EVA, A SOBREVIVENTE

Por Obdulio Nuñes Ortega


.

Obdulio, Rua Dois

.

Há quem proponha que Eva não tenha existido, que se trata unicamente de uma figura mitológica, assim como Adão. Algumas escrituras versam sobre outra mulher original — Lilith — que aparece como um demônio noturno na crença tradicional judaica. Na crença islâmica, ela é tratada como a primeira mulher de Adão, sendo, em uma passagem (Patai 81: 455f), acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido. Mais recentemente, esta variante tem sido cada vez mais adotada. Dessa forma, não é de se estranhar que a mulher provoque a desconfiança de seguidores religiosos de várias vertentes, quando certamente foi o homem, desde o princípio, que a identificou como uma opositora temível de sua liderança no âmbito das relações sociais, capaz de desestabilizar as estruturas de poder que detinha.

Aparentemente, Eva teria realmente existido. Em 1986, pesquisadores da Universidade da Califórnia concluíram que todos os humanos descendem de uma única mulher que viveu na África há cerca de 200 mil anos, denominada “Eva Mitocondrial”, a grande avó de todos os humanos, a única a produzir uma linhagem direta de descendentes que persiste até hoje — contraparte do Adão-Y — do Homo sapiens, único primata bípede do género Homo ainda vivo.

Nossa espécie, em algum momento da história, esteve bem perto da extinção e acabou reduzido a um grupo bem pequeno. Conseguiu sobreviver e dominar cada vez mais territórios, até se tornar sobrepujante sobre as outras espécies.

Foram ocorrências bem próximas das narrativas idealizadas por diversas culturas, como a descrita no Gênesis, primeiro capítulo do Velho Testamento da Bíblia, livro-alicerce de três grandes religiões: Judaísmo, Cristianismo e Maometismo — que, através de seus cânones, buscou colocar a mulher em um papel de menor importância, a não ser quando a apresenta como diretamente responsável pela expulsão das criaturas favoritas de Deus do Paraíso.

Desde então, Eva tem enfrentado tentativas por parte de seu semelhante masculino em tornar irrelevante sua atuação na construção da civilização. Com o desenvolvimento das diversas sociedades, sobreviveu o traço comum em colocar a mulher como subalterna operacional em relação ao homem.

Adão, aquinhoado de maior força muscular, senhor da caça — base de sustentação dos primeiros grupamentos humanos — ocupou o topo do comando na maioria das organizações sociais primitivas. Com a sofisticação social e incremento da agricultura, a maioria dos povos, inicialmente nômade, se fixaram em posses territoriais, com estabelecimento de diferenciação de funções, surgimento da hierarquias e consequente imposição de diferentes status sociais. E, ao perceber que a descendência passava inevitavelmente pela fêmea, o bicho homem inventou sistemas de dominação com medidas que iam desde a liberdade vigiada até o aprisionamento de sua criatividade sob o jugo de tarefas específicas e segregadas para assegurar sua descendência, através dos filhos.

Com a ascensão exponencial da mulher, os saudosos de poder evidenciam a discrepância entre as novas diretrizes, alcançadas a ferro e fogo pelas mulheres, e as antigas práticas impostas à força física pelo homem. As cenas de agressões covardes e os feminicídios ocorridos em todas faixas sociais consubstanciam que ainda vivemos na idade da pedra. O que ajuda a explicar o sentimento do ‘homem moderno’ que sente desprotegidos com a perda da rede de sustentação da antiga cultura que o apresentava como centro do Universo. O que era natural, mudou de configuração.

Para esse Adão, que proclama ter nascido, por suposta designação divina, com direitos especiais sobre Eva, será muito triste quando finalmente perceber que o ser completo não surgiu do incompleto, antes, o contrário. E que, se Deus existir, provavelmente É Mulher.

.


Obdulio Nuñes Ortega… nasceu a fórceps no começo de outubro de 1961, no centro de São Paulo. Ainda criança, começou a se mover para a Periferia, primeiro à Leste, depois ao Norte. Desde cedo, quis ser escritor.  Renasceu aos 17 anos, vegetariano e a crer. Aos 27, renasceu casado e pai. Escolheu trabalhar como peão e dono de seu próprio negócio. Budista, demorou a lucrar. Franciscano, aceitou com resignação ganhar o pão com o suor de seu rosto.
O escritor adormeceu e, sem ter como se expressar, aquele Obdulio morreu no final de outubro de 2007, diabético, por excesso de amargor. O atual renasceu a carregar a memória do antigo homem que escrevia, a enxergar o mundo com novos olhos… ainda que a herdar a miopia do outro. E chega até este quadrante a sentir redivivo… a cometer os erros dos novos, a renovar os seus ímpetos, a amar como um adolescente, a ser escritor, como sempre quis.

 

Anúncios