Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

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Palava do Editor | Elemento plural

Por Lunna Guedes

 


 

A Revista Plural começou a surgir em meados de 2012… quando reuni meia dúzia de amigos das letras e preparei 04 exemplares. Era para ser uma publicação impressa… com formato de zine — uma MOSTRA do conteúdo produzido para os nossos blogues — que era moda e estava no auge — o elemento PLURAL.

Escrevíamos em ritmo alucinado para a essa ‘poderosa ferramenta’… vários posts ao dia. E nos encontrávamos duas vezes por ano — nos famosos encontros de blogueiros… uma festa. Estava na moda pensar-escrever-comentar-trocar-opiniões… e aproveitamos o momento, certo de que era passageiro — e foi…

Reuni uma turma interessada em participar da publicação… em formato A4, com folhas grampeadas — míseras 35 páginas… onde se podia ler sobre os mais variados temas: música, cinema, teatro e literatura. Um belo conjunto de ‘ensaios’ pulsantes e descompromissados.

Eu me lembro que estava encantada com o formato alternativo dos ZINES… que conheci através de uma artista plástico na Casa das Rosas. Ele era todo alternativo. Seu desenho colorido e seu estilo humano todo preto e branco. Conversamos sobre a realidade artística numa espécie de previsão do futuro… engessado da realidade. Ele dizia — como apaixonado pelo ‘submundo’ — que nem a mais poderosa das tecnologias iria impedir os saudosistas de manter o formato alternativo. A contra-cultura sempre existiu e sempre vai existir — dizia ele, com o peito estufado-cheio, apaixonado.

Ele me apresentou a um sem-fim de ZINEIROS… formatos lindíssimos passaram pelas minhas mãos em encontros movidos a cerveja e rock. Uma loucura criativa e literária… me apaixonei e fui atrás de encontrar nessa seara — um caminho particular para minha amalgama.

A Revista Plural acabou por ser o embrião da Scenarium — que completa quatro anos de existência nesse mês de agosto… e a Revista passou a ser o nosso principal cartão de visitas. Ando com alguns exemplares em mãos e digo, com satisfação ímpar: essa é uma Mostra Plural do nosso trabalho…

Plural | Avesso

Por Lunna Guedes

Estava a ouvir Caetano e sua tropicália — movimento baseado no modernismo brasileiro — quando comecei a pensar a plural de março… e, sem ter com quem dialogar — dada a ocupação dos editores da revista nos dias primeiros desse ano ímpar — me ocupei de um diálogo imaginário com o compositor de ‘sampa’…

Alguma coisa — sempre — acontece no meu coração… que me põe a pensar a realidade e suas transmutações mecânicas… o contemporâneo e sua perplexidade…

E terminei por escolher o Avesso como norte-tema… e, a partir dessa premissa, me pus a lidar com o desenho proposto por Caetano em sua canção… a imaginar as curvas da cidade — literária e real — o que me obrigou a tentar compreender esse movimento de estar dentro, porém em exílio, em diáfora.

Tateei minhas experiências — novas e antigas… e rapidamente ‘aprendi a chamar-te de realidade’, porque a idéia de um exterior que se conjuga no interior é, sem dúvida alguma, a base da arte-vida-matéria-memória — tudo que somos… uma espécie de avesso, a olhar para fora, sempre em busca de si mesmo — sem, contudo, conseguir encontrar os cardeais…

E, orientada por esse mapa particular de sensações… acabei dentro das linhas do livro de Lygia Clark: ‘o dentro é o fora’… onde a artista afirma, sem meneios… que a arte é sempre ‘fora’ dela mesma, do mundo. E é também a capacidade de se deixar moldar-adequar… através de si, do outro e de todas as esferas, o que faz dos artistas: nômades — sujeitos em busca de um molde, sem jamais se deixarem moldar… porque, como afirma Lyotard: ‘todos os ensaios e as frases são feitos dentro do ser e não diante de seus olhos’.

Dito isso, basta ser barco e navegar por esse Avesso que somos… aceite o convite que deixamos em cada um das páginas seguintes… e venha aplaudir a conclusão de Caetano, que nos faz perceber que a cidade, o lugar, o sujeito e a arte são ‘o avesso do avesso do avesso’… e trate essas páginas como sendo um objeto longínquo, exterior a ti, que te obriga a sair de ti e vir de encontro a elas… para um instante de contemplação. Traga uma xícara de café, uma taça de vinho ou um maço de cigarros.

O avesso… depende (sempre) de um trago bem dado!

 

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Plural | La Bottega di Lunna

Por Adriana Aneli

“As águas dos mapas são mais silenciosas que a terra,
deixam a ela a conformação de suas ondas”

Elizabeth Bishop


Aprendi, tomando um gelato no Le Bottegheplural de bottega —, do italiano: “oficina artesanal e artística, onde o mestre trabalha ao lado de seus discípulos”. E aprendi, discípula, ao lado de mestres… que a vida deve ser levada assim: de modo artesanal.

Mas, para se fazer algo artesanal, é preciso dispor do bem mais raro do milênio: tempo.

Na dedicação integral deste bem precioso, Lunna e Marco Guedes criaram a proposta Plural de uma revista de literatura: feita sob o olhar diferenciado… na busca do projeto, do título, na escolha dos autores. O exercício incessante da criatividade dialoga com cada página, costura linhas, apura miolo e impressão: aí começa o dobra-recorta-cola-costura-amarra — e a revista está pronta para ganhar o mundo.

Em 2016, homenageamos o iluminismo com a Plural 1900 — releituras de Baudelaire e Henri Matisse. Depois, navegamos com La Barca em nosso mar indomável de sensações: a solidão abissal de Edward Hopper. Em seguida, ouvimos lamentos antigos, a voz de W. H. Auden, um convite para dançar (sonhos de Kurosawa?) em nosso funeral Blues.

Para fechar o ano, a vez é da Plural North and South… e, nela, o diário de Elizabeth Bishop ganha novas páginas.

Nesta edição, colhemos impressões de nossas viagens… as cidades que nos habitam. São os olhares de Lunna, Emerson, Caetano, Marcelo, Tatiana, Cecília, Sara, Manoel, Joakim, Obdulio, Adriana(s), Claudinei, Edmilson, Ingrid, André, Virgínia, Alexandre, Rebecca, Gabriel, Flávia, Mariana(s) que traçam este norte-sul — mapa particular de vivências em prosa e verso… a ousadia de lançar âncora em mares plurais.

Plural é o milagre da multiplicação do tempo. A arte de fazer e refazer quantas vezes forem necessárias, para que a vida fique 100%… artesanal.