Um conto de Caetano Lagrasta

LITERATURA BRASILEIRA O despertador alemão era uma caixinha de música e tocava o tema do filme: “o terceiro homem”. Escorregou pelo apartamento e entrou no bonde. Estava atrasado. A Faculdade por dentro era um marasmo, só fervilhava por fora, naqueles tempos de cavalos nas ruas e correrias aos tiros. Quase ninguém ia às aulas: ele…

02 poemas de Bianca Velloso

vermelho (2) catorze anos eu tinha e tinha também o Beto e a delicadeza do primeiro beijo um beijo e mais nada um beijo que era tudo … menina praieira voltava pra casa cantarolando o mar … questão de segundos meu canto foi interrompido …   não sei nem de onde surgiu aquele homem alto…

Três contos de Adriana Aneli

nighthawks   RECEBEU O PRIMEIRO AVISO no fim da tarde. Dirigia com pressa. Entre ansiedade e frustração, o sol amornava o carro e o pensamento pesava em suas pálpebras. Acordou com buzina e farol alto. Na contramão, por um triz do fim da estrada. Coração aos pulos, reengatou a marcha. Indiferente ao casal à sua…

04 poemas de Aden Leonardo

  Cacarecos Quando o barulho invade sua retina — lente lenta Suas duas vezes obturantes …sabe palavras que não partem mais! — despedidas, Ela anda saturada de palhetas Vinhetas E das Mãos… que sabem de cor — Sua Ação.   Assinar poemas Autografei suas costas Com a ponta da língua com afago das mãos refiz…

Um poema de Manoel Gonçalves

[caminhos tortos]   Penitência Trago em mim Estacas no peito Na esperança de findar O sofrimento vampiresco O mal súbito noturno O sangue que vertia ao inverso Saindo de minhas feridas De meus olhos lacrimejantes Sanguíneo farol flamejante Queimando, ardendo, ferindo Trago em meu peito As estacas que enfiei Inocentemente, sem querer Na jugular da…

Um poema de Marcelo Moro

[teatro de ousadias]   Fogo Fátuo Você me vicia em poucos dias estava a mercê dos teus cristais Mágica fé morena , pequena em  fagulhas de cores ensina-me a querer -te mais e mais você me devolveu os poemas seduziu para fora minhas rimas, confundiu minhas soluções e na solidão das minhas linhas materializa-se em…

Um poema de Mariana Gouveia

[o lado de dentro]   Havia qualquer coisa de Santa, mas havia, também, qualquer coisa de louca não sei se o jeito de olhar. O atrever-se com as mãos ou o recato do decote, tão íntimo. Havia qualquer coisa de tímida, mas, também havia qualquer coisa de exibicionista. Não sei se o riso solto ou…

Um poema de Álvaro de Campos

Ah, um soneto   Meu coração é um almirante louco que abandonou a profissão do mar e que a vai relembrando pouco a pouco em casa a passear, a passear… No movimento (eu mesmo me desloco nesta cadeira, só de o imaginar) o mar abandonado fica em foco nos músculos cansados de parar. Há saudades…