Notas do Autor | Morte em vida…

Por Obdulio Nuñes Ortega

 


o branco que me atormenta


 

Há uma paz que mata – o branco da não-criação. Branco que parece abarcar sentidos-sentimentos-emoções-olhares, invadir o coração, paralisar o passo para dentro de si.

Aconteceu comigo recentemente. O meu pai faleceu e, por quase um mês, não consegui escrever palavra. Reeditei escritos para o blogue. O mais estranho é que não queria aceitar o luto. Tinha uma relação tempestuosa com o Senhor Ortega. Não chorei. Não escrevi.

Acostumado a vir jorrar os temas a cada passeio que fazia pela terra dos homens, só fui perceber a minha abstinência de palavras quando precisei entregar um texto. Pedi ajuda a um escritor que estou tentando deixar de ser – aquele que erra por omissão, quando escreve. Que se perde em fórmulas repetidas. Que reitera desalinhos. Como um náufrago na imensidão do mar branco, eu o busquei como boia de salvação.

Inconformado com o branco que lavava minhas impurezas, talvez estivesse até mais ressentido com meu pai por esse efeito de desertificação criativa. Eu odiava me sentir tão pequeno e rancoroso. Debitava isso em sua conta. Evidentemente, o desvio de comportamento se ajuíza ser o meu. Isso acontece, quando tentamos não mentir mais para nós mesmos.

Voltei a escrever quando surgiu um personagem-tema em um dos eventos que fazia. Fiquei feliz ver nascer uma história triste para ele. Mal sabe aquele senhor o quanto o seu comportamento fora de prumo ajudou a um estranho. Baile Eterno. A do escritor em busca da contradança perfeita.

Quanto ao meu malvado favorito, agora que passou, nunca esteve tão presente em minhas horas. Sei que, um dia, na eternidade, passaremos nossas diferenças à limpo. Ou antes, acabarei por ficar igual a ele, homenageando a sua maldição. Seria como se o (me) perdoasse…

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Notas do autor | secretar…

Por Obdulio Nuñes Ortega


ser escritor: o confronto das emoções


 

O escritor segreda paixões, secreta humores, excreta desejos, expõe amores. É capaz de vender a alma para conseguir expelir o parágrafo ideal. O escritor mente e se desmente. É contraditório e reformista. É ré escritor… réu de sua própria consciência. Não pedirá clemência, se isso eliminar a frase perfeita. Conservador. Conservará a dor e a explorará. Visceral. Esviscerar a si, é seu projeto de ser. Quer mostrar as suas contradições em textos e teatralizar o incorreto com a certeza da verdade… a sua verdade. Senhor e servo de sua obra. Faz nascer mundos novos – dois sóis para cada amanhecer contra a noite sem lua e estrelas. Passeia pela escuridão com olhos de gato… para espiar os amantes em becos sem saídas. Entra por portas e janelas. Vampiriza seus personagens. Sorve seus sangues no café da manhã. Ri sem remorso ao som de ossos triturados feito batatas-chips amassadas aos pés de incautos na sala de jantar. Faz sexo sem culpa com mulheres e homens de suas páginas. Gera filhos que abandonará à própria sorte que ele-deus dará. Brande a espada da justiça, enquanto mata suas crias. Remorso por não ter matado melhor. Paralisa o tempo e faz o planeta girar. Sem rumo. Sem chegada. Sem graça que o absolva. Sofrimento sem ponto final. Sem satisfação. Apenas reticências até a próxima tentativa de se fazer eterno enquanto durar a leitura de sua sã loucura…

NOTAS DO AUTOR | Respiração

Por Obdulio Nunes Ortega


o que me inspira


 

Eu sou o centro do Universo, ainda que sinta a presença de uma força fantasma a me assombrar. Comungo a crença, totalmente sem provas, que passeio por vidas e mortes sucessivas. Águas passadas que movem moinhos, para desaguarem em um presente de futuro aberto-certo de incertezas. Já coloquei Deus no corpo de um marimbondo. Eu, mesmo, como um mouro ciumento. Lembranças ou imaginação…

Contemplo o planeta como palco de meus personagens. Seus habitantes, de todas as espécies e formas, participam de meu mundo pela escrita. São especialmente para os animais da minha espécie para os quais dirijo o meu olhar e a minha fala. É entre as pessoas que carrego o meu sorriso desconfiado. Eu me reconheço cada vez mais inconfidente da história do Homo sapiens como ser superior às outras espécies. Os humanos vivem a tentar extinguir outros humanos baseado em detalhes como diferenças de cor, religião ou time de futebol…

Na busca da emancipação de minha consciência, me apoio sobre os escombros de uma sociedade doente. Adoeço, igualmente, para entendê-la. Testifico-pronuncio-expurgo. Eu me inspiro em mim. Transito, com todo o conhecimento de causa, na zona cinzenta, ao me perceber um homem. Das minhas contradições como cidadão da polis, retiro subsídios para me expressar. Me utilizo de portas e janelas. Adentro por elas por passos e olhares. Vivo disso. Por isso, quase morro. Não que estimule minha precariedade. Apenas a constato. Tento decifrá-la em palavras. Provavelmente, falhe…

CARTAS PARA ABRIL | SRª. SOPHIA, ACEITA UM CAFÉ E POESIA?

Por Obdulio Nuñes Ortega


 
Permita-me apresentar quem sou: ninguém.
Sei que se interessará por mim,
por ser justamente assim —
tão pequeno, que não mereça ser anunciado,
tão apartado, que valha ser resgatado.
Não tenho nenhuma canção nova a lhe ensinar.
Porém, você tem muitas a me mostrar.
Agora que a conheço, não percebo o mofo do tempo
e a aprecio com prazer.
Algumas de suas poesias, ainda que sejam antigas, são inéditas-frescas
para este ignaro que lhe convida para um café ao final de uma tarde destas,
além-mar.
Sou filho da terra que um dia seu Portugal adentrou —
campos, altiplanos, rios e almas — o Atlântico como ponte líquida.
O vento bailador das primaveras levou-trouxe barcos carregados de distâncias, ausências
e esperas marinheiras.
Chegaram como deuses, donos de céus e mar.
Trouxeram a Língua que nos uniu
e nos afastou.
Não a nós, escritores que buscamos compreender
o que somos e como somos
através de seu uso.
Mas nós, os povos que nos tornamos.
Mesmo a sua sensibilidade talvez não alcance
o abismo em que nos metemos — tão inverossímil quanto real.
Matamos uns aos outros mais facilmente do que galinhas.
Renunciamos a nós.
Comemos calmamente o pequeno almoço,
enquanto limpamos o sangue de inocentes da roupa com a qual iremos trabalhar,
sem digno salário.
Somos todos vencidos, sem paz.
A Poesia, dada como morta, ainda perambula por aí.
Soube que morre apenas para ressuscitar.
Algo que comungamos é o estranhamento que sentimos
ao não nos reconhecermos,
esse desgostar pelo lugar onde nascemos.
Somos desinteligentes, igualmente.
Ou melhor, quase não somos nada.
Conquanto a natureza siga seu curso, a originar mais vida.
Em nossos espaços, nos percebemos entretantos,
entre amoras e amores.
Chegaremos ao fim, juntos, com a nossa Língua,
ferida de morte todos os dias, naufragada em consumação de grunhidos?
Ou Pessoa talvez nos salve, deus de muitos nomes?
Nesta tarde que me tornei, como sou cada tarde —
tardio-transparente —
recebo seus versos como mensagens de futuro,
de corpo presente.
Confundo, como previu, meu ser com o poema no tempo.
E me uno a tantos que a leu, lê e lerá,
a descobri-la em palavras reveladas,
a vir como ondas floridas: quebrando na praia de um dia puro.
De agora em diante, a possuirei
como Poeta que em mim germinou a sua fala.
Redivivo como um novo animal,
a caminhar junto ao mar, nosso amor comum,
esperando que atenda ao meu convite, Srª. Sophia,
suspenso na surpresa dos instantes: aceita um café e poesia?

21 | o lugar em que escrevo

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Vivo o dilema do músico, quando lhe perguntam: “É músico? E trabalha com o que?”. Sou escritor. E para ganhar o meus sustento, dou suporte técnico para que os artistas da música se expressem, através da locação e operação de equipamentos de som e luz. Como demonstra a imagem, depois de estabelecidos os parâmetros necessários, escrevo (muitas vezes no palco). Enquanto canções ecoam pelas caixas acústicas, divido a minha atenção em cotas entre a função técnica e a viagem da escrita.

CARTAS PARA ABRIL |Sr Borges, receba esta xícara…

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sinta o aroma do café metafórico que lhe sirvo. Seus sentidos ampliados, o alcança? Percebe a minha mão trêmula que mal segura o pires? Essa perda do controle muscular não o receba como fraqueza, mas como homenagem. Não sou dado a essas revoluções físico-emocionais. Porém, o fato de não me ater pelos olhos dá-me a sensação que abarca toda a minha incongruência. Sei que não me julga. Chegou longe na profundidade humana enquanto perdia a visão. É quase como se fosse Deus, outro cego. Esse cauda bifurcada que projeta pelos ares, a cada palavra encontrada para exprimir a exata sentença a descrever nossa inexata vida, antes que surja ameaçadora, acompanha o bailar dos meus sentidos que, às vezes, o vê como um jovem e outras, um senhor de cabeça branca.

Por mais labiríntico que tenha sido o meu percurso para encontrá-lo — em uma lata de lixo — se deu bem depois que vivi na sua Argentina. Foi por pouco tempo, mas o suficiente para apreender o significado de viver tão ao sul, quase no fim do mundo. Ainda assim, é lá que fica o centro do Universo. Enquanto me banhava no Rio Paraná, entre reticências, vírgulas e carcaças de bois abatidos no matadouro acima, percebia a água mais leve que o do meu amado mar. Fui feliz, apesar do exílio forçado de criança de pai errante e mãe abandonada, que lá começou a fumar cigarros sem filtro que finalmente a mataram. Quando finalmente o li, me senti um personagem borgeano — um ser híbrido e aturdido, que ao voltar para o imenso país ao norte que saúda o individualismo, jogava o futebol solidário do “toco y me voy” e se expressava em portunhol.

Sua leitura foi tão influente, que comecei a respirar um mundo novo, diferente do que os outros percebiam. Fui, mais e mais, me apartando dos humanos, a ponto de chamá-los apenas por esse nome. As letras, as palavras, os livros, a vida literária me tornou um pária. Conversava com anjos, plantas, grilos e estrelas. Tarzan, Cloé, Princesa, Gita, companheiros de quatro patas — cães, gatos e a Porquinha Priscila — eram interlocutores constantes. Patas, galinhas e seus filhotes trançavam entre minhas pernas sem perceberem um inimigo. No entanto, eu era… — Confirmou, o último vagalume vivo. De tanto querer vê-los, se extinguiram.

Essa fase durou mil e uma noites. Coincidiu com a aquisição da primeira TV à cores. Tudo se tornou inospitamente colorido, a violentar minha visão cada vez mais míope. Uma válvula defeituosa da antiga TV tornava as imagens mais escuras e os amados pretos, brancos e cinzas se perderam na bruma do tempo. Talvez mais nenhuma outra história valeria a pena ser apreciada. Jogava bola sem óculos, quase por percepção extra-sensorial. Era bom. Eu me imaginei um Borges a escrever lances estranhos e a fazer gols parabólicos em redes rotas pelos campos da Periferia. Até saber que considerava o futebol uma estupidez. Discordamos em alguma coisa no mundo real, aceitamos compartilhar nossa cegueira…

 

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga
e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

Cartas para abril | BAUDELAIRE, QUE TAL UM CAFÉ?

Por Obdulio Nuñes Ortega


Meu caro Poeta, escolha um boulevard, uma cafétéria de Paris, de onde não conseguiu escapar, apesar de ter vagado errante entre mares e países. Sei que prefere outras drogas, mas eu vivo de me embebedar de café. É o máximo que consigo utilizar como aditivo para a minha imaginação. Tenho medo de perder a afluência de pensamentos que me atormentam e me embriagam. Espero encontrá-lo consciente e estável, dentro do possível. Sei que está a passar por problemas de saúde. A precariedade física o matará, bem o sabe. No entanto, nunca será esquecido. Vive a dúvida de que o que escreveu seja importante? Pois saiba que é… Eu ouvi falar de você desde garoto, ainda antes de conhecê-lo Poeta grande que se tornou depois que passou. Pareço confuso ao misturar tempos verbais? Quando vivemos passado e futuro no presente, isso acontece. Porém, os sentidos, por mais que configurem o modo pelo qual apreendemos o mundo objetivamente, também nos prega peças, mais do que concretas. Objetivamente, vivemos e morremos pela boca. Nos enganamos pelos olhos. Simbolicamente, vivemos para além dos sentidos. Não contestaríamos a vida como se expressa, se não ultrapassássemos a ponte invisível que separa corpo e mente – ainda que ela também nos engane. Precisamos da mentira para (sobre)vivermos. Não suportaríamos nos percebermos menos do que imaginamos ser – meras vítimas dos sentidos – e não partícipes dos planos de um ser divino para aprendermos a conviver uns com os outros. Criamos ilusões, alimentadas a ferro e fogo, a servir de bom grado aos propósitos dos construtores dos grandes impérios em torno do pecado original. Você conseguiu se afastar da contradição dos que estão no mundo, mas vivem a buscar outro. Experimentou, neste, todas as possibilidades. Mas tudo termina. Sei que enfrenta uma afasia como anúncio do fim da existência. Ah, sim, já li o que sente em relação à morte. Se alguma coisa deixou, além de belos versos, foi a coragem de parecer menos do que era. De levar fama de supérfluo, de ir às últimas consequências para viver seus desejos. Morreria por isso… morrerá… morreu. Tome um café resplandecente comigo, Poeta. Termine sua vida de maneira inusitada – seja um cidadão contido – sentado em uma cafétéria de um boulevard de Paris…

Crônica | A Mulher que me inspira

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Eu conheço desde que nasceu. A peguei no colo e como requeria cuidados especiais, deixei o meu trabalho por um ano e meio para cuidá-la mais de perto. Troquei suas fraldas, milhares de vezes, em uma época que fraldas descartáveis eram caríssimas. Na casa em que vivíamos, cheguei a contar duzentos panos dependurados em varais improvisados.

Nas consultas médicas, ficávamos horas à espera para sermos atendidos. Ela, a dormir no meu colo. Eu, a pescar tubarões agarrado ao seu corpinho. Rotina periódica por vários anos, incluindo as diversas internações por crises hemolíticas. Nessas ocasiões, eu e minhas companhias de antessala da ala de Pediatria, trocávamos histórias e apoio mútuo. Aprendi a relativizar o nosso sofrimento ao conhecer outras guerreiras e guerreiros. Alguns feneceram, outros venceram etapas e vivem mais intensamente do que quaisquer um de nós, os “normais”. Suas existências ganham contornos épicos. Tudo é muito intenso e rápido – por um fio.

A tudo… aguentava com um sorriso no rosto, assim que se recuperava de mais um episódio de enfermidade. Devido à baixa resistência, desenvolveu dezenas de pneumonias. Extraiu baço, vesícula, hérnias. Ultrapassou inflamação junto à carótida, infiltração de soro no pulmão e comas. Alérgica a várias medicações, os antibióticos que lhe serviam causavam enjoos portentosos. Perdia peso. Quando vinham as crises de dor mais intensas, meu desejo era abraçar todo seu sofrimento para mim. A minha impotência em minimizá-lo gerava o desejo de que tudo cessasse… para sempre…

Mas, ao voltar a vê-la bem, espalhando amor por onde passasse, percebia que a vida poderia vencer mais uma vez. E prosseguíamos, alentados pelo sorriso inspirador que distribuía graciosamente por aí. Sua resiliência, sua vontade de viver, arrebatava quem com a Leonina estivesse.

Ao chegar aos 14 anos, acrescentou-se as tribulações de adolescer. Momentos de dúvidas, de desejos não atendidos, impedimentos para fazer o que todo adolescente gosta de fazer. Psicologia, psiquiatria, grupos de ajuda. Às vezes, viver já é tão doloroso, mas nada chega aos pés de sentir dor apenas por respirar. Analgesia, hidratação constante, veias esclerosadas.

Em quase 29 anos de vida, sofreu, talvez, mais de quinhentas transfusões sanguíneas. E ela, a mulher que me inspira, continua a expressar novos sonhos – viver e trabalhar fora do País, buscar a independência, alcançar outros horizontes, amar novos amores. Minha vampira, tem fome de viver.

Não me canso de aprender com ela. Ainda assim, não consigo mensurar quanta dor pode suportar. Na semana passada, passou por mais uma cirurgia. A recuperação não tem sido fácil. Chora calada. Porém, sempre que tem oportunidade, exibe o mesmo sorriso ao qual nunca me acostumarei a ver, desde que acompanhei a dar os primeiros passos e a soprar a primeira velinha, para horas depois, ser internada.

Luz que nunca se apagará… me orgulho de ser seu pai – Romy.


 

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Poesia | Obdulio Nuñes Ortega


M O R T A L


 

O garoto nasceu sujeito Homem…
E ao menino foi dada lições
de como todo Homem deve
Comportar-se…
As Formas,
As Cores
e as Preferências
que deveria adotar para ser… o Melhor!
Consciência do Certo,
Errado…
e do Duvidoso!
Porém, algo lhe falta…
Não se encaixa!

O mundo que ele vê
não é o mesmo que querem… lhe dar!
Começa a se sentir desconfortável
com a roupa que veste,
E com o corpo que… veste!
Com as falas que dão ao Personagem,
E o Papel que deve exercer…
E assim, se torna o melhor
Ator…
É convincente,
…atuante,
Destemido,
…desbragado,
Triste…

Resoluto,
decide se matar
…e com uma faca afiada
Em mãos: se torna um Assassino cruel
Mata o desejo, que lhe atormenta,
Em nome de uma Cultura
que é contra o que a pele sente!

Entre Fogo e Sangue,
mata e morre entre os Seus…

 


M E M O R I A L


 

O meu pai me deixou –
Lembranças…
Memórias de suas andanças…
– congelado no tempo, sou aquele menino
que ainda espera a sua volta,
como minha mãe esperou
Até morrer!

Passados cinquenta anos,
Ainda aguardo que me abençoe,
Me perdoe
…por não ser o filho que desejou
E que me elogie por ser o que sou!
Que me incentive a seguir o caminho torto,
que inventei para fugir de seus rastros…

Quantas vezes me senti sem peso,
Marca… Nome — plumagem,
como um pardal debandado…

Quem disse que era bom voar sem destino
e ter asas a bater sem chegar a um ninho?

Saio de casa para ir ao banco. Arrasto
o meu corpo com passadas céleres de quem
acredita no que faz. No entanto, apenas sei
que tenho tarefas a cumprir,
contas a pagar, depósitos a fazer,
aceitar o recebimento pelo trabalho
que faço…

Decido não admitir que valho
o cheque que carrego,
mas quase não ligo para os
números expressos em Reais…
Credito a realidade fria,
ainda que o Outono seja essa
estação indecisa…

Chego ao prédio…
caixas eletrônicos lotados,
fila para depósitos,
restrição por problemas técnicos.
Exclamações e reclamações,
Todos se reconhecem na condição
de refém do Sistema e oramos
a um mesmo Senhor… chefe sem rosto.
Por algum tempo,
nos solidarizamos na dor –
Paciência para enfrentar a espera
…a humilhação ao passar pela porta giratória,
em que devemos nos desvestir de
dignidade… para entrar.

 


S O L I D Á R I A


Somos tristes — coletivamente,
Mas na fila, histórias pessoais se desenrolam
com toques de solidariedade…
Em uma delas, um idoso está a admoestar o neto
por ter se apartado de si…
O garoto não era tão novo que devesse
ser controlado.
Depois do discurso duro,
o rapaz se afasta…
Se coloca do lado de fora… a segurar
o gradil do jardim, como se fosse
algo que não o deixasse cair.
O olhar para o nada — parece ter sentido
a facada da rejeição…

Por um breve instante… sou aquela figura
literária, tão triste que dói em mim
Tristeza solidária…

Chegada a minha vez,
me desligo da realidade-vida
e afirmo em tecs-tecs e mensagens mudas
da máquina à minha frente… quem sou!

Realizo operações
e adiciono nulidades à minha conta…
O meu débito aumenta a cada dia…

 



Tristeza…
parte integrante do livro artesanal | Coletivo 2017


 

 

Previsões para vinte dezoito

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Este ano será curto e intenso. Começará depois do Carnaval (de direito), passará pela Copa do Mundo e findará com eleições para cargos executivos estaduais e Presidência da República. Não vou fugir da raia ou sair pela tangente. Tentar construir imagens densas, em busca de novos significados para defini-lo e aludir como indecifrável o movimento das águas do tempo o Ano de Cristo de 2018. Ousarei fazer previsões. Será interessante acompanhar durante o seu transcorrer quais serão aquelas que acertarei. De quase tudo que acontecerá, alguma coisa não tenho balizamento, guardada a sete chaves pelos Magos do Absurdo – turma do Trump e Kim Jong-un – antípodas equivalentes.

De fato, o ano começou com discussões acaloradas sobre as relações de poder entre homens e mulheres, eivadas por comportamentos predatórios por parte dos primeiros. Nada de novo no front, a não ser a coragem de dar um basta a um estado de coisas que supúnhamos restrito a países como o Brasil, mas que se mostrou característica humana em todas as latitudes. A minha previsão é de que esse assunto, inesgotável em suas implicações, formas e considerações, envolverá figuras até aqui tidas como impolutas. Muitas acusações serão baseadas apenas confronto da palavra contra a palavra, o que suscitará em possível enfraquecimento da causa, se não houver cuidado em verificar a veracidade.

A reforma da Previdência será aprovada. Não será tão ampla que resolva o problema da insolvência do sistema previdenciário e nem tão profunda que retire todos os direitos adquiridos. O certo é que o gasto com as contrapartidas cedidas aos nossos digníssimos representantes para aprová-la alargará o rombo do déficit fiscal.

Temer não será impedido, ao contrário de Trump. Creio que até o final do ano, o presidente do Grande Irmão do Norte será pego no contrapé por suas estripulias. A diferença é que lá as instituições funcionam. Em comum, as duas economias estarão em alta, nem um pouco suficiente para voltarmos, por aqui, aos bons patamares de antes, mas o bastante para iludir o povão. O que poderá, inclusive, influenciar as eleições de Outubro. Esqueçam Lula, Bolsonaro, Marina Silva, Collor, Huck ou Ciro. Vai dar Xuxu. De qualquer forma, nenhum deles mudaria muita coisa. O nosso sistema administrativo favorece o uso da corrupção como método de governança, auxiliado pelo caráter médio do brasileiro. O chefe obedecerá a correnteza.

A Argentina será campeã mundial de Futebol. Não mataram a cobra nas Eliminatórias, agora, aguentem… O Brasil será Vice, no máximo. França e Alemanha completarão os finalistas.

O Rio continuará lindo, mas cada vez mais estraçalhado por balas certeiras e perdidas. A Globo continuará a comandar o cenário profissional das “Artes” televisivas. Questão de apuro técnico aplicado a platitudes. Anitta será alçada à status de ícone internacional – medida exata do atual estágio de nossa cultura popular.

Em contraponto, o número de pessoas que procuram estilos de vida alternativos será cada vez mais importante. O número de vegetarianos e/ou veganos crescerá. O cuidado com o bem-estar de outros seres ganhará cada vez mais espaço. Como resposta à arte apelativa, aumentará a quantidade de veículos, meios e maneiras diferentes para a expressão artística de qualidade mais apurada, continuação de uma revolução silenciosa e perene para mudança de hábitos, corações e mentes. Porém, jovens perdidos do sonho de viver continuarão a explodir, a atropelar, a atirar, a se matar em nome de causas que sobrevivem apenas para servir ao poder de líderes de manadas sem rumo. Aumentará a cisão planetária entre grupos.

O trânsito continuará a fazer mais vítimas do que a Guerra da Síria. Aliás, continuaremos a matar e morrer como se estivéssemos em uma Guerra Civil. O Feminicídio – estertor do declínio total do domínio do macho Neandertal brasileiro – ainda demorará a ser contido. O Crime Organizado, cada vez mais organizado diante da inépcia e/ou auxílio de agentes governamentais, carregará atestado de qualidade internacional. Produto tipo exportação para a América Latina e, talvez, para o resto do Mundo. Orgulho nacional.

A China, devido à estreita visão política de Trump, avançará mais velozmente à condição de maior Economia do Mundo, assim como a de líder político internacional. Por sua influência, nunca haverá uma nova Guerra da Coréia. As bravatas vindas do Norte chegaram ao limite do aceitável dentro do jogo de guerra simulada no ano passado.

Tirante a ousadia de algumas assertivas, não fiz exatamente previsões, mas exposição de fatos que já estão em curso desde há muito tempo. Porque, afinal, é praticamente impossível mover-se para fora da linha que nos amarra aos Presentes sucessivos, também chamada de Passado. O que muda a percepção pessoal do todo são intervenções da Esperança, da Ideologia, do Desejo e gosto pelo auto-engano, confundido com sonho.

And the Oscar goes to… “Blade Runner 2049”!