Nota do autor | O branco que me atormenta

Por Nic Cardeal


Há muitos brancos em minha vida. Dos mais lindos é o branco das nuvens que passeiam serenas céu afora, o branco da espuma que mergulha festeira na areia da praia, o branco da asa que voa e sempre volta ao ninho. Outro branco que me deixa extasiada é o branco da neve fria que cai feito chuva do infinito lá de cima para as finitudes terrenas cá de baixo, derretendo suas brancuras até a transparência da água que mata a sede do chão em desalinho.
Também tenho muitos brancos habitando meus ‘dentros’. Quando respiro sinto brancos inundando os pulmões, imagino brancos como todas as cores juntas brincando de arco-íris em ciranda, quando de repente se abraçam em alegria silenciosa e refletem sempre à frente os raios de luz, não absorvendo nenhum — porque ficar não parece bom para quem quer seguir…
No entanto, há um branco que me angustia, atormenta, às vezes sacode, às vezes inebria — o branco da palavra que não consegue guarida, que não alcança a veia para o acelerar do batimento cardíaco, que não enfurece o veio do rio em direção à explosão da cascata na hora da escrita. É como uma cegueira repentina, onde a visão do paraíso (ou inferno?) se apaga e nada mais faz sentido para o que havia de ser dito. Esse branco impávido surge-me praticamente impassível, atormentando todas as minhas metades e os meus poucos inteiros, sorvendo a escassez de sentido para o que havia de ser dito. Nessas horas então me reconheço — sou aquela que não me entendo, sou aquela que não me remendo, e aquela que me guardo ao largo do caminho. Sem retorno. Porque nessa estrada não há volta. Então está feito — não há o que fazer. É sentar e aguardar mais um (ou outro) alvorecer. Porque, de fato, é fato: na noite calada e tão vasta é que as palavras mais gostam de conversar entre si — vêm ora aos poucos, ora ‘aos muitos’, e te acordam para a imensidão ‘do dizer’. “Vejo a palavra enquanto ela se nega a me ver. A mesma palavra que me desvela, me esconde. Toda palavra é espelho onde o refletido me interroga”, já confessou Bartolomeu Campos de Queirós.
O branco que me atormenta é o mesmo branco que me sustenta. Porque escrever tem de doer para existir.

Anúncios

NOTAS DO AUTOR | Ser escritor: o confronto das emoções

Por Nic Cardeal


Não sei ao certo se já posso me dizer oficialmente escritora. Às vezes, penso que seja atrevimento de minha parte pensar-me assim, já que livros escritos em papel passado ainda não os tenho. Só sei dizer que escrevo como em um desatino de vida. Sigo a colecionar participações em coletâneas e antologias aqui e acolá, num fluir de correntezas às vezes mansas, às vezes agitadas e profundas.

Escrever tem sido em mim, desde sempre, quase como uma espécie de subterfúgio do mundo. Preciso desaguar rios e mares de sentir muito fundos, e como não encontro cais de aportar meu navio de viver, faço-me em palavras, como uma forma de emprestar sentidos ao que pode não ter nenhum. De fato não sei dizer… Enquanto não sei dizer, procuro ancorar a alma n’algum lugar seguro, longe do grande escuro, onde pelo menos haja um farol, uma lanterna, uma vela de pavio comprido, para alumiar nem que seja alguma réstia de caminho. Nesse processo de criação, inspiração, conspiração ou tão somente ‘piração’, agarro com todas as forças qualquer luz que se acenda em minha grande noite de alma, pois esse é meu maior e mais puro milagre — estar frente a frente com o emocional que mora em mim — a grande luta, o grande confronto do existir. Nem sempre faço uso das minhas próprias emoções, muitas vezes tomo por empréstimo, por usucapião ou em ‘terras devolutas’, as emoções de outrem, tentando colocar ordem na desordem que os sentidos provocam, em busca de alguma lucidez doce e fresca na escrita. Assim, vou buscando a palavra como uma forma de salvação. Acho até que a expressão dos meus sentidos é muito disfuncional. O esquadrinhar de sentimentos e sensações e o processo de transformação disso tudo em palavras causa uma dor interna imensa, que lateja agudo dentro das minhas veias, e então eu me imprimo inteira em palavras (raramente verbalizadas, sempre escritas), mesmo que eu esteja aos pedaços ou mesmo trôpega, porque, confesso, sou disléxica nos pensamentos…

Minhas emoções estão em confronto o tempo todo, sem trégua. Eu beiro ventos e tempestades traiçoeiras. Eu cirzo palavras a passos lentos, porque palavras em mim não são dadas a sangrias desatadas. Desde sempre eu sinto saudades de uma de mim que não sei quem sou, e amanso essas saudades por meio da escrita. As palavras não se permitem ficar à beira de serem ditas em minha garganta, por isso tomam caminhos diversos, preferem o arado da linha e, depressa, confinam-se inteiras entre as margens e as entrelinhas. Assim me faço — e vou sobrevivendo a mim mesma. Porque escrevo no confronto das emoções. Porque “ser escritor é ter a escrita como batimento cardíaco”, como bem disse Leonor Brito. E os batimentos, aqui dentro, aceleram-me todos os demais sentidos.

NOTA DO AUTOR | O que me inspira

Por Nic Cardeal


 

O que me inspira? Ou me ampara, conspira, compara? Eu mesma me pergunto porque enquanto procuro respostas, o próprio ar que me comporta a um só tempo também me conforta e me reporta… a emoções e sensações de tempos outros, em que tudo era razão para o revolver da paixão. Sou aquela de tantos verbos soltos, que me atrevo a encilhar silêncios no galope da garganta emudecida, na tentativa quase insana de buscar compreender esse deslizar de tantas conjugações nervosas que me perpassam palavras à beira de serem ditas.

Ainda antes do verbo inspirar colocar-se perfeito na pronúncia dos seus tempos, a própria ação ou efeito de inserir ar pelos pulmões já era ato conjugado por nossos corpos em seus movimentos de mundo. Quando esse ato exalado, exaltado, quase enamorado, estica-se todo além desse horizonte premeditado, incita-se – excita-se – a capacidade de criação. Ou seja, o tempo todo e todo o tempo estamos a nos inspirar, seja de ar, seja de estímulos para a criação, para uma ideia original, uma espécie de iluminação dos sentidos. Não é maravilhoso que assim seja? Ou seja, a inspiração nos avizinha minuto a minuto!

Outro dia já me perguntaram. O que pode estar a me inspirar? Eu inspiro ar e, ele mesmo, a seu tempo, me está a inspirar, no seu vento, no seu tempo, na folha que faz cair do galho. Tudo me inspira. Ou nada. Avessos de fora ou de dentro. Recomeços, tropeços, lembranças momentâneas, esquecimentos duradouros, pensamentos perdidos e jamais recuperados. “Uma página em branco dá o direito de sonhar”, como dizia outrora Gaston Bachelard. Sendo assim, a inspiração mora mesmo no vazio de um silêncio nunca dito. Porque “o ser torna-se palavra”, mas antes disso, para imaginar, ausenta-se dela. Em mim, é bem certo, a inspiração é habitante de um quarto escuro à luz de velas, lampião ou vaga-lume. Um quarto quase escrito – no vazio dos meus silêncios – neste instante faço-me em palavras – e eis que existo.

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga
e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

Promessas para o ano novo que já está indo

Por Nic Cardeal


 

Nunca fui de fazer promessas – mesmo porque não sei ao certo se a gente pode confiar 100% na gente mesmo – por isso nada prometo para o ano que já veio, que já está indo. Quem me garante que eu própria não seja uma vaga promessa de um ano novo já tão antigo? Por que então dar-me ao trabalho de prometer a mim mesma tantas inutilidades inalcançáveis? Melhor guardar esse tempo de promessas para os inevitáveis ‘agoras’ que se enfileiram ansiosos à espera do existir. Afinal, promessa é dúvida!

Então é assim. Sinto muito dizer. Mas tenho de admitir. Mal dou conta de tentar, a duras penas, asas e voos, cumprir a promessa que sou – e que nem sequer prometi! Quem dirá fazer novas promessas para o ano que já chegou, já se instalou e está indo embora por entre os dedos de um janeiro já ao meio?

Das promessas desisti. Ando preferindo colecionar instantes descompromissados. Sem disfarces ou arremates. Como uma teia de muitos fios, uma bainha desfiada, alinhavos fáceis de desfazer. Não há nada a fazer. Nem prometer. Só viver bem aqui. Nas miudezas desses encantos recém-nascidos, desejos amortecidos, sutilezas tão preciosas, suspiros agradecidos, como uma vida sendo tecida no tear das horas vagas ou ocupadas.

Pensando bem. De mim, feito assim – um sonhador de infinitos – talvez uma única promessa (sem compromisso!) no salto quântico dos sentidos: prometo não prometer!

Feliz ano velho

Por Nic Cardeal…


 

Entra ano, sai ano, e assim vai girando esse nosso mundo ao redor do Sol, ao redor de si mesmo, numa louca corrida redonda e sem fim… Enquanto isso o tempo nos leva o sorriso, a graça, as brincadeiras de criança, muitas risadas bobas e outras tão gostosas e loucas, tantas lágrimas a perder de vista, sonhos feitos, desfeitos, refeitos, por fazer, muitas folhas em branco e outras tantas repletas de rabiscos e motivos… Também nos leva a calma, a falta dela, a ansiedade e a plenitude, a infância, a juventude e a velhice, a paz e o que sobra das guerras, as mesmices, as surpresas, o caos e o renascer das cinzas, nos rouba a vida e nos deixa como única saída somente morrer daqui…

Sim, esse mesmo tempo que um dia nos deu de viver no primeiro respiro, nos deu tempo ao tempo para o aprender do mundo, nos embalou no colo quente da mãe quase sem tempo para o amamentar do filho, nos presenteou com tantas tardes tranquilas sem relógios ao sabor do vento, nos serviu café quentinho e bolinho de chuva em tardes ensolaradas, nos concedeu a graça de chuvas bem feitas para o banho na terra seca e o germinar das sementes, nos alimentou da seiva, da folha e do fruto das matas abençoadas, nos fez sentar na calçada pra tantas conversas fiadas tão bem destrinchadas e desfiadas…

Esse mesmo tempo que nos sufoca e desatina, nos concede tantas graças e desgraças, nos revira ao avesso e depois, sem mais nem menos, nos devolve a esperança e a gente espera e um dia, quem sabe, alcança… Não tem jeito mesmo. Está feito. Entra ano, sai ano, não há como fazer parar essa roda assim gigante… Então vamos seguindo o giro, a roda, o círculo, a prosa, a valsa, o caminho sem volta. Vamos vivendo. Porque não há outro modo de passar por tudo isso sem seguir em frente — malabaristas de nós mesmos nessa linha esticada feito um breve horizonte – sem sabermos de fato (e isso é fato) se depois dele — desse tão breve horizonte — continuaremos no ato de existir, ainda que em algum infinito a contento.

Não sei mesmo dizer a que fim se destina esse viver.
Só uma coisa é certa: nada é certo!

Então, teimosa, ainda pergunto: de que serão feitas as certezas nos sonhos de outros mundos? Bem sei que outrora esse gosto que me chega à boca era bem outro: um gosto doce de viver a vida tão esticada e comprida, a se perder de tão longínqua no interminável fio de tecer fantasias na alma tão vasta de meu corpo miúdo…

Eram tempos de outrora, marcados a ferro e brasa em roupas tão engomadas…
Hoje sou outra. Tantas outras. Talvez nenhuma. Lembro de um varal estendido no quintal por trás de casa. Muitas coisas penduradas. Uma toalha de mesa florida, desejos amortecidos, roupas velhas servindo de pouso para sabiás tão atrevidos, alguns sonhos em suspenso tomando um sol e uns ventos, várias vidas sendo vertidas no tear das nossas horas vagas… tudo a seu tempo, com início, meio, fim, em todos os (des)temperos!

Entra ano, sai ano, vou preparando as sementes de romã, já nasceu o cacho das uvas, a roupa branca espera sua hora pendurada no cabide, minha alma já esqueceu porque tenho de fazer pedidos para o ano que ainda nem veio e nem sabe o meu nome…

Mas eu insisto. Vou querer o meu pedido anotado na agenda do futuro, sublinhado em caneta marca-texto, com endereço e remetente, para que não haja nenhum erro de postagem — e quando chegar a hora da entrega do meu ano novo, estarei com a minha porta escancarada, aguardando sentada à beira da calçada, porque sou dessas de Saturno, que sabe o tempo certo de dizer o mesmo verso outra vez: feliz ano velho.

O futuro já acabou.