-la… ao outro, que não é convidado ao gesto mecânico de folhear páginas em busca de versos pela autora. A idéia nesse conjunto de folhas amarradas por linhas vermelhas é outra! Provocar com o que não se diz e conduzir às frestas de si… conscientemente de que é impossível evitar o pulo…



S A D N E S S
MARIA FLORÊNCIO

Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

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Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

1956

Por Maria Florêncio


 

Rasgou-se dos mofos fotografados… enterrou a falácia e a febre atrás da oliveira fresca de sua infância. Entulhou algumas pedras e montou um altar. Havia apenas passado… desesperança e dor na bagagem. Decepção amarrotada dentro de um baú roto.

Desistiu do embarque à vida — ainda no porto. Solveu malas e fa(r)dos com o olhar marejado — e naquele seus, dezenove primeiros dias.. rememorou sua ‘alminha-cruzeiro’ de pedra solta.

Em outro lado de mundo. Tão seu… sangrara a sina por desavisos (?) aceitou a culpa e o destino.

Resignada.

Todos os anos subsequentes passou tolhendo esperanças… hoje — à casa, mãos alçam brindes conformistas e repetem as mesmices cristãs. Seus dedos mergulhados em um rubro fruto pisado — lhe transborda contentamento.

Esta liberta!

Revolve passagens setecentistas dentro da alma em uma breve-marcante citação de Adalgisa Campos em sua analogia à Le Goff e Dante…

“O purgatório tornou-se um tempo e lugar intermediários’… constituindo no centro, na esperança, de muitas devoções… ‘Não há contorções, feições desfiguradas ou qualquer indício da natureza unívoca do fogo’…

Desde então… repete muda o que vê no espelho — ‘espelhos dizem verdades demais para se ocultar.’ Revive seus lampejos reprimidos em doses únicas. Perdeu o medo ao torpe. Infla o devaneio de temperança esboçando um sorriso por seus olhos claros.

‘Serei meu ano… um ano vôo inteiro’.

Feliz Ano Velho!

Por Maria Florêncio


 

Vamos celebrar a calmaria insana… como alguém a propagar a agonia no vácuo. Alimentar em nós… a besta humana que ri à revelia dos dias sulcados na face.

Nos convém maltratar os próprios calcanhares nesses descaminhos — atravessados na garganta. Já nascemos expelidos das entranhas, oras! Quaisquer vestes aqui fora, encruecem-nos de cinza — cólera.

Orquestremos nossas horas enforcadas na ampulheta, como a morte… a dissimular nossas migalhas insólitas. Vimos ontem… a mesma cama de amanhã… ao nos embriagar em doses massivas de realidade…

Há espelhos desconexos pelos cantos das alas e eles nos sorriem asperezas… vestem reflexos pálidos de algodão… alinhavam as pupilas crescentes e turvas e, nos entorpecem a alma por fora, sob as máscaras.

Eles têm punhos em riste… e vão celebrar o desdém mais uma vez…
Eles…

Um brinde!