Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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Junho | sem clã…

Por Silvana Schilive

O sol rasga o horizonte, o café me acorda, a vida me leva escadaria acima! Desenho a giz o dia todo, substantivos, pronomes, adjetivos e verbos indicativos/futuro do presente/mentirosos…
O jaleco revela a clandestina que sou!
Grito incessantemente coisas-sem-muita-razão que devem ser ditas, registradas e avaliadas. Pelas frestas da janela o mundo lá fora tenta avançar o mundo pretérito aqui dentro… As ondas wi-fi navegam celulares que tremem também clandestinos em mochilas largadas pelo chão ou penduradas desconfortavelmente nas duras cadeiras do tempo.
A rotina segue o planejamento do curso elaborado a séculos…
Eu grito, ele/ela grita, nós gritamos, eles/elas gritam.
Ninguém ouve! Todos reclamam…
A rotina conjuga a batalha misteriosa da inercia dispostas nos tijolos encobertos pela argamassa das artimanhas do poder.
Uma clandestina sou eu! Rabiscando relâmpagos poéticos nas portas dos banheiros femininos esperançosa por leitoras atentas… Revelando segredos pelas frestas do tempo roubado, enquanto o relógio marcas as oito horas diárias vendidas por preços módicos.
Discretamente vestida, lanço palavras ousada para muitos que não querem ouvir, ansiosos por um sinal de dispensa.
O dia passa… Sem muito acontecer!
A mochila, quase um membro extra… Sorrateiramente esconde as asas da literatura que, por muitas vezes, a salva… Um simples toque silencioso, duas capas se abrem e o voo inicia-se… Transporta-se para lugares imaculados, revigorando sua clandestinidade necessária por tempos sombrios. Saca um poema vigoroso e adentra um novo dia. A luta diária a faz gritar, quem sabe um dia… o silêncio rompido torna-se real aos ouvidos ouvintes.
Quando despe-se ao anoitecer, revela-se em sonhos… Paraísos minúsculos, delicados. Esculpe na brancura do papel, as mais intensas verdades, os medos desenhados nas cicatrizes queimadas pelo sol, transformadas pela chuva. Deixam de existir. Despojada… Revela-se… Entorna-se! Aprisionando o tempo nas palavras lançadas, ora delicadas, ora impetuosas! Assim vinga-se da clandestinidade a qual é submetida rotineiramente…

 

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

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Novas promessas

Por Silvana Schilive


 

Pisando no calcanhar tirou os sapatos que foram abandonados perto da porta, a águas escorria pelo corpo deixando pegadas no piso gelado. Já passava das 20 horas, o dia começava morrer, o horário de verão, não era para ela.

Abriu a geladeira vazia, a lista pregada na porta já completava aniversário, sempre deixava para depois. Torceu para que tivesse pó de café. Abriu o pote, dava para uma caneca.

Olhou para o calendário no balcão, o ano passou! Nada aconteceu, as mesmas contas, as mesmas listas, os mesmos caminhos. Não havia planos para mudanças… Amassou o calendário vagarosamente, fez uma bolinha bem apertadinha, deixou sobre a mesa.

Enquanto a agua esquentava, tirou a roupa ali mesmo, encharcada de água, dobrou cuidadosamente, colocou sob a pia. Observava a água formando as bolhas de fervura, uma a uma… Colocou o pó no velho coador de pano, deveria comprar um novo. Ia escrever na lista que estava na porta da geladeira.

Nua, com a caneca de café numa mão e a bolinha do calendário na outra, observava da janela do oitavo andar, as nuvens grossas de chuva, é… A chuva não ia mesmo passar. Tinha uma festa para ir, mas a tempestade tinha colaborado com seu desânimo, a desculpa seria perfeita.

Passava da quatro… O sono não vinha e na insistência de dormir o lençol já tinha desistido do colchão e aliado ao tapete repousava no chão. Sentou na cama, esticou o corpo, levantou-se. E agora sem café! O jeito era ir às compras pela manhã. Revirou os armários, encontrou uma caixinha de chá preto. Validade vencida…  Aqueceu a água, serviu a caneca, mergulhou o saquinho, sentou à mesa observando a água mudar de cor.

Alcançou a bolinha de papel deixada ali. Desembrulhou cuidadosamente, todos aqueles dias foram vividos. Numa penumbra, insosso. Desde que abandonara as festas natalinas, as comemorações familiares, e tinha se isolado da vida social, numa clausura intima, aguardava pelo momento em que algo fosse vingar dentro dela. Há muito tempo usava desculpas de concentração e foco nos objetivos. No entanto os objetivos já haviam sido conquistados. E agora? As listas de promessas deveriam retornar para a agenda? As decepções a fizeram não almejar com promessas… Prometo não prometer!

A caneca de chá vazia, o calendário amassado, o dia a raiar… Levantou-se, alcançou a lista de compras, acrescentou alguns itens. Virou a folha.

Branca… Limpa. Lisa! Pranto para cumprir sua missão… Por alguns instantes olhou para o calendário vencido, depois para a folha em branco! O passado e o presente. Deitou a caneta sob a mesa, os primeiro raios do sol lutavam com as nuvens roxas, quem venceria?

No calendário novo o primeiro mês já se esvaia… E tudo como antes! Os mesmos caminhos, as mesmas listas, as mesmas contas! Ou…

Quebrando a promessa de anos que nada prometeria iniciou a primeira linha na folha branca…

Promessas para o ano novo…

 

Feliz Ano Velho!

Por Silvana Schilive


 

É, a vida é mesmo uma viagem, cheia de dias e horas para contar!

Ela embarcou no ônibus escolar apinhado de crianças barulhentas. Se espremeu entre gentes e mochilas. Encontrou seu lugar preferido ainda vazio, sentou e encostou a cabeça na janela, onde o sol da tarde viajava regalado, por isso o lugar estava vazio! A cabeça latejava… Um macaco gigante tocava bumbo dentro dela!

O ônibus arrancou, fechou os olhos e encostou a cabeça na vidraça. O cheiro de criançada suada anunciava o fim do dia… Desejava o fim do ano…

— A senhora tem pinheirinho de natal? Ouviu uma voz de criança! Continuou brigando com o macaco baterista que insistente batucava uma dor grave. Só quero que o dia termine!

— A senhora tem pinheirinho de natal? Ouviu novamente, abriu os olhos e deparou com aqueles olhos meigos conhecidos. – O que?

— Eu perguntei se a senhora tem pinheirinho de natal!

— Não Letícia, não tenho!

— Eu queria ter um… A menina pronunciou a pequena frase quase que num sussurro, entrou-lhe pelos ouvidos como um trovão imenso… Dentro daquele barulhento veículo entre aquelas duas criaturas nascia um silêncio monstruoso… O brilhante olhar meigo aguardava uma resposta para a afirmativa pronunciada.

Entre paradas e arrancadas o silêncio lhe cutucava malvado. Eu queria tem um… Eu queria ter um… Eu queria ter um…

Logo adiante, junto com mais três irmãos a menina desembarcaria, desceria um longo carreador até o humilde casebre. Conhecia a história deprimente daquela família…

E ela só queria que o ano acabasse… Como se não bastasse o pinheirinho de natal, quando o ônibus parou a surpresa foi maior…

— Meu irmão disse que a senhora sabe mandar cartas, pode mandar essa para o papai Noel. Minha mãe disse que esse ano ele não vem… Agarrou a mochila com as duas mãozinhas e saiu apressada para alcançar a porta. Com o papel dobrado entre as os dedos, o olhar da professora ficou grudado no olhar da garotinha enquanto podiam se enxergar…

E ela só queria que o ano acabasse… Desembarcou do ônibus meio atordoada, ainda segurando a cartinha procurou a chave da casa. Aquela seria uma longa noite! Pinheirinho de natal e cartinhas para papai Noel era tudo o que ela não esperava.

Todos os anos começam e terminam da mesma forma. Entre o começo e fim, a esperança se espalha pelos dias, semanas e meses… E nessa viagem insólita, o cotidiano se revela entre dias bons e dias ruins. O ruim devora o bom, enquanto o bom consome o ruim vagarosamente… Conjecturas!

O ano consumido entre mentiras anunciadas, verdades desmentidas, preconceitos revelados e guerras individuais, se desmorona diante de um pequenino sonho de natal. “Eu queria um…”

A professora só queria que o ano terminasse… E ele renasceu dentro duma cartinha amarrotada pendurada num sonho infantil natalino!

Aquela noite, entre caixas empoeiradas e guardados mofados, um pinheirinho de felizes anos velhos, resplandeceria em outras vidas!

Ah! Anos velhos… Quantas gavetas reviradas, caixas reabertas, alegrias desembrulhadas.

E nessa viagem, dentro da vida, sempre haverá felizes anos velhos costurados com dias bons e ruins…

E você, quantos felizes anos velhos guarda?