resenha | o vermelho por dentro…

Por Julia Bernardes


 

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A autora Lunna Guedes nunca cansa de me surpreender e, quando o assunto é se divertir com a reação alheia, provocada, é claro, por suas ações estrategicamente pensadas, ela se esmera para poder desfrutar de cada momento, transformando-os sempre em “experimentos”. Ela adora observar, analisar… Tomar o corpo do outro para si e então… Ritmar e alinhavar palavras que componham em folha de tom amarelado de papel desnudo, a história que clama para que seja contada. e foi exatamente isso o que fez com “Vermelho por Dentro”.

Quando ouvi que o título-nome de seu próximo livro seria esse, pensei: “Com este título… Certamente ela deve ter percorrido a derme de cada um dos personagens, explorando seus anseios, conhecendo seus medos, pulsando seus amores — incluindo os considerados tidos como impossíveis —, sentido o enraizar das mazelas do fracasso, absorvendo sua ira, sonhos, fraquezas e, sobretudo, analisando suas ações, ora frustradas, ora gloriosas. Preciso ler esse livro “ontem”, porque o título já me causou reações e… As quero dentro de mim e …adversas”. Ou seja, enquanto eu divagava, devo ter feito cara de louca ansiosa… e ela deve ter adorado ver. Típico!

“Vermelho por Dentro” é obra que entorpece o leitor por sua inexatidão de movimentos, tal qual a imperfeita vida que nos ronda, instiga, desafia… Os personagens se apresentam como a transcrição do que nos é conhecido… Seres à primeira vista comuns, iguais… Entretanto, com um pouco de perspicácia e sutileza despercebida, a autora consegue despi-los de suas enfadonhas carcaças estereotipadas e perfeitas para uma sociedade que se satisfaz com falácias, e deles passa a extrair o vermelho que os move.

Ao ler, vermelho por dentro, pude perceber que a escrita de Lunna dinamizou o que a olho despretensioso pareceria apenas o óbvio, me permitindo ignorar julgamentos para apreciar o humano. Pude explorar a ranhura por dentro de cada personagem e, com eles, passei a questionar ações minhas e dos que me cercam, porque vermelho por dentro sou eu, ou qualquer outro que se atravesse em leitura catártica.

Não há diálogo sem motivação, não há ação sem consequência, ainda que seja o nada. Perguntas existem, muito embora respostas venham apenas com particularidades paradoxais. Não pense ler “Vermelho por Dentro” e encontrar a natureza semântica dos movimentos dos personagens, ainda mais se quiser começar por Eva, mulher forte, determinada, com alma movida à liberdade e tolerância zero para dramas impertinentes e acusações infundadas… Ela não pode ser analisada, pois sua natureza é ser observada. Claudia exala previsibilidade ao se apoiar em muletas de culpa. E George, figura que cativa sem estardalhaços, se sobressai com sua delicadeza ao abordar os mais variados temas, sem nunca abraçar inconveniência. Tantas personalidades… Tantas derivações de mesmo tema… Tantas distrações nomeadas erroneamente como pertinência… Mas apenas uma história, com caminhos que se cruzam, se paralelizam e se findam para que outros sejam traçados.

Não há como ler e não querer sugar mais informações sobre os personagens, sobre o futuro, sobre nós mesmos… A leitura é intensa, em ritmo ajustado pela frenética busca por respostas e por finais que nos promovam a satisfação, ou… O que possamos considerar justo, entretanto para a autora não há culpa, tampouco justiça… Então, não procure saber os “porquês”, pois a grata leitura às suas linhas está justamente em descobri-los sozinho.

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Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 


O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016


 

Palavra de Editor | M I A

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


 

Passava das seis de um dia de semana qualquer. Eu não somo dias, sou feita de momentos e regida por Kairos. Me sentei no meu lugar de sempre… no café entre esquinas, com um latte extra hot ao lado, lapiseira Pentel 0,5 em mãos. Nos ouvidos ‘hold back the river’ de James Bay e um calhamaço de folhas A4 para os olhos… começava a tomar contato com ‘MIA’… leitura de tato — como gosto e prefiro. Sem pressa, apenas um pesado gole…

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