Entrevista | Adriana Elisa Bozzetto

Cada dia parece
batalha
entre me permitir viver
ou ficar no chão frio
abatida.
Sono excessivo

 


 

Adriana é menina de olhar para dentro… de palavras em hélice e sentimentos em vórtice. Todos os caminhos percorridos em vida estão em seus olhos-pele. Ela narra com a simplicidade comum de seus gestos… as coisas vividas em todos os tempos possíveis, com a mesma intensidade que fala dos sonhos impossíveis.

Quando falamos de seu projeto-proposta, a Poesia veio em um desses cadernos-diários… coisa de mulher-menina-clandestina, que toma nota de todas as coisas e guarda na bolsa, de maneira a proteger o que lhe é mais caro… coisa de escritora que não vive sem notas.

Assim que pousou os olhos nas perguntas que preparei para esse dialogo, ela disse: “vou tomar uma boa dose de nada pra me Inspirar nessas respostas“. E eu preparei café e esperei…

Sobre ‘verbo: proibido’: 

Meu próprio livro é um desabafo de silêncios contínuos, que finalmente encontraram um espaço de grito.

Autora do livro verbo: proibido

— Com quantas palavras se faz uma poesia?
Com quantas forem necessárias para se transmitir as sensações desejadas. Às vezes, para uma poesia se formar é necessário mil palavras, às vezes nenhuma: apenas o silêncio ruidoso do papel.

Quais poetas arrastou para dentro de você e deixou lá de castigo?
De castigo permanente em mim vivem Mario Benedetti, Rupi Kaur e Carlos Drummond de Andrade. Outros poetas são arrastados dentro de mim conforme o humor e a necessidade.

— Você estranha-se ou entranha-se?
Estranho-me toda vez que que me entranho.

Quantos goles de nada você bebe diariamente?
Quantos forem possíveis beber debaixo do cobertor.

Já se engasgou antes de deitar fora os seus versos?
Não sei se já me engasguei, mas já chorei, gritei e blasfemei!

Perder um poema ou a própria alma?
Meus poemas são minha própria alma.

A quem confia teus versos?
Confio aos leitores, que leem e transformam meus versos em mundos que jamais imaginei.

 

 

VERBO: proibido
ADRIANA ELISA BOZZETTO

 


Lançamento de Verbo: proibido  — 02 | 06 | 18  — 18 horas
— 
Starbucks Paraíso  —
Rua Des. Eliseu Guilherme, 200
Paraíso | São Paulo


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CARTAS PARA ABRIL | Aceitas um café?

Por Mariana Gouveia


 

Sophia,

 

Aqui, em uma mesa de canto, nesse café da rua do Meio, te escrevo.
Lembro-me da maneira que chegou até a mim e isso me leva para o cheiro da manga madura que fazia com que a biblioteca da escola fizesse quase parte da merenda. A fruta parecia quase tocável da janela, visto que o pé da mangueira anã resolveu dar o ar da graça ao toque de mão.
E por falar em mãos, foi pelas mãos da irmã Matilda que te descobri — ou ganhei — nunca sei ao certo.
Irmã Matilda era a freira boazinha que todo mundo amava e além de nos dar aula de ensino religioso era a responsável pela aula de leitura na biblioteca da escola. Entre o exemplar de José de Alencar e parte da Bíblia Sagrada lá estava sua poesia camuflada de disfarce.
Devo confessar que foi mais amor provocado pelo olho da freira do que propriamente amor de cara pela sua arte poética e lírica. A maneira como ela me olhava enquanto eu te descobria nas leituras — parecia que havia cometido um pecado — era como se partilhasse de um segredo tão dela e agora também meu.
Falou do quanto você a encantava e de onde era. Desenhou em palavras seu lugar, seu país e me levou em pensamentos para além do oceano até seu Portugal.
Depois disso, você se tornou companhia e eu te lia como oração.
Quantos poemas de amor foram lidos em voz alta nos corredores da escola, em apresentações para a família em dia de festa ou a sós, sob a luz de lamparina com sua cor azulada…
Hoje, te busco nos livros que ainda não li. Te encontro nas prateleiras do sebo ou na casa de uma amiga querida que a ama e cultiva tanto de coisas tuas e tudo traz à tona a poesia estampada no olho da irmã Matilda que voltou ao seu país de origem e nunca mais soube dela.
É hora de ir, o café está esfriando enquanto as lembranças me fazem suspirar. O horizonte tem essas cores mistas entre o laranja e o lilás… Meu silêncio interno confronta-se com a correria de fim de dia, passos apressados em direção ao ponto de ônibus. Quase ouço a maresia quando te leio…

“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”
…eu, sorvo a delicadeza da poesia no sabor do café. Aceita?

 

Beijos

 

CARTAS PARA ABRIL | o outro, o mesmo!

Por Lunna Guedes


 Meu caro Borges,

 

…enquanto ouvia o sr. Mischa conduzir magistralmente seu violoncelo, dedilhando Bach, revisitei ‘o outro, o mesmo’. Seu livro preferido dentre tantos que rabiscou em vida.

Antes de saber disso já o tinha eleito ‘meu favorito’ pelo título… que cresceu aos meus olhos. Me encantei com sua Buenos Aires ‘dentre as ruas que afundam o poente / alguma (não sei qual) eu percorri / por uma última vez, indiferente / e, s adivinha-lo, obedeci’.

Sei que o livro foi escrito ao longo dos dias, sem pressa. Com o olhar, mesmo em grande dificuldade, a capturar o pouco que lhe chegava, em gotas embaçadas.

Não consigo imaginar como foi para esse outro, o poeta que lhe habitava, ver esmaecer gradativamente a poesia. Existir sem esse importante sentido deve ter lhe custado uma vida inteira. Como viver sem esse outro? Não consigo imaginar Pessoa sem cada uma de sua personas e não consigo lhe imaginar Borges sem o poeta que me me seduziu com grandes goles de tudo-e-nada.

Sempre que leio seus poemas… inevitalmente recordo suas reclamações e acabo com um sorriso pintado nos lábios — nunca entendi porque minhas segundas versões, como ecos apagados e involuntários costumam ser inferiores às primeiras’.

Tenho para mim que o título de seu livro-favorito foi um afago em seus queixumes. Quem escrevia primeiro, era o outro, o poeta. Quem reescrevia era o Homem… a bordo de todas as suas insatisfações-inquietações. O poeta era mais leve  ‘todas as coisas são palavras da / língua em que Alguém ou Algo, noite e dia, / escreve essa infinita algaravia / que é história do mundo’. Era quem sorvia tudo.

…ao Homem restava o fundo da xícara, o café frio-amargo.

 

Ó destino de Borges,
Talvez não mais estranho que o teu.

CARTAS PARA ABRIL | JORGE LUIS BORGES

O ano é 1938. Véspera de Natal. A cidade é Buenos Aires. Jorge Luis Borges sobe apressado a calle Ayacucho. Pretende convidar uma amiga para jantar. Atraiçoado pela fraca visão que desde jovem o atormenta, ‘atropela’ com força uma janela aberta. Os vidros rasgam-lhe a testa, deixando cortes profundos. Conduzem-no ao hospital mais próximo. Mas esquecem-se de lhe limpar convenientemente a ferida. Borges vive entre a insônia e o delírio nas duas semanas seguintes. Quase morre. Salva-se por pouco. Graças a uma intervenção cirúrgica bem-sucedida. Teme, no entanto, que o acidente lhe tenha afetado as capacidades mentais. Receia não saber escrever. E este cenário é pior que a morte.

Achava-se poeta mas ganhou fama enquanto contista. Ficou cego mas não deixou de escrever. Criava complexos labirintos de texto. Referenciava livros que nunca existiram. Morreu há 30 anos. Como se tornou Jorge Luis Borges um dos mais importantes escritores de todos os tempos?

Antes do acidente… considerava-se um poeta. Admirador de Walt Whitman, William Shakespeare, Luís de Camões. A escrita representa para Borges um importante ponto de contato com o mundo. O homem Jorge era profundamente introvertido e solitário.

“Eu sei que não consigo viver sem escrever”, confessou um dia.

O acidente mudou tudo de lugar. Borges não suportou a ideia de já não ser capaz de escrever poesia e decidiu testar as capacidades com um formato que nunca tentou: o conto de ficção. E se revela um sucesso. “Se não fosse aquele golpe que levei na cabeça, talvez nunca tivesse escrito contos”.

A visão dissipou-se até se extinguir por completo. Mas Jorge Luis Borges continuou a escrever contos. Ditou-os primeiro à mãe e, depois, a uma assistente. Reuniu-os em coleções. Ficções. O Aleph. o Livro de Areia.

Borges mistura fatos e fantasias em cenários que exploram ideias tão complexas quanto inesquecíveis.

 

Alguns detalhes sobre o homem:

— Nasceu em Buenos Aires, na Argentina, a 24 de agosto de 1899.
— Interessou-se pela leitura graças à biblioteca do pai, composta quase exclusivamente por livros em inglês.
— Herdou do pai um problema na visão que o cegou ainda relativamente jovem.
— Trabalhou como publicitário, escrevendo anúncios para iogurtes.
— Viveu a maior parte da vida com a mãe, que lhe costumava ler e escrever o que ditava.
— Casou duas vezes: a primeira aos 68 anos – durou três anos – e a segunda algumas semanas antes de morrer, com a assistente que contratou para substituir a mãe.
— Morreu em Genebra, na Suíça, a 14 de junho de 1986. Tinha 86 anos.

 


POEMA DOS DONS
Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e sede (narra a história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu erro sem cessar pelos confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, eras, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Algo, que nomear ninguém se atreva
Com a palavra acaso, arma os eventos;
Outro já recebeu noutros cinzentos
Ocasos os mil livros e esta treva.

Ao errar pelas lentas galerias
Chego a sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, tendo dado
Os mesmos passos pelos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De um eu plural e de uma mesma mente?
Que importa o verbo que me faz presente
Se é uno e indivisível o dilema?

Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Em uma pálida poeira vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.


 

POEMA DE LOS DONES
Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios, que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
Y el Occidente, siglos, dinastías,
Símbolos, cosmos y cosmogonías
Brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro con el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
Con la palabra azar, rige estas cosas;
Otro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
Suelo sentir con vago horror sagrado
Que soy el otro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
De un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
Si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga

Que se parece al sueño y al olvido.

Cartas para Abril | Charles Baudelaire

 


 

Charles Baudelaire… foi um dos mais influentes poetas franceses do século XIX… considerado um dos precursores do Simbolismo e o homem a inaugurar a modernidade da poesia — reconhecida depois de sua morte.

Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris-França, no dia 09 de abril de 1821. Ficou órfão com seis anos de idade. Ainda na infância, entrou em conflito com o mundo que o cercava e, especialmente com seu padrasto, o coronel Jacques Aupich.

A família retornou à Paris e Baudelaire começa a mostra-se melancólico e solitário. A poesia se inaugura em sua vida nessa época. Em 1838 escreve o poema “Incompatibilité” e no ano seguinte… por indisciplina, foi expulso da escola.

Ao atingir a maioridade, recebeu a herança de seu pai e se tornou um boêmio incurável e um consumidor de ópio e maconha. Escandalizou Paris ao lado da mulata Jeanne Duval, sua amante. Em dois anos havia desperdiçado metade de sua herança levando sua mãe a entrar com uma ordem judicial para controlar seus gastos.

Charles Baudelaire refugiou-se no misticismo, em busca de experiências exóticas e procura afirmar sua individualidade e seu desprezo pela sociedade. Em 1847 publicou sua única novela “La Fanfarlo”. Em 1857, ao lançar uma coletânea com os seus mais belos poemas, intitulada “As Flores do Mal”, foi acusado pela lei francesa de atentar contra a moral. Teve sua obra apreendida. E foi obrigado a pagar uma multa, a mais cara já aplicada a um artista.

Quatro anos depois, Baudelaire retirou os seis poemas que foram considerados obscenos, e reeditou a obra com mais trinta novos poemas.

A finalidade da poesia de Baudelaire era “extrair a beleza do mal” e comunicar aos homens a tragédia essencial do ser humano, dividido entre Deus e o demônio.

Charles Baudelaire faleceu em Paris, França, no dia 31 de agosto de 1867.

 


FLEURS DU MAL (1861)


 

Spleen et idéal

IV
Correspondências

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam sair às vezes palavras confusas:
Por florestas de símbolos, lá o homem cruza
Observado por olhos ali familiares.
Tal longos ecos longe lá se confundem
Dentro de tenebrosa e profunda unidade
Imensa como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se transfundem.
Perfumes de frescor tal a carne de infantes,
Doces como o oboé, verdes igual ao prado,
— Mais outros, corrompidos, ricos, triunfantes,
Possuindo a expansão de algo inacabado,
Tal como o âmbar, almíscar, benjoim e incenso,
Que cantam o enlevar dos sentidos e o senso.

.

IV
Correspondances

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.
Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.
II est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,
Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

— tradução José Lino Grünewald


 

XXXIII
Remorso póstumo

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;
Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar seu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,
O túmulo que tem seu confidente em mim
— Porque o túmulo sempre há de entender o poeta —,
Na insônia sepulcral destas noites sem fim,
Dir-te á: “De que te serviu cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?”
— E o verme te roerá como um remorso atroz.

XXXIII
Remords posthume

Lorsque tu dormiras, ma belle ténébreuse,
Au fond d’un monument construit en marbre noir,
Et lorsque tu n’auras pour alcôve et manoir
Qu’un caveau pluvieux et qu’une fosse creuse;
Quand la pierre, opprimant ta poitrine peureuse
Et tes flancs qu’assouplit un charmant nonchaloir,
Empêchera ton coeur de battre et de vouloir,
Et tes pieds de courir leur course aventureuse,
Le tombeau, confident de mon rêve infini
(Car le tombeau toujours comprendra le poète),
Durant ces grandes nuits d’où le somme est banni,
Te dira: «Que vous sert, courtisane imparfaite,
De n’avoir pas connu ce que pleurent les morts?»
— Et le ver rongera ta peau comme un remords

— tradução de Guilherme de Almeida

 

 


 

LXXVIII
Spleen

Quando, pesado e baixo, o céu como tampa
Sobre a alma soluçante, assolada aos açoites,
E que deste horizonte, a cercar toda a campa
Despeja-nos um dia mais triste que as noites;
Quando se transformou a Terra em masmorra úmida,
Por onde essa esperança, assim como um morcego,
Vai tangendo paredes ante uma asa túmida
Batendo a testa em tetos podres, sem apego;
Quando a chuva estirou os seus longos filames
Como as grades de ferro em uma ampla cadeia,
E um povoado mudo de aranhas infames
Até os nossos cérebros estende as teias,
Súbito, os sinos saltam com ferocidade
E atiram para o céu um gemido fremente,
Tal aquelas errantes almas sem cidade
Que ficam lamentando-se obstinadamente.
— E féretros sem fim, sem tambor ou pavana,
Lentos desfilam dentro mim; e a Esperança,
Vencida, chora, a Angústia, feroz e tirana,
A negra flâmula em meu curvo crânio lança.

.

LXXVIII
Spleen

Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle
Sur l’esprit gémissant en proie aux longs ennuis,
Et que de l’horizon embrassant tout le cercle
II nous verse un jour noir plus triste que les nuits;
Quand la terre est changée en un cachot humide,
Où l’Espérance, comme une chauve-souris,
S’en va battant les murs de son aile timide
Et se cognant la tête à des plafonds pourris;
Quand la pluie étalant ses immenses traînées
D’une vaste prison imite les barreaux,
Et qu’un peuple muet d’infâmes araignées
Vient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,
Des cloches tout à coup sautent avec furie
Et lancent vers le ciel un affreux hurlement,
Ainsi que des esprits errants et sans patrie
Qui se mettent à geindre opiniâtrement.
— Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,
Défilent lentement dans mon âme; l’Espoir,
Vaincu, pleure, et l’Angoisse atroce, despotique,
Sur mon crâne incliné plante son drapeau noir.

— tradução José Lino Grünewald

Poesia | A mulher que me inspira…

Por Ingrid Morandian


Para Isabelle Morandian


 

Ela

É noite. Calor e agitação da avenida dentro
do corpo. Percebo aos poucos o silêncio dobrar
meus pensamentos. Percebo seu perfume na sala
e o olhar sob o giz da manhã. Você, um navio que me conduz
além das suturas da vida. Além dos continentes.
A noite governa os astros. Percebo sua voz no
olhar, percebo a água nos dedos. Você é pertencimento
no solo de Chopin. No agravo das horas, rompeu-se a gota d’água,
tudo move-se no indizível, na luz derramada no chão. É noite. É chuva.
Percebo o rosto suave na fresta da porta. Ombros inclinados. Você é noite.

 

Poesia | Obdulio Nuñes Ortega


M O R T A L


 

O garoto nasceu sujeito Homem…
E ao menino foi dada lições
de como todo Homem deve
Comportar-se…
As Formas,
As Cores
e as Preferências
que deveria adotar para ser… o Melhor!
Consciência do Certo,
Errado…
e do Duvidoso!
Porém, algo lhe falta…
Não se encaixa!

O mundo que ele vê
não é o mesmo que querem… lhe dar!
Começa a se sentir desconfortável
com a roupa que veste,
E com o corpo que… veste!
Com as falas que dão ao Personagem,
E o Papel que deve exercer…
E assim, se torna o melhor
Ator…
É convincente,
…atuante,
Destemido,
…desbragado,
Triste…

Resoluto,
decide se matar
…e com uma faca afiada
Em mãos: se torna um Assassino cruel
Mata o desejo, que lhe atormenta,
Em nome de uma Cultura
que é contra o que a pele sente!

Entre Fogo e Sangue,
mata e morre entre os Seus…

 


M E M O R I A L


 

O meu pai me deixou –
Lembranças…
Memórias de suas andanças…
– congelado no tempo, sou aquele menino
que ainda espera a sua volta,
como minha mãe esperou
Até morrer!

Passados cinquenta anos,
Ainda aguardo que me abençoe,
Me perdoe
…por não ser o filho que desejou
E que me elogie por ser o que sou!
Que me incentive a seguir o caminho torto,
que inventei para fugir de seus rastros…

Quantas vezes me senti sem peso,
Marca… Nome — plumagem,
como um pardal debandado…

Quem disse que era bom voar sem destino
e ter asas a bater sem chegar a um ninho?

Saio de casa para ir ao banco. Arrasto
o meu corpo com passadas céleres de quem
acredita no que faz. No entanto, apenas sei
que tenho tarefas a cumprir,
contas a pagar, depósitos a fazer,
aceitar o recebimento pelo trabalho
que faço…

Decido não admitir que valho
o cheque que carrego,
mas quase não ligo para os
números expressos em Reais…
Credito a realidade fria,
ainda que o Outono seja essa
estação indecisa…

Chego ao prédio…
caixas eletrônicos lotados,
fila para depósitos,
restrição por problemas técnicos.
Exclamações e reclamações,
Todos se reconhecem na condição
de refém do Sistema e oramos
a um mesmo Senhor… chefe sem rosto.
Por algum tempo,
nos solidarizamos na dor –
Paciência para enfrentar a espera
…a humilhação ao passar pela porta giratória,
em que devemos nos desvestir de
dignidade… para entrar.

 


S O L I D Á R I A


Somos tristes — coletivamente,
Mas na fila, histórias pessoais se desenrolam
com toques de solidariedade…
Em uma delas, um idoso está a admoestar o neto
por ter se apartado de si…
O garoto não era tão novo que devesse
ser controlado.
Depois do discurso duro,
o rapaz se afasta…
Se coloca do lado de fora… a segurar
o gradil do jardim, como se fosse
algo que não o deixasse cair.
O olhar para o nada — parece ter sentido
a facada da rejeição…

Por um breve instante… sou aquela figura
literária, tão triste que dói em mim
Tristeza solidária…

Chegada a minha vez,
me desligo da realidade-vida
e afirmo em tecs-tecs e mensagens mudas
da máquina à minha frente… quem sou!

Realizo operações
e adiciono nulidades à minha conta…
O meu débito aumenta a cada dia…

 



Tristeza…
parte integrante do livro artesanal | Coletivo 2017


 

 

Poesia | Caetano Lagrasta


Corpos


 

foto esmaecida
luz vermelha
segurança
em ácido submersa
revela
mas não era bem isso
¿ou era?
mancha
grão solta
pontos
milhares que se unem
mesmo que a gente não queira

 


Lábios e dedos


 

e lá estão as bocas
e línguas
mãos perdidas no encontro
a voar sem palavras
guardadas
escondidas ao compromisso
frio nas costas
ao suor sem gotas
marejar de soluços
preso agora ao espaço
entre corpos
sufocam
exaustos
à espera da luz

 


Campânulas


 

roxas
sem piedade
sobrevivem
escondido tropeça
nega razões
enfuna peito
feliz
e sem ar
à tona não volta
¿que dizer ao destino
ao dia que parecera glorioso?


Instrumentos


 

(violino)

¿essa agitação
lembra
toque?

(piano)

dedilhado
lambe teclas
de pele

(viola)

d’amore
entre coxas
geme


Maestro


 

tatua gestos
sobrepostos
em espelho

 


Partituras


 

indeléveis
claves
grafadas

primeiro movimento
lento
amor desliza
na memória


Finale


 

é isso que nos resta
antes da cegueira
o arremesso
na paixão sem volta

 



Pele…
parte integrante do livro artesanal: Coletivo  | 2017


Poesia | Marcelo Moro


  CORRIQUEIRO


 

 

Apitava o trem
A fábrica… uma aqui, outra ali, acolá
Soltavam seus vapores as caldeiras
E o dia amanhecia
Trazendo o Sol a fórceps
Para banhar de luz amarela a velha feira
Onde as comadres pechinchavam o almoço médio
Onze horas em ponto
Ao som da rádio clube
As alamedas se enchiam de passos
Movimento contrário
Que logo se reestabelecia
Depois do cochilo
Naquelas longas tardes de primavera
Calor, canto da cigarra
E, quem sabe, alguma chuva que nos divertia
nas enxurradas da Professor Ignácio
Até as cinco, onde os apitos decretavam
Que a Princesa Tecelã enfim descansaria

Ainda tinha o bate-papo nos portões
Cadeiras nas calçadas depois da janta
E o banho de Lua, sempre bela

 


 

Poesia | Claudinei Vieira


 

houve aquele tempo
e o tempo se acumula em camadas,
como colchas em colchões velhos,
como camisas pardas em cabides quebrados,
como sapatos abandonados, perdidos
mas nunca jogados fora

houve aquele tempo
e o tempo nunca evapora,
só penetra na pele
e se esconde em memórias fortuitas quebradas
como colchas de retalho coloridas
de colchões embrutecidos
onde antes já se deitara
um amor
onde antes já existira
este amor

 


retalhos


 

Poesia | Andri Carvão


 

Armarinho de Miudezas

TrecosTroçosCoisas

BugigangasBricabraques
BibelôsBagulhosBadulaques

TranqueirasQuinquilharias
MiniaturasSouvenirsPorcarias

PedraEConchaDePraia
TampinhaERolhaDeGarrafa
PapelDeCartaPapelDeBalaPapelDeBombom

CartãoPostal
LembrançasDeCunhoIlustrativoEmocional
DeValorMeramenteSentimental
DeOrdemExistencial

 


Autor de ‘Puizya Pop & outros bagaços no abismo’…


 

Poesia | Chris Herrmann


 

Autorretrato das marés

sou mar e maremoto
um revolto de lua cheia
crescente de água salgada
a curar os bichos feridos
meio minguantes e soltos

nas águas doces, sou todos
remando minha arca de noé
na ressaca das tempestades
para o meu porto in_seguro
que você não sabe onde fica
que nem eu sei onde é

 


 

* autorretrato, grafia sugerida pela autora-poeta, de acordo com as regras do ‘novo acordo ortográfico’…