Nem sempre a lápis | Nic Cardeal

 

nic cardeal

 

À MARGEM

Eu não sou janela
— sequer porta —
guardo em mim
prisões antigas
em que receios fazem conluios
com devaneios de outros tempos.
Não me faças arruinar esperanças
— não sou feita em argamassas —
minhas fronteiras
— tão estreitas —
foram tecidas sem que camelos
consigam ultrapassar fendas de agulhas.
Não sou simétrica,
sou confusa
— quase obtusa —
meus ângulos sobrepostos
desqualificam hipotenusas.
Não tenho pisos,
meus pés são descalços de compassos,
minhas arestas são precipícios profundos.
Não queiras ocupar minha pele,
não te atrevas a conjugar
o silêncio que me comove,
nem te movas a alçar voo
em meus horizontes,
pois que minha prisão é perpétua
entre mim e a minha métrica.
Eu não sou aquela.
Nem a outra.
Se guardares a ânsia,
poderás vislumbrar um lampejo
da minha alma pendurada no vão da entrada.
Não me faças prometer descobertas!
Fui condenada à pena máxima:
não posso ser outra.
Não me desconheças:
eu sou aquela
na qual receios fazem conluios com esperanças!
Quem sabe assim pagarei o débito a mim imposto
por viver à margem da tua sentença!

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QUE NEM CRIANÇA

Eu estava mesmo necessitada de receber uma carta da natureza. E ela escreveu bem assim. Palavras barulhentas na água a girar no sempre da roda, palavras de silêncios gravados no broto que despertou da semente, palavras caladas pelo deslumbramento da flor. Depois de me contar sobre todas as novidades das folhas, dos ventos nos galhos, dos pássaros na serventia das asas a voar suas humildes liberdades, das borboletas dançantes entre as gotas do velho ribeirão, das joaninhas boazinhas de bolinhas coloridas, do trabalho incansável das formigas itinerantes e graúdas a carregar seus fardos de folhas secas, deixou-se pousar serena a natureza, para uma única sessão fotográfica de esperanças entardecidas. Acenou-me feliz, salpicando em meus olhos o perfume da sua melhor despedida: um pedaço de sempre embrulhado em papel de arco-íris sob minhas retinas. Porque agora eu já sei: o caminho mais curto entre as coisas da alma são as palavras. As palavras silenciadas — e ardidas no coração.

(Fiquei feliz que nem criança!)

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AOS TEMP(L)OS ESTRANHOS

A partir de agora saiamos de casa só com a alma,
deixemos guardados nossos corpos no armário,
— não saiamos do armário —
será mais seguro nossos ossos intactos no armário!
Nossas vozes deverão silenciar no fundo da gaveta,
não saiamos de casa ostentando gargantas,
sufoquemos nossos sons mergulhando em silêncios!

A partir de agora deixemos nosso sangue
estocado na adega
junto ao vinho tinto, ao vinho branco,
do contrário estaremos sujeitos
ao asfalto sangrado em vermelho!

A partir de agora não mais se demora — dia ou noite — entre idas e vindas pela avenida!
Guardemos nossos risos no bolso da calça,
no bolso do paletó, dentro da bolsa,
escondido atrás da gravata!
Não será permitida a gargalhada tranquila
a brindar a vida em espantosas alegrias!
Não será de bom grado
o grito, o livro,
a revolta, a rebeldia,
a poesia espalhada na esquina,
nem a palavra escrita fora da linha!
Não será de bom gosto que sejamos letrados,
nem alterados em nossos estados de amor,
de ânimo ou de humor!
Nossos gestos só serão abençoados
se colocados na ordem estabelecida!
Nossas vidas só serão poupadas
se pousadas em fila!
Desse modo, nos bons modos,
homens decentes, cordeiros, ingênuos,
guardados ‘a salvo’
— bons idiotas desses temp(l)os estranhos!

(A partir de agora saiamos de casa
semeando resistências à revelia!)

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Nic Cardeal… na grafia da vida que se fez minha, não sei dizer ao certo a que fim eu vim. Só sei que vim. Nascida depois de um ovo partir-se ao meio, cheguei ao planeta em parceria. Talvez por medo de descer por aqui sozinha. Andei por lugares diversos, contei estrelas, juntei pedrinhas (e livros) pelos caminhos. Sou desajeitada. Calada. Quase esquisita. Minha voz tem som de silêncios. Enquanto não consigo dizer-me muito, faço de conta que me faço em palavras. Por isso escrevo. Meu manual de sobrevivência.

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