®existir | Nic Cardeal

nic cardeal

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‘PROIBIDO PISAR NOS SONHOS’

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Abri o dicionário porque secaram-me as palavras. Folheei durante algumas horas, procurando aquelas mais exatas para significar o que vai pelos vãos entristecidos da alma, nessa ressaca de interminável desalento… Teimosas, chateadas, nenhuma delas ofereceu-se ao sacrifício de dizer o ‘indizível’ (tomando por empréstimo essa qualidade imensa nomeada ao sentido do amor por minha querida amiga fantástica escritora Rosângela)…

Fiquei abatida. Eu, que preciso tanto de palavras que me salvem do quase diário transtorno obsessivo compulsivo que tenho por sentidos havidos no coração… Que faço eu, sem palavras que me arranquem ervas daninhas dessa minha floresta tão densa, a que chamo emoção? Que faço eu, sem palavras escritas, se nem dizê-las na voz eu sei, porque a voz não me vem, porque a voz não me convém, porque na garganta eu tenho usucapião de silêncios tão inteiros e medonhos, que me fazem ouvir o palpitar do peito e o navegar do rio vermelho que escorre interminável pelas veias?

Não houve jeito. As palavras em mim viraram estranhos pássaros sem ninhos. O que se faz sem palavras a dizer o desalento do viver? Terceirizando meu coração, haverá quem pague um mínimo ‘salário’ de paixão por palavras a desabar o que de mim sobrou em retalhos de uma alma descosturada? Como será possível conjugar um verbo bem transitivo e direto a dizer um bom recado, desses de ‘esperançar’ a vida, em boas varandas de aguardar o futuro no amanhã? Haverá um amanhã de horizontes mais verdadeiros que nos resguardem novos frutos de bem viver?

Não sei dizer. Por ora, só sei sofrer a dor servida em dilaceradas e desmedidas ranhuras nessas minhas estranhas entranhas entre as vértebras, as veias, as pulsações e os pulmões que me teimam latente, feito gente que resiste decente.

Fechei o dicionário. A palavra veio ao mundo. Sinto-a trôpega a parir ausências de sentidos nesse pesadelo que, a olhos vistos, vai seguindo tão imundo pelas mãos de falsos homens ‘de bem’… Ilimitados não sejam apenas o sonho, a fé, a esperança, mas o significado de tudo isso depois do que a história irá dizer…

 


Nic Cardeal… na grafia da vida que se fez minha, não sei dizer ao certo a que fim eu vim. Só sei que vim. Nascida depois de um ovo partir-se ao meio, cheguei ao planeta em parceria. Talvez por medo de descer por aqui sozinha. Andei por lugares diversos, contei estrelas, juntei pedrinhas (e livros) pelos caminhos. Sou desajeitada. Calada. Quase esquisita. Minha voz tem som de silêncios. Enquanto não consigo dizer-me muito, faço de conta que me faço em palavras. Por isso escrevo. Meu manual de sobrevivência.

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Resenha | Sete luas

Por Emerson Braga


QUANTAS LUAS VOCÊS JÁ LERAM NOS ÚLTIMOS DIAS? EU LI SETE!

 

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Não há um dia sequer em minha vida em que eu não olhe dezenas de vezes para o céu, principalmente quando as estrelas começam a cintilar no firmamento, pois, como o Rodrigo S.M. de Clarice Lispector, “eu também sou o escuro do mundo”.

Decifrar os destinos zodiacais escritos nas constelações, que dão uma significância menos científica e mais romântica ao céu, é um hábito adquirido há anos e que resistiu às muitas intransigências de meu ateísmo. Quando criança, eu inventava com gizes de cera e lápis de cor minhas próprias constelações, pinçando estrelas daqui e dacolá para depois agrupá-las em um céu de cartolina.

Lunna Guedes, editora da revista Scenarium Plural e amiga querida com a qual tomo muitos cafés coados em código binário, também é maga dos astros, engenheira de constelações, arquiteta de seres sidéreos (Não por que saiba criá-los, mas pela competência harmoniosa com que os reúne em tecituras celestiais). O livro SETE LUAS, uma das últimas publicações da Plural, traz em suas páginas textos escritos por sete cefeidas que escrevem ao sabor de radiantes pulsações: Aden Leonardo, Adriana Anelli, Adriana Elisa, Ingrid Morandian, Mariana Gouveia, Nic Cardeal e Rebecca Navarro. Em tempos entrevados por uma masculinidade terrosa e áspera, as autoras transformam seus versos em luzeiros gasosos capazes de nos guiar através da escuridão, de nos fazer voltar nossos olhares para o alto. Os poemas giram ao redor uns das órbitas dos outros como satélites que se enamoram e se desfazem sobre o peso de nossas cabeças, tornando-as mais leves, possibilitando o prazeroso mergulho, nos afogando livres do medo e da culpa em um cosmo de lirismo.

Sete Luas é um livro para ser lido com a sensibilidade da qual nos valíamos em nossa infância para estimarmos quantas luzinhas há no céu. Afinal, contar estrelas é um exercício de solidão e paz que não tem fim e, como os bons livros, pode ser revisitado sempre que nossos corações desafiarem, luminosos, as trevas que os ameaçam.

Palavra do Editor | S.e.t.e L.u.a.s

Por Lunna Guedes


 

Eu nunca sei como as coisas acontecem em mim… sei que ganham forma no decorrer do dias-horas — aos poucos… em pequenos punhados de tudo, em poucos goles de nada. Fico a espiar a parede e suas ranhuras, a pilha de livros por ler e a xícara vazia no canto da mesa. Em meio a tudo isso, há o branco da tela do Word a chamar por mim com seu cursor a piscar: escreva-me! — convite que eu nem sempre estou disposta a aceitar porque sou uma ávida colecionadora de desaforos.

De repente — como um estalo-trovão — acontecem palavras dentro da pele-mente… e eu escrevo no ar. Um sorriso ardiloso-ligeiro escorre pelos lábios e o olhar se perde em distâncias incalculáveis.

Dentro de mim tudo faz sentido.
Antevejo tudo e nada… em somas impossíveis.

Com Sete luas foi exatamente assim. Estava quieta… a observar as minhas paisagens favoritas quando vi a lua emergir imensa-cheia-poderosa no negro céu. Pensei — quase que imediatamente —, no poema de Cecília Meireles: “tenho fases como a lua, fases de andar escondida, fases de ir para a rua”.

Eu enxergo as fases lunares como ciclos improváveis… que se dependem. A Lua é nova por um curto período de tempo… e cresce até alcançar a fase cheia. Ao atingir o seu apogeu — esvazia-se gradativamente até minguar… nada mais restar e ser apenas Lua — sem brilho-opaca-vazia. A mais intrigante-instigante-e-ignorada fase: negra-escura…

Há quem estabeleça paralelos entre: nascer-crescer-reproduzir-envelhecer-e-morrer.
São processos unos, que cada um preenche com silogismos particulares. Algarismos, que nem sempre podem ser medidos — somados tampouco.

Eu considero que nós mulheres, somos a própria Lua… com ciclos e fases que começam e terminam e recomeçam — imprecisos e não-absolutos.

Sete Luas foi pensado a partir dessa premissa… sete mulheres-poetas a conceber-Ser enquanto fases-ciclos… de vida-morte-arte. Cada qual a partir de suas vivências múltiplas, orientadas por um Norte que é o olhar no espelho… essa fina lâmina lunar onde reconhecemos rastros-restos-retalhos do que somos — ou não!

 


 

Aden Leonardo |  Adriana Aneli |  Adriana Elisa Bozzetto |
Ingrid Morandian |  Mariana Gouveia |  Nic Cardeal  | Rebecca Navarro

Tiragem única de 15 exemplares
Pedidos: scenariumplural@gmail.com


 

Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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Junho | Na morada da palavra eu sou a clandestina

Por Nic Cardeal

 

Encontrei-a cabisbaixa e angustiada. Então ela foi se aproximando lentamente e desatou a falar-me em desesperada enxurrada:
– ‘Eu quis fazer de você a minha morada. Mas depois descobri que pessoas não podem ser casas, porque são asas. Como construir em ti uma janela onde eu possa sentir o vento da primavera, se choves quase o tempo todo de desesperançada ausência? Como abrir-te em portas, fazer-te comportas, guardar meus segredos em teus armários, se me recusas as chaves, as chances, os sonhos da madrugada insone? Como acender-te em lareiras, se preferes a neve a congelar-te em geleiras? Não. Não te posso habitar porque em ti paredes não há… Pessoas não podem ser habitadas. Porque não são habituadas a sem manterem em paredes inteiras. Preferem derrubar quaisquer obstáculos que as impeçam o nascer de horizontes. Porque são asas. Mesmo antes de nascerem pássaros. Humanos não são dos reinos dos habitáveis destinos. Muito mais propícios a desatinos… Em ti não encontrei meu quarto de adormecer. Mal pude dormir enquanto te amei, porque paixões são dadas a sangrias desatadas. Predestinadas a finais repentinos ou inusitados. Eu também quis fazer de mim a tua morada. Que nada… Teu voo passou ao largo. Deixaste cair uma pena. Da tua asa. Farei dela a caneta que escreve a minha linha. Pra costurar a minha alma rasgada. Descobri que não posso ser casa. Minhas paredes romperam na tempestade da tua saída. Pela porta da frente, sem trinco, sem chave, sem nada. Destelhaste minhas certezas tão passageiras… Eu – que sou letra, palavra, desenhos filamentosos dos teus desejos, anseios, saudades, receios – como vou morar em uma casa de silêncios, se sou palavras que gritam teus desesperos? Não… Não posso prender-me à tua rotina. Sou em ti a clandestina: livra-me da culpa da tua sina!’
Terminado o desatino, ela – a palavra – silenciou o arado da linha em brancas folhas em desalinho. Fiquei muda. Desnorteada – sem norte, sem voz, sem nada… Do que será feita minha rotina, sem a palavra à beira de ser dita?

Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

|  versão digital clique aqui | 

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

Promessas para o ano novo que já está indo

Por Nic Cardeal


 

Nunca fui de fazer promessas – mesmo porque não sei ao certo se a gente pode confiar 100% na gente mesmo – por isso nada prometo para o ano que já veio, que já está indo. Quem me garante que eu própria não seja uma vaga promessa de um ano novo já tão antigo? Por que então dar-me ao trabalho de prometer a mim mesma tantas inutilidades inalcançáveis? Melhor guardar esse tempo de promessas para os inevitáveis ‘agoras’ que se enfileiram ansiosos à espera do existir. Afinal, promessa é dúvida!

Então é assim. Sinto muito dizer. Mas tenho de admitir. Mal dou conta de tentar, a duras penas, asas e voos, cumprir a promessa que sou – e que nem sequer prometi! Quem dirá fazer novas promessas para o ano que já chegou, já se instalou e está indo embora por entre os dedos de um janeiro já ao meio?

Das promessas desisti. Ando preferindo colecionar instantes descompromissados. Sem disfarces ou arremates. Como uma teia de muitos fios, uma bainha desfiada, alinhavos fáceis de desfazer. Não há nada a fazer. Nem prometer. Só viver bem aqui. Nas miudezas desses encantos recém-nascidos, desejos amortecidos, sutilezas tão preciosas, suspiros agradecidos, como uma vida sendo tecida no tear das horas vagas ou ocupadas.

Pensando bem. De mim, feito assim – um sonhador de infinitos – talvez uma única promessa (sem compromisso!) no salto quântico dos sentidos: prometo não prometer!

Feliz ano velho

Por Nic Cardeal…


 

Entra ano, sai ano, e assim vai girando esse nosso mundo ao redor do Sol, ao redor de si mesmo, numa louca corrida redonda e sem fim… Enquanto isso o tempo nos leva o sorriso, a graça, as brincadeiras de criança, muitas risadas bobas e outras tão gostosas e loucas, tantas lágrimas a perder de vista, sonhos feitos, desfeitos, refeitos, por fazer, muitas folhas em branco e outras tantas repletas de rabiscos e motivos… Também nos leva a calma, a falta dela, a ansiedade e a plenitude, a infância, a juventude e a velhice, a paz e o que sobra das guerras, as mesmices, as surpresas, o caos e o renascer das cinzas, nos rouba a vida e nos deixa como única saída somente morrer daqui…

Sim, esse mesmo tempo que um dia nos deu de viver no primeiro respiro, nos deu tempo ao tempo para o aprender do mundo, nos embalou no colo quente da mãe quase sem tempo para o amamentar do filho, nos presenteou com tantas tardes tranquilas sem relógios ao sabor do vento, nos serviu café quentinho e bolinho de chuva em tardes ensolaradas, nos concedeu a graça de chuvas bem feitas para o banho na terra seca e o germinar das sementes, nos alimentou da seiva, da folha e do fruto das matas abençoadas, nos fez sentar na calçada pra tantas conversas fiadas tão bem destrinchadas e desfiadas…

Esse mesmo tempo que nos sufoca e desatina, nos concede tantas graças e desgraças, nos revira ao avesso e depois, sem mais nem menos, nos devolve a esperança e a gente espera e um dia, quem sabe, alcança… Não tem jeito mesmo. Está feito. Entra ano, sai ano, não há como fazer parar essa roda assim gigante… Então vamos seguindo o giro, a roda, o círculo, a prosa, a valsa, o caminho sem volta. Vamos vivendo. Porque não há outro modo de passar por tudo isso sem seguir em frente — malabaristas de nós mesmos nessa linha esticada feito um breve horizonte – sem sabermos de fato (e isso é fato) se depois dele — desse tão breve horizonte — continuaremos no ato de existir, ainda que em algum infinito a contento.

Não sei mesmo dizer a que fim se destina esse viver.
Só uma coisa é certa: nada é certo!

Então, teimosa, ainda pergunto: de que serão feitas as certezas nos sonhos de outros mundos? Bem sei que outrora esse gosto que me chega à boca era bem outro: um gosto doce de viver a vida tão esticada e comprida, a se perder de tão longínqua no interminável fio de tecer fantasias na alma tão vasta de meu corpo miúdo…

Eram tempos de outrora, marcados a ferro e brasa em roupas tão engomadas…
Hoje sou outra. Tantas outras. Talvez nenhuma. Lembro de um varal estendido no quintal por trás de casa. Muitas coisas penduradas. Uma toalha de mesa florida, desejos amortecidos, roupas velhas servindo de pouso para sabiás tão atrevidos, alguns sonhos em suspenso tomando um sol e uns ventos, várias vidas sendo vertidas no tear das nossas horas vagas… tudo a seu tempo, com início, meio, fim, em todos os (des)temperos!

Entra ano, sai ano, vou preparando as sementes de romã, já nasceu o cacho das uvas, a roupa branca espera sua hora pendurada no cabide, minha alma já esqueceu porque tenho de fazer pedidos para o ano que ainda nem veio e nem sabe o meu nome…

Mas eu insisto. Vou querer o meu pedido anotado na agenda do futuro, sublinhado em caneta marca-texto, com endereço e remetente, para que não haja nenhum erro de postagem — e quando chegar a hora da entrega do meu ano novo, estarei com a minha porta escancarada, aguardando sentada à beira da calçada, porque sou dessas de Saturno, que sabe o tempo certo de dizer o mesmo verso outra vez: feliz ano velho.

O futuro já acabou.