Entrevista | Obdulio Nuñes Ortega

Obdulio Nuñes Ortega — o homem — nasceu como todos nascem, do ventre de uma mulher, após nove meses. O escritor, no entanto, foi gerado pela Realidade… pelo mundo-vida… e alimentado diariamente com as muitas cenas de momento. Cresceu… entre corpos-esferas — transpassando-os. Naturalmente observador-contestador… se deixou enraizar no corpo do homem, de onde emerge para reconhece a si nos outros ou seria os outros em si?

Obdulio, Rua Dois

Scenarium — O título de seu livro é ‘Rua 2’. Como é a sua relação com a rua?
Obdulio — Quando cheguei à ‘Rua 2’, a região era quase deserta. Durante muito tempo, não havia asfalto. Nem água encanada. Puxávamos água de poço. O esgoto era de fossa séptica. O fornecimento de luz elétrica era intermitente. Tapumes de madeira nos serviam como portas e janelas. O chão era de “vermelhão”, as paredes, de cimento cru. Eu jogava bola na rua com os vizinhos, apenas tomando cuidado com a passagem das charretes e dos pouquíssimos carros. Nessa época, tinha uma relação mais íntima com a rua e era mais conectado às pessoas. Ao longo dos anos, com a melhoria das condições estruturais e padrão de vida, as relações sociais se tornaram menos íntimas. Hoje, a rua serve apenas como caminho para chegar e sair. Contato com os vizinhos, apenas esporádicos e rasos, com alguns poucos mais próximos.

Scenarium — Como se deu o processo de escrita dos contos de seu livro?
Obdulio — Foi errático. No início, até que fluiu com certa facilidade. A ideia central que o permeava era diferente da que acabou por prevalecer. Eu o havia intitulado “Viver E Morrer Em Movimento”. Após haver a percepção que a origem dos personagens era a mesma – a periferia – surgiu a forma que se estabeleceu: personagens que vivem na mesma rua, a 2. Algumas histórias se imbricam, para além da localização em que moram. Por quase um mês, fiquei sem escrever uma linha. Um conto que acabou por não fazer parte do arranjo final, destrancou a porta pela qual continuei a caminhar.

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Scenarium — Como é a sua relação com as personagens de seu livro?
Obdulio — Gosto francamente de alguns personagens. Principalmente daqueles que chegaram sem pedir licença, como a da Casa 4. O da Casa 1, é um moço que conheço particularmente. Pelo “Morador da Rua 2”, tenho muito carinho e o da Casa 18, talvez tenha características parecidas com as minhas – quando criança, desejei ser motorista de ônibus. Estranho, já que nem dirigir automóvel, dirijo…

Scenarium — Antes de Rua 2, você publicou um livro de crônicas ‘REALidade’. Como foi migrar da crônica para o conto?
Obdulio — Sempre pratiquei escrever contos. Mas não tão curtos como os da Rua 2. Aliás, peco pela prolixidade. Estou aprendendo a me conter. Gosto de detalhar, talvez até demais. Tive a orientação de Lunna Guedes e sofri a influência de Adriana Aneli, de Café Expresso.

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Scenarium — Você gosta de escrever?
Obdulio — Se gosto de respirar?…

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Obdulio — Amor e desamor. Quando mais novo, comecei a ficar muito envolvido com a literatura. Lia e escrevia compulsoriamente. Erroneamente, acreditei que a isso me afastava das pessoas. Costumo dizer que vivia mais literariamente do que literalmente. Eu me afastei radicalmente. Exageros de minha personalidade. Acho que agora mantenho uma relação mais equilibrada com ela.

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Scenarium — Quem são os seus pares?
Obdulio — No Romance, Machado de Assis. Na Poesia, Drummond de Andrade. Na Crônica, Lourenço Diaféria e Érico Veríssimo.

Scenarium — Nos conte como foi descoberto na literatura?
Obdulio — Mais uma vez, Lunna Guedes, por intermediação de Edward Hopper. Eu estava, junto a um grupo de amigos, em visita ao estúdio de Maria Cininha, que já ilustrou para a Scenarium Plural – Livros Artesanais. Lá, encontrei um livro com obras do pintor Edward Hopper. Eu me apaixonara por seu trabalho desde que o conhecera pela Internet. Depois de explorá-lo por duas ou três vezes, abri a porta para uma nova visitante, Lunna. Continuei a folhear o livro enquanto era observado por sua insuspeita proprietária, que havia emprestado a obra para Maria Cininha. Após Hopper nos apresentar, desenvolvemos a relação literária, através das redes sociais, onde publicava os meus textos. Lunna me apresentou o projeto artesanal da Scenarium, bastante encantador por sua proposta na busca da expressão literária independente de esquemas mirabolantes e improdutivos e da relação direta do escritor com o leitor. Um fator enriquecedor.

Obdulio e Marcelo Moro

Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Obdulio — No meu caso, sim. Busquei, desde a época do Orkut e do início dos blogues, divulgar os meus textos. Depois, no Facebook. Porém, como alguém já disse, sendo “terra de ninguém”, talvez não seja a melhor plataforma de expressão. No entanto, apenas recentemente consegui desenvolver a minha página na WordPress, que tem sido a minha principal atividade, além das publicações da Scenarium.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Obdulio — Com a minha atenção voltada para a produção de Rua 2, fiquei afastado de leituras mais atentas, a não ser nos blogues. Publicado o meu livro de contos, inicialmente colocarei as publicações de meus colegas de selo em dia. São autores aos quais admiro e gosto de acompanhar.

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Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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Rua 2 | Obdulio Nuñes Ortega

R$ 40

 

 


Pelos contos da Rua 2 passeiam personagens que se conhecem-desconhecem em sentidos contrários e direções marcadas. Vida e morte se confrontam nessa via de mão dupla. Pertencem ao mesmo caminho. Têm a mesma intensidade e propósito — provarem-se a si como senhores do Mundo/Periferia — ilusão real de todos nós, ao rés do asfalto.

 

 

Palavra do Editor | Rua 2

Por Lunna Guedes


 

…quando eu nasci, a minha família vivia em uma casa antiga, de pedras… que tinha pertencido à outra família, sem uma história conhecida por mim. Não sei quem eram, tampouco o que faziam. Partiram sem deixar marcas-rastros. Apenas uma placa deixaram:”vende-se essa propriedade”.

Cresci ali, na segunda rua de uma simpática Vila… que tinha uma bela vista. Nossa casa era a de número 141, quase esquina… quase fora da rua. Eu sabia cada morador-vizinho das outras casas… os dois irmãos na casa da frente, a signora falante que ia sempre à frente do marido, a tecer seu rosário de reclamações, o sargento e seus dois cães pastores, a professora e sua filha com o rosto queimado. E a melhor de todas: a casa da portuguesa, com seus cães-gatos-pássaros… e as lendas cantadas pelos moradores-vizinhos — que a anunciavam como sendo uma stregga.

Para mim… a melhor das amigas. A dama que me ensinou um idioma-novo, ao qual escrevo essas linhas.

Havia muitas outras casas com moradores peculiares, que povoaram a minha infância. Se você teve o prazer de viver em um bairro antigo-novo… feito de casas, certamente irá pousar em uma Rua 2 — ainda que tenha outro nome, como a rua onde nasci-cresci —, e se deliciar com lembranças saborosas de seus moradores.

E nesse jogo de casas pares e ímpares — proposto pelo autor — sobra vento, falta ar… e recordo-me dos precipícios de cesariny. Penso em ser nuvem, perder a forma e dissolver-me por cima dos telhados. Ser raiz nesse bairro e misturar-me a cada um desses personagens.

Chegar com um punhado de caixas, passar pela porta e dar pelos cômodos de uma casa-vazia. Ter dificuldade com o endereço, o número nos primeiros dias. E consciência de que sou estranha nesse cenário de casas altas e baixas, de formas conhecidas… como se tivessem sido pré-moldadas no lugar de onde vim.

Dou voltas e voltas na rua de cima, de baixo… e volto a esse traço — nada — reto… esbarro em personagens-personas, a bordo de suas vivências que posso espiar-aprender ao virar das páginas e concluir que é impossível sabê-las reais… ou inventadas.

São peças de um quebra cabeças… e todas se encaixam porque estão todas enlaçadas pelo autor, seu morador com vivências que se entrelaçam em encaixes impossíveis.

 


 

R U A    2
OBDULIO NUÑES ORTEGA

Obdulio Nuñes Ortega

Autor

 

nasceu a fórceps no começo de outubro de 1961, no centro de São Paulo. Ainda criança, começou a se mover para a Periferia, primeiro à Leste, depois ao Norte. Desde cedo, quis ser escritor.
Renasceu aos 17 anos, vegetariano e a crer. Aos 27, renasceu casado e pai. Escolheu trabalhar como peão e dono de seu próprio negócio. Budista, demorou a lucrar. Franciscano, aceitou com resignação ganhar o pão com o suor de seu rosto.
O escritor adormeceu e, sem ter como se expressar, aquele Obdulio morreu no final de outubro de 2007, diabético, por excesso de amargor. O atual renasceu a carregar a memória do antigo homem que escrevia, a enxergar o mundo com novos olhos… ainda que a herdar a miopia do outro. E chega até este quadrante a sentir redivivo… a cometer os erros dos novos, a renovar os seus ímpetos, a amar como um adolescente, a ser escritor, como sempre quis.

 


Obdulio Nunes Ortega é autor de ‘REALidade’
Para mais informações, clique aqui…

Junho | Criminoso…

Por Obdulio Nuñes Ortega

 

Houve um tempo que evitava declarar ser escritor. Não porque considerasse algo indigno ou vergonhoso, como se confessasse ser um ladrão. Apesar de sê-lo, também. Mas porque, sendo sonho de menino, não acreditava que o fosse, mesmo depois de certa idade e escrevendo muito. Intitular-me um artesão da palavra, se configurava um projeto para o futuro. Cometia o erro de acreditar que faltasse publicar um livro – objeto icônico – que carrega, por si só, o condão de incensar quem o assina, como “escritor”.

A publicação de meu primeiro projeto não me tornou escritor. Assumir a premência de ser um, sim. Consequência de uma necessidade basal – colocar para fora tudo o que me consumia, para não me envenenar com frases mal digeridas e morrer. Ainda que faça parte do contexto, morrer, matar, odiar, amar, construir, destruir, ser franco, saber mentir – viver-escrever.

Porém, para que produza meus textos, estabeleci uma rotina clandestina – roubo meu próprio tempo. Ajo como ladrão, muitas vezes, arrependido. Arrependimento que se dissolve assim que fico satisfeito com o resultado do furto. Já tentei me redimir. Mas quando percebo que minhas expressões vêm a calar fundo em quem as lê, meu receptador-receptor – um leitor, ao menos – produz-se um sentimento de compensação que me faz reincidir-honrar a persona que finalmente assumi.

Eu não apenas roubo tempo. Também rapto pessoas e seus afazeres, surrupio histórias que ouço ou presencio, acompanho passos de tantos, como se fosse um perseguidor. Esquartejo vivências de vários, para criar “Frankensteins” infames. Fuço vidas alheias para chegar a conclusões irreais. Assumo a identidade de outros, cometo falso testemunho. Por vontade confessa, sou um criminoso contumaz.

A tentar equilibrar os afazeres cotidianos, família e amigos, troco o relaxamento do descanso pelo artesanato da escrita. É um ofício vital, com mais erros do que acertos. Contudo, me garante acessar lugares recônditos de mim mesmo. Eu me surpreendo quase sempre em auto revelar quem sou-estou, ainda que tente esconder essa identidade por trás de artifícios verbais – conto do vigário. Entre ações delituosas que me fazem perder e tentativas arredias de me encontrar posso, finalmente, asseverar: sou escritor.

Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

|  versão digital clique aqui | 

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

Previsões para vinte dezoito

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Este ano será curto e intenso. Começará depois do Carnaval (de direito), passará pela Copa do Mundo e findará com eleições para cargos executivos estaduais e Presidência da República. Não vou fugir da raia ou sair pela tangente. Tentar construir imagens densas, em busca de novos significados para defini-lo e aludir como indecifrável o movimento das águas do tempo o Ano de Cristo de 2018. Ousarei fazer previsões. Será interessante acompanhar durante o seu transcorrer quais serão aquelas que acertarei. De quase tudo que acontecerá, alguma coisa não tenho balizamento, guardada a sete chaves pelos Magos do Absurdo – turma do Trump e Kim Jong-un – antípodas equivalentes.

De fato, o ano começou com discussões acaloradas sobre as relações de poder entre homens e mulheres, eivadas por comportamentos predatórios por parte dos primeiros. Nada de novo no front, a não ser a coragem de dar um basta a um estado de coisas que supúnhamos restrito a países como o Brasil, mas que se mostrou característica humana em todas as latitudes. A minha previsão é de que esse assunto, inesgotável em suas implicações, formas e considerações, envolverá figuras até aqui tidas como impolutas. Muitas acusações serão baseadas apenas confronto da palavra contra a palavra, o que suscitará em possível enfraquecimento da causa, se não houver cuidado em verificar a veracidade.

A reforma da Previdência será aprovada. Não será tão ampla que resolva o problema da insolvência do sistema previdenciário e nem tão profunda que retire todos os direitos adquiridos. O certo é que o gasto com as contrapartidas cedidas aos nossos digníssimos representantes para aprová-la alargará o rombo do déficit fiscal.

Temer não será impedido, ao contrário de Trump. Creio que até o final do ano, o presidente do Grande Irmão do Norte será pego no contrapé por suas estripulias. A diferença é que lá as instituições funcionam. Em comum, as duas economias estarão em alta, nem um pouco suficiente para voltarmos, por aqui, aos bons patamares de antes, mas o bastante para iludir o povão. O que poderá, inclusive, influenciar as eleições de Outubro. Esqueçam Lula, Bolsonaro, Marina Silva, Collor, Huck ou Ciro. Vai dar Xuxu. De qualquer forma, nenhum deles mudaria muita coisa. O nosso sistema administrativo favorece o uso da corrupção como método de governança, auxiliado pelo caráter médio do brasileiro. O chefe obedecerá a correnteza.

A Argentina será campeã mundial de Futebol. Não mataram a cobra nas Eliminatórias, agora, aguentem… O Brasil será Vice, no máximo. França e Alemanha completarão os finalistas.

O Rio continuará lindo, mas cada vez mais estraçalhado por balas certeiras e perdidas. A Globo continuará a comandar o cenário profissional das “Artes” televisivas. Questão de apuro técnico aplicado a platitudes. Anitta será alçada à status de ícone internacional – medida exata do atual estágio de nossa cultura popular.

Em contraponto, o número de pessoas que procuram estilos de vida alternativos será cada vez mais importante. O número de vegetarianos e/ou veganos crescerá. O cuidado com o bem-estar de outros seres ganhará cada vez mais espaço. Como resposta à arte apelativa, aumentará a quantidade de veículos, meios e maneiras diferentes para a expressão artística de qualidade mais apurada, continuação de uma revolução silenciosa e perene para mudança de hábitos, corações e mentes. Porém, jovens perdidos do sonho de viver continuarão a explodir, a atropelar, a atirar, a se matar em nome de causas que sobrevivem apenas para servir ao poder de líderes de manadas sem rumo. Aumentará a cisão planetária entre grupos.

O trânsito continuará a fazer mais vítimas do que a Guerra da Síria. Aliás, continuaremos a matar e morrer como se estivéssemos em uma Guerra Civil. O Feminicídio – estertor do declínio total do domínio do macho Neandertal brasileiro – ainda demorará a ser contido. O Crime Organizado, cada vez mais organizado diante da inépcia e/ou auxílio de agentes governamentais, carregará atestado de qualidade internacional. Produto tipo exportação para a América Latina e, talvez, para o resto do Mundo. Orgulho nacional.

A China, devido à estreita visão política de Trump, avançará mais velozmente à condição de maior Economia do Mundo, assim como a de líder político internacional. Por sua influência, nunca haverá uma nova Guerra da Coréia. As bravatas vindas do Norte chegaram ao limite do aceitável dentro do jogo de guerra simulada no ano passado.

Tirante a ousadia de algumas assertivas, não fiz exatamente previsões, mas exposição de fatos que já estão em curso desde há muito tempo. Porque, afinal, é praticamente impossível mover-se para fora da linha que nos amarra aos Presentes sucessivos, também chamada de Passado. O que muda a percepção pessoal do todo são intervenções da Esperança, da Ideologia, do Desejo e gosto pelo auto-engano, confundido com sonho.

And the Oscar goes to… “Blade Runner 2049”!

Vida normal

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Dia de folga de um dezembro corrido. Passaram muito rápido todos os meses de 2017. Vou ao Correio, passo no supermercado, me desloco para uma visita técnica, levo um aparelho para o conserto.

Escritor em busca de temas que sou… por onde passo encontro personagens. O clima de final de ano de pinheiros e decorações típicas de tempo frio, se faz presente a cada quadra que caminho. É o assunto principal das pessoas nos ônibus e trens de Metrô.

No Correio, tenho que devolver um produto que veio com defeito. Pelos corredores e gôndolas do supermercado, cenas cotidianas igualmente explicam nossa triste realidade. Uma menina sentada no carrinho de compras, recebe de seu irmão um saco de salgadinhos. O menino, com idade suficiente para saber que fazia algo indevido abre com o cuidado necessário para não ser percebido. Um ato de amor… escuso. A mãe, ao lado, finge que não vê.

A caminho da reunião, uma mulher conversa ao celular. Explica ao interlocutor que não poderá encontrá-lo naquele dia porque “o seu amigo está desconfiadíssimo!”. Quem caça, às vezes, veste roupas claras, quase diáfanas.

Depois da visita técnica, me desloco à região da Santa Efigênia. Visito algumas lojas, enquanto espero o reparo do aparelho. Em uma delas, acredito reconhecer o senhor por detrás do balcão… um cantor de uma banda de sucesso anos antes — o próprio… levantou a cabeça, a olhar para um ponto indefinível, talvez o passado e exibiu um sorriso enigmático. Soube que ganhou muito dinheiro, bateu muita cabeça, perdeu prestígio, deixou de ter visibilidade e voltou a trabalhar na loja do Seu Gaspar — onde teve o primeiro emprego. Ele ainda canta nos finais de semana, em um barzinho — voz e violão, público cativo, que sabe as letras de suas antigas canções. Percebo, no entanto, que não tem mais a ilusão do sucesso. O cumprimento e saio cantarolando uma de suas músicas.

A pé, vou encontrar minhas filhas e mulher, no bairro de Santa Cecília. Caminho pelas ruas do Centrão, pelo qual tenho paixão de viajante. A arquitetura variada, em épocas e formas, é como se fosse um palimpsesto em alto relevo. Presencio o entrechoque de identidades diversas. A mudança de paisagem humana é drástica, de um lugar para outro. Parece que há sempre um novo ângulo a ser explorado, personagens a serem encontradas, histórias a serem contadas.

Ao chegar ao apartamento de minha filha, levo para passear o cachorro de sua amiga que vez ou outra fica hospedado por lá. Toddy é carinhoso e alegre.  Por algum motivo, lembro de Desinquieto, nome dado por um morador de rua do Centrão ao companheiro de jornada. Ele o carregava no carrinho e a pessoa de quatro patas agia como se fosse um marajá em sua liteira. A diferença entre os dois era total…  tanto em conformação física quanto condição social. Porém, o olhar dos dois era a de seres que se sabiam amados, sendo amáveis. Toddy faz amizade por onde passa. Exceto por uma enciumada cadelinha de andar arrogante que quis lhe atacar.

Compro bolo de cenoura, tomo o chá da tarde com a família e percebo que tenho cumprido o mandamento pessoal de viver um dia de cada vez. Vivo o primeiro terço de um dezembro de um feliz ano velho, que foi intenso, pleno de acontecimentos, grandes e pequenos, que trouxeram a mim a certeza que a vida segue seus dramas, seus prazeres e dores, desafetos e amores independentemente das efemérides que promulguemos.

Em meu passeio com o Toddy, ouvi o trecho da conversa entre duas mulheres. Uma delas diz que odiava àquela época do ano e que não via a hora de janeiro chegar. Eu agradeço se puder viver apenas o próximo dia.

Coletivo 2017

 

R$ 50

 

 


Um projeto idealizado por Lunna Guedes…  ilustrado por Adriana Aneli e riscado por autores convidados a caminhar a cidade através das palavras e propor ao leitor uma viagem através da poesia… o livro é todo movimento, das cores-aromas-e-sensações. Ouse experimentar…

 

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto