Promessas para o ano novo que já está indo

Por Nic Cardeal


 

Nunca fui de fazer promessas – mesmo porque não sei ao certo se a gente pode confiar 100% na gente mesmo – por isso nada prometo para o ano que já veio, que já está indo. Quem me garante que eu própria não seja uma vaga promessa de um ano novo já tão antigo? Por que então dar-me ao trabalho de prometer a mim mesma tantas inutilidades inalcançáveis? Melhor guardar esse tempo de promessas para os inevitáveis ‘agoras’ que se enfileiram ansiosos à espera do existir. Afinal, promessa é dúvida!

Então é assim. Sinto muito dizer. Mas tenho de admitir. Mal dou conta de tentar, a duras penas, asas e voos, cumprir a promessa que sou – e que nem sequer prometi! Quem dirá fazer novas promessas para o ano que já chegou, já se instalou e está indo embora por entre os dedos de um janeiro já ao meio?

Das promessas desisti. Ando preferindo colecionar instantes descompromissados. Sem disfarces ou arremates. Como uma teia de muitos fios, uma bainha desfiada, alinhavos fáceis de desfazer. Não há nada a fazer. Nem prometer. Só viver bem aqui. Nas miudezas desses encantos recém-nascidos, desejos amortecidos, sutilezas tão preciosas, suspiros agradecidos, como uma vida sendo tecida no tear das horas vagas ou ocupadas.

Pensando bem. De mim, feito assim – um sonhador de infinitos – talvez uma única promessa (sem compromisso!) no salto quântico dos sentidos: prometo não prometer!

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Feliz ano velho

Por Nic Cardeal…


 

Entra ano, sai ano, e assim vai girando esse nosso mundo ao redor do Sol, ao redor de si mesmo, numa louca corrida redonda e sem fim… Enquanto isso o tempo nos leva o sorriso, a graça, as brincadeiras de criança, muitas risadas bobas e outras tão gostosas e loucas, tantas lágrimas a perder de vista, sonhos feitos, desfeitos, refeitos, por fazer, muitas folhas em branco e outras tantas repletas de rabiscos e motivos… Também nos leva a calma, a falta dela, a ansiedade e a plenitude, a infância, a juventude e a velhice, a paz e o que sobra das guerras, as mesmices, as surpresas, o caos e o renascer das cinzas, nos rouba a vida e nos deixa como única saída somente morrer daqui…

Sim, esse mesmo tempo que um dia nos deu de viver no primeiro respiro, nos deu tempo ao tempo para o aprender do mundo, nos embalou no colo quente da mãe quase sem tempo para o amamentar do filho, nos presenteou com tantas tardes tranquilas sem relógios ao sabor do vento, nos serviu café quentinho e bolinho de chuva em tardes ensolaradas, nos concedeu a graça de chuvas bem feitas para o banho na terra seca e o germinar das sementes, nos alimentou da seiva, da folha e do fruto das matas abençoadas, nos fez sentar na calçada pra tantas conversas fiadas tão bem destrinchadas e desfiadas…

Esse mesmo tempo que nos sufoca e desatina, nos concede tantas graças e desgraças, nos revira ao avesso e depois, sem mais nem menos, nos devolve a esperança e a gente espera e um dia, quem sabe, alcança… Não tem jeito mesmo. Está feito. Entra ano, sai ano, não há como fazer parar essa roda assim gigante… Então vamos seguindo o giro, a roda, o círculo, a prosa, a valsa, o caminho sem volta. Vamos vivendo. Porque não há outro modo de passar por tudo isso sem seguir em frente — malabaristas de nós mesmos nessa linha esticada feito um breve horizonte – sem sabermos de fato (e isso é fato) se depois dele — desse tão breve horizonte — continuaremos no ato de existir, ainda que em algum infinito a contento.

Não sei mesmo dizer a que fim se destina esse viver.
Só uma coisa é certa: nada é certo!

Então, teimosa, ainda pergunto: de que serão feitas as certezas nos sonhos de outros mundos? Bem sei que outrora esse gosto que me chega à boca era bem outro: um gosto doce de viver a vida tão esticada e comprida, a se perder de tão longínqua no interminável fio de tecer fantasias na alma tão vasta de meu corpo miúdo…

Eram tempos de outrora, marcados a ferro e brasa em roupas tão engomadas…
Hoje sou outra. Tantas outras. Talvez nenhuma. Lembro de um varal estendido no quintal por trás de casa. Muitas coisas penduradas. Uma toalha de mesa florida, desejos amortecidos, roupas velhas servindo de pouso para sabiás tão atrevidos, alguns sonhos em suspenso tomando um sol e uns ventos, várias vidas sendo vertidas no tear das nossas horas vagas… tudo a seu tempo, com início, meio, fim, em todos os (des)temperos!

Entra ano, sai ano, vou preparando as sementes de romã, já nasceu o cacho das uvas, a roupa branca espera sua hora pendurada no cabide, minha alma já esqueceu porque tenho de fazer pedidos para o ano que ainda nem veio e nem sabe o meu nome…

Mas eu insisto. Vou querer o meu pedido anotado na agenda do futuro, sublinhado em caneta marca-texto, com endereço e remetente, para que não haja nenhum erro de postagem — e quando chegar a hora da entrega do meu ano novo, estarei com a minha porta escancarada, aguardando sentada à beira da calçada, porque sou dessas de Saturno, que sabe o tempo certo de dizer o mesmo verso outra vez: feliz ano velho.

O futuro já acabou.