23 – Nem sempre a lápis | três poemas de Ingrid Morandian

Outra face

amemo-nos como lâminas
na escura trincheira das horas
no acolhimento de versos sem distância

guardado no silêncio, tanto melhor
a lua surge na escadaria em modulações do corpo

não faço mesuras, ditei pensamentos em frente ao espelho
minha voragem são os minutos dentro das respirações
amemo-nos, dois foragidos na noite

 


 


Ferrovia leste

meu estado de neblina encobre os trilhos da longa ferrovia,
incontáveis esporas saem do meu corpo e machucam
como palavras afiadas,
a quem pertence estes caminhos?
o funcionário da estação não deixou
as correspondências de Deus. Falta-me a noite
e seu entorno, falta-me a realidade atrás das montanhas.
Por que os deuses repartiram o sol?
se não haveria mais tendas no frêmito das horas?
a estrada continua nebulosa, a luz do poste flutua na estação,
o funcionário esqueceu de deixar uma cópia da chave.
preciso abrir as ondas para limpar o oceano.
preciso partir.

o funcionário dizia: qualquer camada que se aporte no prurido
das vírgulas, causa um incômodo.
e, eu não entendia.
atravessei os quartos da casa como se fossem continentes
infinitos de histórias. O rumorejar de passos no assoalho
decompõe a química das sombras. O arredor borrado de escritas.
preciso partir

na véspera, uma senhora embarcou no último trem,
levando a existência de sonhos, a carregar a impermanência das palavras

 


 

Planar

Você, intumescido, agasalha o relevo
Da minha geografia
Após longa estiagem,
Pousamos leves na cama

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22 – Nem sempre a lápis | três poemas de Marcelo Moro…

I

Suores noturnos
E cantigas de ninar
Nenhum sonho possível
Para quem não dorme
O homem no espelho
Oferece uma moeda
Não existe o que contar
Nenhum sonho plausível
Digno de mentira
Lá fora, do lado de lá
Da madeira velha da janela
Cimento e saturno
Dá me um olho de vidro
Para enxergar luas e anéis
Quem sabe conto meu último pulsar
Dentro do soturno
Numa caixa forrada de veludo
Vinho piegas
Guardei meus escritos
Como sonhos sólidos
A flutuar num oceano de vidro.


 

II

Não vejo fantasmas a indagar
Apenas sua dança serena
Arrancando sorrisos e reações
No final do corredor
Um cigarro aceso e um gole morno no café
Para praguejar
E dançar contigo
Um rabisco de Deus no seu rascunho
Teatro de fantoches
A pensar sobre porquês
Antes que a bomba caia

 


 

III

Já moço
Encontro-me as duras penas
Com plenos futuros
E perdas
Flores raras que murcham
Cores caras que desbotam
Destoam dos gritos agudos
E choros sem mágoas
Fantasmas de adultos
Pormenorizando o menino
Jogastes com suas mãos
Para meu chute, bola de meia
Centelha fina do religare
Que fatia dividindo
Falta e saudade…

 

_____________________________

Marcelo Moro autor de ‘Teatro das Ousadias’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015 e ‘Alameda das Sombras  — ano 2016.

21 – Nem sempre a lápis | Manoel Gonçalves

Broto da saudade

Ah, saudade…
Saudade é feito florzinha
Nasce miudinha
Assim picorruchinha
Guardada na alma
Encoberta no coração
Depois parece ficar murcha
Encolhida no seu botão
Mas aí ela vem danada
Desabrocha nuns olhos
Marejados de água
E encontra solo fértil
Nos momentos de solidão
Cresce tímida tal qual broto
Mas rapidamente ganha corpo
E espalha a vegetação
Seria como árvore frondosa
Se não fosse ao menos bondosa
Brincando com a imaginação
É, saudade é um bicho engraçado
Faz um furdunço disgramado
Um nó dentro do peito
Sem deixar respirar direito
Trazendo de volta o passado
A saudade é uma lembrança
Brincando como criança
Com tudo que está dormente
De tudo que a gente sente
Seja pra nos dar nostalgia
Seja pra ficarmos contentes


 

Prisma

Beleza
Está nos olhos
De quem a veja
Não em embalagens
Nas prateleiras do mercado
Não em desfiles chiques
No look de Fashion Week
Nem em catálogos de moda
Pele perfeita e físico foda
Ou na cultura do superpop
Na self ou retoque de Photoshop
Na exploração às suas custas
No desejo de bumbum na nuca
A beleza eu repito
Está nos olhos de quem vê
Porque se for ver a real
Ela pode ser uma coisa pra mim
E outra diferente pra você

 


 

 

Cicatrizes

Entalhado em madeira nobre
Pelo Mestre habilidoso
Lapidado, tratado e ungido
No veio de rio caudaloso
As marcas que hoje percebe
Sulcos da linha do tempo
Marcas próprias da história
De cada vivido momento
Pele embebida em poesia
Magia de aventuras e lamentos
Costuras de alegrias e dores
Uma colcha de sentimentos


 

Manoel Gonçalves (Manogon) é autor de ‘Caminhos Tortos’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

18 – Nem sempre a lápis | trecho de vermelho por dentro

Após o último prato ser retirado da mesa, passaram à outra sala, com seus estofados brancos e dúzias de retratos dos antepassados da família Amaral, pendurados nas paredes — sempre tão azuis —, pintados por Tony Koegl, um alemão que tinha migrado para o Brasil, em 1927.
Deborah reconheceu o estilo do pintor, que abusava das fortes pinceladas. Preferiu se afastar das telas… espiar de longe as cores quentes misturadas… se oferecendo aos olhos do ‘panteão’ Amaral.
— O melhor dos retratos dessa casa não está aí. O guardo para mim, pendurado na parede de meu quarto. — cochichou Eva, ao se aproximar de Deborah.
A troca de olhares e de sorrisos não passou despercebida de Claudia, que se sentiu mais uma mendiga de afetos, com as mãos vazias, em suspenso no ar, e foi atrás de um cálice de licor, como forma de amortizar seus desconfortos. Bebeu o líquido escuro de um gole só e sentiu imediatamente o efeito do gesto febril no corpo todo. Respirou fundo e se equilibrou nos saltos que, por um instante, pareceram afundar-se no chão. Passados alguns segundos, sentiu-se pronta para outro gole. Encheu o copinho, sob o olhar de reprovação de Helza, e pôs tudo para dentro.
Sentia-se melhor… sentou-se ao lado do pai, no braço da poltrona, enquanto procurava por respostas às perguntas que fervilhavam dentro. E, como os diálogos estavam inaudíveis, resolveu quebrar o silêncio com sua voz em ondas.
— Você é casada, Deborah?
— Non!
— Então, não tem filhos?
— Ne pas!
— Foi por falta de oportunidades?
— Certainement! — ironizou, dividindo o sorri-so com Dario e Eva.
— Você não parece o tipo de mulher que um homem escolhe para se casar?
— E esse ‘tipo’, por acaso, existe?
— Uma mulher de família… se prepara a vida toda, desde o seu nascimento, para viver o seu grande momento: entrar na igreja, com o mais belo dos vestidos, e caminhar por entre os convidados, ao som da
marcha nupcial. Uma vez no altar, diante do padre e da igreja lotada, ela ouve o melhor dos sons: o ‘sim’ definitivo de seu noivo.
Deborah percorreu com o olhar toda a figura de Claudia… um mísero borrão de tinta no canto da mesa, insistente-teimoso — e que custa a sair, quando sai.
— Não existe uma única mulher que não sonhe com esse grande momento. Ter um marido, a sua casa e filhos é o que nos faz realizadas, o que dá sentido às nossas vidas.
— A única coisa que dá sentido à minha vida é a minha arte.
Claudia respirou fundo e deu de ombros para
aquele comentário, que considerou tolo e insignificante, típico de alguém que quer se mostrar superior. Estava certa, no entanto, de que era apenas fingimento… e foi adiante em seus questionamentos.
— Eu estou curiosa — disse Claudia, em movimento pela sala —, como foi que você e Eva se conheceram?
Mauro quase desfaleceu ao ouvir a pergunta… engoliu o resto de licor, provocando arrepios na pele fria. Se tivesse forças, teria se levantado e deixado o recinto, mas permaneceu imóvel, a respirar com alguma dificuldade.
Deborah sorriu suas verdades arremessadas ao vento… seu livro de Baudelaire e seu velho caderno de folhas gastas, onde rabiscava ensaios futuros, deixados no canto da cama, pouco antes da partida. As ondas da praia, numa manhã de outono, a molhar seus pés… e o olhar de seu menino guitarrista a lhe confessar suas sentimentalidades. A primeira vez que percorreu seus mapas urbanos e as palavras de Martin, que adorava pescar e sabia como preparar uma isca perfeita.
— Em Paris! Acho que foi no outono de Setenta e nove.
Claudia se incomodou novamente com a intimidade nos olhares cúmplices que partiam de Eva e chegavam a Deborah… enroscadas em um silêncio paralisante, como se partilhassem realidades cheias, onde
apenas as duas se encaixavam.
— No pior ano da minha vida, claro… Por que eu não estou surpresa, Eva?
Helza, que sabia onde o discurso de Claudia iria parar, pediu licença… usou como desculpa a necessidade de ir verificar o andamento das coisas na cozinha e saiu, trocando rápidos olhares com Eva. Em minutos, estaria de volta para livrá-la daquele interminável interrogatório.
— Vocês são amigas, conhecidas? Porque Eva Peixotto do Amaral é uma mulher com preferências e costuma ser muito exigente em suas relações. Comigo, por exemplo, é inexistente. Eu implorei para que ela voltasse de Paris quando precisei ser hospitalizada, mas ela ficou por lá, na sua companhia, pelo visto. Ela sempre prefere outras coisas a mim. Paris, os filhos dos empregados, das amigas… Qualquer coisa no mundo é mais importante que eu: a filha legítima de um casamento legítimo.
— Um típico dilema freudiano, facilmente resolvido na terapia, deveria tentar! — ironizou Deborah, depois de beber mais um pequeno gole de licor, provocando risos em Dario e Eva.
— Eu não preciso de terapia — retrucou Claudia, visivelmente irritada com os risos —, eu sou uma mulher moderna que ocupa a mente com trabalho.

 


 

Lunna Guedes… sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios e apreciadora de espaços urbanos. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. aprecia o outono em qualquer hemisfério.

| escreve por escrever somente |

seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros… a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabadas… nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. prefere reticências e cadernos com folhas de amarelecidos tons

17 – Nem sempre a lápis | trecho de impressões

Aqui mora um beija-flor. Volta e meia beija o arame que me separa do mundo. Perco-me nos seus traçados.
A liberdade é da cor que a gente quer. Bate o bico bem de mansinho no etéreo. E me chama… Me chama… Um clamor pela vida que se joga lá fora.  Afinal de contas, eu sou da rua!

 


 

Estou dentro do ônibus indo para casa. À minha frente está sentada uma moça. Ela usa belos óculos de grau. Mas, chamam-me a atenção suas mãos. Na esquerda, há uma embaçada aliança. As unhas são cuidadas. Curtas. Porém, sem nenhum adorno. A pele está ressecada. Lembram as mãos de minha mãe. Ouço a voz de uma colega: “mãos de mulher de marido pobre são conhecidas”. É… A vida se inscreve também nas mãos.

 


 

Os habitantes de Belo Horizonte estão apavorados. Esta é a quinta vítima encontrada sem vida nos arredores da Avenida do Contorno. O delegado de polícia da região central da cidade sustenta tratar-se mesmo de um serial killer. Todas as vítimas foram assassinadas com cinco linhas por meio de um lápis de desenho Faber Castell número sete e dispostas em papel A4 — sem pauta.

 

 


Cintia Araújo... nasceu no outono. Manhã de sol enluarado. Ditadura imposta garganta abaixo. Por isso sou uma coisa escancarada. De derramamentos. Onde tudo brota! Mas paradoxalmente eu sou uma coisa hermética. De emburramentos. Onde tudo se guarda. Eu sou o outono. Com seus guardados. Suas exposições. Folhas penduradas nas árvores. Desfolhadas nas calçadas…

16 – Nem sempre a lápis | dois poemas de Claudinei Vieira

 

sua vida de rútilas feras a morder
seu estômago por dentro;
seus polos magnéticos a girar doidos,
a desbastar loucos
o excesso de eletricidade carnívora;
sua substância sutil a subir pelas pernas,
pelo sexo, pelo peito, pelo pescoço,
coçando a ponta do lado esquerdo do cérebro;
seus olhos como formigas assassinas escarlates,
sua boca sanguínea reformatando nossas línguas…
eu, um remoinho singelo de fundo de varanda
de apartamento 3×4 no centro da cidade
a tentar acompanhar, ansioso,
um tsunami de você.

Redemoinho


 

desembaraçar-nos
dos fios de cobre dourado mesclado de sangue,
empoeirados de carne, fugir dos subterfúgios
alucinados que atropelam e dividem nossas noites
em dois labirintos concretos separados que
permeiam nossa mente
e correm paralelos impávidos ao infinito
não se contendo de bizarras mentiras supérfluas
que usamos no dia a dia, no dia a dia….

desembaraçarmo-nos dos metálicos fios cortantes,
das frias finas linhas eletromagnéticas perdidas
na vastidão dos nossos esquecimentos,
não resolveria os labirintos, não nos daria a direção,
nem nos tornaria felizes, nem menos solitários.
mas, poderia ser um começo.

Emaranharmo-nos

 

 


 — Claudinei Vieira…se emaranha nas palavras, se enrosca nas palavras, se perde. E gosta de , de vez em quando, se perder. Faz sentido ao termo ‘poeta’ se deslumbrar com as perdas, com as ausências, com os
ecos vazios. Mas, admite que pode ser um pouco frustrante, também, a busca, a ânsia. Dolorida, igualmente. Imagina que a beleza pode ser dolorida e que, ao final e ao cabo, feliz ou infelizmente, isso também faz parte do ser poeta. E Claudinei Vieira prossegue, entre as palavras, entre as perdas, entrechoques, aff, Poeta.

13 – Nem sempre a lápis | cinco poemas de Aden Leonardo…

Todo sonho resume-se em “se”.
E tudo não realizado… apenas não aconteceu — fez a curva dos “nãos” e se perdeu na esquina. Em algumas esquinas perdidas venta muito.
Não se esqueça disso: virou a esquina e ventou, sacudiu seus cabelos?
Você encontrou uma tempestade de sonhos perdidos.
Existem coisas que não aconteceram e se misturam à realidade… porque um sonho não pode ser só hipótese. Deixo assim, como {des} inventário de minhas posses, as coisas que não tive, junto às que talvez não aconteceram — como eterna confissão post mortem.

 


 

 

Ao som de Kepler

O som do sol
é um fantasma que carrego
bem do seu lado
onde nunca está – nada
de onde você nunca veio
por onde e aqui nesse eterno desespero
que mais esperei
Mirante vazio dentro de mim

A luz que se cumpre, bruxuleia meu medo:
que amanhã num fim do meio
meu meio, meu fim, do dia,
Saber de novo
no meu grito segredo:
Você nunca veio.

Fantasmas de mim se põem a dormir.
Aos gritos em pleno silêncio.


 

ASSINAR POEMAS
Autografei suas costas
Com a ponta da língua
com afago das mãos
refiz caminhos
Segurei teu rosto
no mesmo beijo
do último primeiro
dormiu três afagos
dois desejos
completamente saciados
Por algumas horas
pagas por mim, letra a letra
na fonte de erros de Eros.

 


 

NUANCE DA AUTORA
(ou efeito Lua de Papel)

Sonhei que eram duas
mulheres nuas
de nuance tênue
saindo do livro
feito de lua
em papel refeito
desenhado a meu modo
Acordei de hare raro místico efeito
vez que deleito
no corpo que já não deito
Em ambas desci para tão dentro
de crateras
Luas embriagadas
perdi trabalho
pedi cigarro
E nada
virei Bukowski
Vivi
Dois dias.

 


 

 

FALSA

Finge
Que não
Mas quando me vê
Morre
Sei que seu susto se lança
nos braços dela
Mas seus olhos se fecham
E nada tira nossa lembrança
Esquecemos de fechar a porta
Do quarto
Das idas
proibidas
das partidas
Morena, vadia, fumante passiva
de mim.

12 – Nem sempre a lápis | crônica de Obdulio Nuñes Ortega…

 

| estações |

 

Chegou o Outono… o que mudou? Para uma civilização em que a maioria de seus habitantes vive nas cidades, quase nada. Principalmente em um País que tem quase todo seu território entre as linhas do Equador e de Capricórnio — com variações climáticas mais tênues que nos países muito acima ou abaixo da metade imaginária do planeta.

Viver em metrópoles desvincula o seu morador do ciclo natural, em que as estações anunciam as suas características de forma mais aberta.

O asfalto e as casas de pedras impedem que as águas das chuvas penetrem no solo… e é nesses momentos que os temporais se fazem presentes, ou quando o sol inclemente frita os cidadãos nas calçadas sem cobertura verde. A questão ambiental interfere no dia a dia dos seres desarmados de aparelhos de ar condicionado.

Com os horizontes descontinuados pelas grandes construções, nem os céus, nem os sonhos ganham profundidade… e a inclinação da Terra em relação ao Sol não pode ser visualizada nos efeitos mágicos de cor que são produzidos quando o tempo não está fechado.

O desequilíbrio climático apenas agrava as péssimas condições em que vivemos. Para sustentarmos a civilização que tem o granito e o aço como símbolos do ‘progresso’, acabamos por contaminar a nossa alma e nosso pensamento, pela falta de magia que é a revelação da vida natural — naturalmente…

Forçamos o início e o fim do processo como a acionar um botão de liga e desliga, sem passarmos pelo tempo intermediário, que é a base da própria existência — e os ciclos não se cumprem…

Até onde chegaremos?
Especulo que ao Inverno mais rigoroso da nossa História…

08 – Nem sempre a lápis | três contos de Adriana Aneli

nighthawks

 

RECEBEU O PRIMEIRO AVISO no fim da tarde. Dirigia com pressa. Entre ansiedade e frustração, o sol amornava o carro e o pensamento pesava em suas pálpebras.
Acordou com buzina e farol alto. Na contramão, por um triz do fim da estrada. Coração aos pulos, reengatou a marcha.
Indiferente ao casal à sua frente, escolheu o balcão da lanchonete: “Seu filho nasceu. Venha com calma” apitou a mensagem em seu celular.

Brindou por duas vidas com seu pingado.

 


 

deus da carnificina

 

QUASE COMPLETAVA UM ANO que, ao final do expediente, ele recolhia o lixo do oitavo cartório. Quando ele se aproximava de sua mesa, ela gentilmente se abaixava. Entregava a ele a lixeira, um sorriso no rosto e um delicado até amanhã.
Ela não sabia seu nome, mas ele conhecia a marca do lenço umedecido com o qual ela limpava as mãos, a barrinha de cereais de sua preferência e a marca do adoçante que usava em seu café.
Devotava-se a estudar seu lixo, na esperança de quem sabe um dia…
Quando entrou, ela estava cercada pelos colegas, recebendo alegres cumprimentos. Com a timidez ardendo em seu rosto, resolveu que já era hora.
Tomou coragem, pediu licença e penetrou a roda. Foi em sua direção.
Ela, sempre gentil, mais uma vez se abaixou e depositou em suas mãos a lixeira transbordante da festa de aniversário.

 


 

o sal da terra

 

ARCO-ÍRIS EM PLENA SEGUNDA-FEIRA. Mal podia esperar. Namoravam há um ano, tudo combinado, a primeira comemoração, eles se encontrariam ao final do dia, no mesmo cinema em que se conheceram. Divertida, linda, perfumada desceu a escadaria do prédio… Não, mensagem nova: espero você no café em frente ao seu trabalho.
Correu até ele. Chegou por trás, já beijando de leve sua nuca, o pescoço. Abraço apertadinho, feliz, feliz… te amo tanto!, deslizou o presente à sua frente. Ele nem a olhou, desculpe, recusou o pacote. Ela ainda ensaiava um sorriso, quando o golpe veio fatal… então ele levantou e saiu da sua vida.
Ela tomou um café. Salgado e frio.

 


Adriana Aneli é autora do livro de contos ‘Amor expresso’  — série exemplos de contos da Scenarium — ano 2015.

07 – Nem sempre a lápis | dois poemas de Bianca Velloso

vermelho (2)

catorze anos eu tinha
e tinha também o Beto
e a delicadeza
do primeiro beijo
um beijo e mais nada
um beijo que era tudo

menina praieira
voltava pra casa
cantarolando o mar

questão de segundos
meu canto foi interrompido

 

não sei nem de onde
surgiu aquele homem
alto e forte, estilo lutador de jiu-jitsu

parecia raiva o que ele carregava nos olhos
não tive tempo de pensar

:

arrastou-me
arrancou-me as roupas
arrancou-me a inocência
arrancou-me os sonhos
beijou-me com força
e o beijo dele tinha gosto de morte
invadiu-me o sexo
depois foi embora
o vermelho doce virou sangue
abortei minha adolescência

 


 

Bianca Velloso é autora do livro de poesias ‘Indizível’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

06 – Nem sempre a lápis | Aden Leonardo

 

Cacarecos

Quando o barulho invade sua retina
— lente lenta
Suas duas vezes obturantes
…sabe palavras que não partem mais!
— despedidas,
Ela anda saturada de palhetas
Vinhetas
E das Mãos…
que sabem de cor —
Sua
Ação.


 

Assinar poemas

Autografei suas costas
Com a ponta da língua
com afago das mãos
refiz caminhos
Segurei teu rosto
no mesmo beijo
do último primeiro
dormiu três afagos
dois desejos
completamente saciados
Por algumas horas
pagas por mim, letra a letra
na fonte de erros de Eros.

 


 

Nuance da autora
(ou efeito Lua de Papel)

Sonhei que eram duas
mulheres nuas
de nuance tênue
saindo do livro
feito de lua
em papel refeito
desenhado a meu modo
Acordei de hare raro místico efeito
vez que deleito
no corpo que já não deito
Em ambas desci para tão dentro
de crateras
Luas embriagadas
perdi trabalho
pedi cigarro
E nada
virei Bukowski
Vivi
Dois dias.

 


 

Falsa

Finge
Que não
Mas quando me vê
Morre
Sei que seu susto se lança
nos braços dela
Mas seus olhos se fecham
E nada tira nossa lembrança
Esquecemos de fechar a porta
Do quarto
Das idas
proibidas
das partidas
Morena, vadia, fumante passiva
de mim.

 


 

Aden Leonardo é autora do livro de poesias ‘dentro de um bukowski’ — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

04 | Nem sempre a lápis | Manoel Gonçalves

[caminhos tortos]

 

Penitência

Trago em mim
Estacas no peito
Na esperança de findar
O sofrimento vampiresco
O mal súbito noturno
O sangue que vertia ao inverso
Saindo de minhas feridas
De meus olhos lacrimejantes
Sanguíneo farol flamejante
Queimando, ardendo, ferindo
Trago em meu peito
As estacas que enfiei
Inocentemente, sem querer
Na jugular da amada
Assim, como coisa pouca
Ao preço de um simples riso
Sem nada lhe oferecer em troca

 


 

Manoel Gonçalves (Manogon) autor de ‘Caminhos Tortos‘ — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.