Crônica | A Mulher que me inspira

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Eu conheço desde que nasceu. A peguei no colo e como requeria cuidados especiais, deixei o meu trabalho por um ano e meio para cuidá-la mais de perto. Troquei suas fraldas, milhares de vezes, em uma época que fraldas descartáveis eram caríssimas. Na casa em que vivíamos, cheguei a contar duzentos panos dependurados em varais improvisados.

Nas consultas médicas, ficávamos horas à espera para sermos atendidos. Ela, a dormir no meu colo. Eu, a pescar tubarões agarrado ao seu corpinho. Rotina periódica por vários anos, incluindo as diversas internações por crises hemolíticas. Nessas ocasiões, eu e minhas companhias de antessala da ala de Pediatria, trocávamos histórias e apoio mútuo. Aprendi a relativizar o nosso sofrimento ao conhecer outras guerreiras e guerreiros. Alguns feneceram, outros venceram etapas e vivem mais intensamente do que quaisquer um de nós, os “normais”. Suas existências ganham contornos épicos. Tudo é muito intenso e rápido – por um fio.

A tudo… aguentava com um sorriso no rosto, assim que se recuperava de mais um episódio de enfermidade. Devido à baixa resistência, desenvolveu dezenas de pneumonias. Extraiu baço, vesícula, hérnias. Ultrapassou inflamação junto à carótida, infiltração de soro no pulmão e comas. Alérgica a várias medicações, os antibióticos que lhe serviam causavam enjoos portentosos. Perdia peso. Quando vinham as crises de dor mais intensas, meu desejo era abraçar todo seu sofrimento para mim. A minha impotência em minimizá-lo gerava o desejo de que tudo cessasse… para sempre…

Mas, ao voltar a vê-la bem, espalhando amor por onde passasse, percebia que a vida poderia vencer mais uma vez. E prosseguíamos, alentados pelo sorriso inspirador que distribuía graciosamente por aí. Sua resiliência, sua vontade de viver, arrebatava quem com a Leonina estivesse.

Ao chegar aos 14 anos, acrescentou-se as tribulações de adolescer. Momentos de dúvidas, de desejos não atendidos, impedimentos para fazer o que todo adolescente gosta de fazer. Psicologia, psiquiatria, grupos de ajuda. Às vezes, viver já é tão doloroso, mas nada chega aos pés de sentir dor apenas por respirar. Analgesia, hidratação constante, veias esclerosadas.

Em quase 29 anos de vida, sofreu, talvez, mais de quinhentas transfusões sanguíneas. E ela, a mulher que me inspira, continua a expressar novos sonhos – viver e trabalhar fora do País, buscar a independência, alcançar outros horizontes, amar novos amores. Minha vampira, tem fome de viver.

Não me canso de aprender com ela. Ainda assim, não consigo mensurar quanta dor pode suportar. Na semana passada, passou por mais uma cirurgia. A recuperação não tem sido fácil. Chora calada. Porém, sempre que tem oportunidade, exibe o mesmo sorriso ao qual nunca me acostumarei a ver, desde que acompanhei a dar os primeiros passos e a soprar a primeira velinha, para horas depois, ser internada.

Luz que nunca se apagará… me orgulho de ser seu pai – Romy.


 

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