®existir | Maria Vitória

maria vitoria

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Resisto, enquanto tenho um cano molhado de garoa pousado em minha testa. É noite. Nos bares as vidas seguem sem que olhos me notem.
Resisto, quando tenho um estômago gritando de fome e me encontro muito longe de casa, sem uma finada nota nos bolsos, apenas com uma mochila preta nas minhas costas corpudas.
Resisto, quando meu estômago embrulha ao avistar duas mulheres comendo espiga de milho do lixo entregues pelas mãos de um homem com mãos severas e sujas.
Resisto, quando os corpos se levantam quando eu me sento.
Resisto, quando entro em algum lugar e um homem/mulher, me acompanha por entre os cabides ou prateleiras.
Resisto, quando minha mãe me olha como se me odiasse ao mesmo tempo que sente uma pena mortal de mim.
Resisto, quando meus mamilos se despontam e pra tudo apontam. E consequentemente, recaem os olhares. Alguns dizem: humm. Outros dizem: cubra estas suas vergonhas.
Resisto, quando minhas mãos tocam nas mãos de outra mulher.Resisto, quando meus cabelos se armam, crescem e tomam vida própria.
Resisto, quando nas entrevistas de emprego sou a negra incapaz de ser inteligente.
Resisto, quando me calam a voz vedando meu grito.
Resisto, quando um homem se sente no direito de beijar-me o rosto ou tocar-me a pele.
Resisto, quando estou desprovida de feminilidade.
Resisto, quando tento não me atirar a morte.
Resisto, enquanto existo.

Sou, até quando me permitirem reexistir para ser apenas eu.

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Maria Vitória… andarilha de cidades cinzas, nascente avoada da terra da garoa. Entre poemas líricos e crônicas transparentes pincela a própria vida para que a mesma não se desgaste tão pesadamente. Aos 7 anos de idade as primeiras linhas inventadas artisticamente. Depois, lá longe aos 20, seu primeiro livro de poemas intitulado: Meu Interior Que Vos Fala. Logo após, aos 26 mais uma vez derramou teus versos poéticos sofridos nas páginas de: Coletivo. Livro magicamente criado e artesanalmente vivido pela editora, Scenarium. Passa dia, menos dia e tudo em torno é uma tela com vômitos quentes e calejados, a autora com suas observações fotográficas e suas descrições meticulosas põe-se a criar crônicas mortíferas sobre uma cidade cinza. Aguarde e verás.

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Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

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Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

Feliz Ano Velho

Por Maria Vitoria


Estava eu ali, beijando os bocais tristonhos de uma inverdade quase desfalida; quando me pus de pé ao embranquecer dos pentecostes universais traidores de minha própria sorte.

Busquei as drogas como um refúgio prático à vida miserável pela qual meu sorriso não vingava, buscando sempre uma maneira eloquente de findar um coração esburacado pelas guerras que a rotina me calçava. Entretanto, os clamores permutáveis de horas postas de joelhos semi-rachados, nada me traziam como glórias e eu estagnava ali… Contando as crostas de um irrisório despretérito.

Nada… do que eu fosse anulava a utopia pela qual eu me transpassei. Tentei burlar minhas insólitas essências, de uma maneira que possível fosse de reviver aquilo que há tempos já havida me findado. Outra vez, nada… do que eu fui, ou tudo que o termo “nós” fostes… Mais uma vez, tudo o que o ano me fez comer eram sobras de um peru com gosto de dezembro inacabado.

Pensando aqui comigo, cerca de quase 365 dias atrás, lá estava eu a caçar fantasmas de passados inexistentes, buscando extrair o óleo de uma infância que nunca me pertenceu. Marcos, esse era o nome do homem… a figura de gênero biológico masculino pela qual meus sonhos freudianos despertaram-me no dia da despedida de um ano velho-semi-quase-novo. Eu, quase vinte e seis anos. Um ano e dois meses de terapia. Onze anos de depressão continua. Filha bastarda da solidão. Puta carrasca das drogas.

Eu…

Poços insalubres, por poços insalubres se fez: 2017. Um declive, um suicídio. Parafusos e placas metálicas respaldando um tornozelo. À volta aos mortos que já vieram. Paredes brancas com cicatrizes de mariposa. Coleção de garrafas de cervejas importadas. Gatos dependurados em pés quebrados. Banhos com saco plástico em cima de cadeiras para deficientes defecar. Era isso o que eu era. Isso sim resume o pouco do que por um ano fui.

Engraçado como o sol pode te deixar emocionada quando suas pernas já não andam por conta própria e tudo o que você tem são quilos acumulados em cima de uma cama de casal solitária demais para fazer par.

Um ano eles me diziam… e eu seguia caminhando passo a passo como se quisesse alcançar a porra do maldito deus que riu de mim nas minhas costas.

Um ano eles me diziam… e eu seguia caminhando lado a lado com a porra do diabo em cima de meus ombros largos e basicamente fortes.

Um ano eles me diziam… e eu seguia caminhando como se a porra da Ave Maria fosse apenas uma mulher que sangra ralo a baixo em dias de sol mesclado com chuva.

Um ano eles me diziam… e eu seguia apenas caminhando após imersão de baldes com gelo e água quente.

Se eu falar sobre sonhos e objetivos nestas trepidas linhas, grite: MENTIROSA.
Se eu falar sobre desejos e foco nestas trepidas linhas, grite: MENTIROSA.
Agora se eu disser, maldito ano velho, grite: FELICIDADES.

Sabe, quando se começa o primeiro dia do ano desejando a morte enquanto lágrimas são dependuradas pelo pescoço, o que se pode esperar de um ano com final 7?

Uns tem crenças cabalísticas… outros representam o dia 7 como dias de azar. Eu mesma, cago e me permaneço suja com relação aos números, uma vez que de 0 a 10 todas as estatísticas me levam diretamente a números impares.

Mas, não posso negar a vós o semblante de algo tênue e morno. Caso eu diga apenas: “anos de desgraça”, minto para ti de forma debochada. Claro, nem só de dor e rancores o ano passou beijando as costelas de minha desejosa morte. Pouco a pouco, quase nada, um fato aqui, outra migalha ali, um texto aqui, um livro ali, um namoro aqui, uma fotografia ali, uma espiritualidade aqui, um conhecimento ali, e etc… etc… etc… Basta.

O que me fica agora é: “Adeus ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer?”
Dane-se: “Feliz ano velho seu merda”.

Com amor,
Estranhamente Noel.

Coletivo 2017

 

R$ 50

 

 


Um projeto idealizado por Lunna Guedes…  ilustrado por Adriana Aneli e riscado por autores convidados a caminhar a cidade através das palavras e propor ao leitor uma viagem através da poesia… o livro é todo movimento, das cores-aromas-e-sensações. Ouse experimentar…

 

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto