Lunna Guedes

2018-02-22 12.31.01

sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios e apreciadora de espaços urbanos. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. aprecia o outono em qualquer hemisfério.

| escreve por escrever somente |

seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros… a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabadas… nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. prefere reticências e cadernos com folhas de amarelecidos tons.

 


 

Lunna Guedes é autora de “reticências”,
da “trilogia lua de papel” — “septum” e “vermelho por dentro”
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Vermelho por dentro | Lunna Guedes

 

R$ 45

 

 


…traz duas personagens femininas ‘mãe e filha’ e seus dilemas de vida. Duas figuras firmes-fortes-e-sonoras, conscientes de que tudo poderia ser diferente em suas vidas, mas uma vez feitas as escolhas, não é possível olhar para trás e pensar um futuro novo — diferente. É preciso conviver com o resultado das escolhas feitas. O passado de uma determina o futuro da outra, resultando em mágoas-distancias-e-ausência. Mas nem mesmo a mágoa que pauta os gestos das personagens impede que elas se amem, se respeitem e torçam uma pela outra, em seus caminhos inexatos’.

 

18 – Nem sempre a lápis | trecho de vermelho por dentro

Após o último prato ser retirado da mesa, passaram à outra sala, com seus estofados brancos e dúzias de retratos dos antepassados da família Amaral, pendurados nas paredes — sempre tão azuis —, pintados por Tony Koegl, um alemão que tinha migrado para o Brasil, em 1927.
Deborah reconheceu o estilo do pintor, que abusava das fortes pinceladas. Preferiu se afastar das telas… espiar de longe as cores quentes misturadas… se oferecendo aos olhos do ‘panteão’ Amaral.
— O melhor dos retratos dessa casa não está aí. O guardo para mim, pendurado na parede de meu quarto. — cochichou Eva, ao se aproximar de Deborah.
A troca de olhares e de sorrisos não passou despercebida de Claudia, que se sentiu mais uma mendiga de afetos, com as mãos vazias, em suspenso no ar, e foi atrás de um cálice de licor, como forma de amortizar seus desconfortos. Bebeu o líquido escuro de um gole só e sentiu imediatamente o efeito do gesto febril no corpo todo. Respirou fundo e se equilibrou nos saltos que, por um instante, pareceram afundar-se no chão. Passados alguns segundos, sentiu-se pronta para outro gole. Encheu o copinho, sob o olhar de reprovação de Helza, e pôs tudo para dentro.
Sentia-se melhor… sentou-se ao lado do pai, no braço da poltrona, enquanto procurava por respostas às perguntas que fervilhavam dentro. E, como os diálogos estavam inaudíveis, resolveu quebrar o silêncio com sua voz em ondas.
— Você é casada, Deborah?
— Non!
— Então, não tem filhos?
— Ne pas!
— Foi por falta de oportunidades?
— Certainement! — ironizou, dividindo o sorri-so com Dario e Eva.
— Você não parece o tipo de mulher que um homem escolhe para se casar?
— E esse ‘tipo’, por acaso, existe?
— Uma mulher de família… se prepara a vida toda, desde o seu nascimento, para viver o seu grande momento: entrar na igreja, com o mais belo dos vestidos, e caminhar por entre os convidados, ao som da
marcha nupcial. Uma vez no altar, diante do padre e da igreja lotada, ela ouve o melhor dos sons: o ‘sim’ definitivo de seu noivo.
Deborah percorreu com o olhar toda a figura de Claudia… um mísero borrão de tinta no canto da mesa, insistente-teimoso — e que custa a sair, quando sai.
— Não existe uma única mulher que não sonhe com esse grande momento. Ter um marido, a sua casa e filhos é o que nos faz realizadas, o que dá sentido às nossas vidas.
— A única coisa que dá sentido à minha vida é a minha arte.
Claudia respirou fundo e deu de ombros para
aquele comentário, que considerou tolo e insignificante, típico de alguém que quer se mostrar superior. Estava certa, no entanto, de que era apenas fingimento… e foi adiante em seus questionamentos.
— Eu estou curiosa — disse Claudia, em movimento pela sala —, como foi que você e Eva se conheceram?
Mauro quase desfaleceu ao ouvir a pergunta… engoliu o resto de licor, provocando arrepios na pele fria. Se tivesse forças, teria se levantado e deixado o recinto, mas permaneceu imóvel, a respirar com alguma dificuldade.
Deborah sorriu suas verdades arremessadas ao vento… seu livro de Baudelaire e seu velho caderno de folhas gastas, onde rabiscava ensaios futuros, deixados no canto da cama, pouco antes da partida. As ondas da praia, numa manhã de outono, a molhar seus pés… e o olhar de seu menino guitarrista a lhe confessar suas sentimentalidades. A primeira vez que percorreu seus mapas urbanos e as palavras de Martin, que adorava pescar e sabia como preparar uma isca perfeita.
— Em Paris! Acho que foi no outono de Setenta e nove.
Claudia se incomodou novamente com a intimidade nos olhares cúmplices que partiam de Eva e chegavam a Deborah… enroscadas em um silêncio paralisante, como se partilhassem realidades cheias, onde
apenas as duas se encaixavam.
— No pior ano da minha vida, claro… Por que eu não estou surpresa, Eva?
Helza, que sabia onde o discurso de Claudia iria parar, pediu licença… usou como desculpa a necessidade de ir verificar o andamento das coisas na cozinha e saiu, trocando rápidos olhares com Eva. Em minutos, estaria de volta para livrá-la daquele interminável interrogatório.
— Vocês são amigas, conhecidas? Porque Eva Peixotto do Amaral é uma mulher com preferências e costuma ser muito exigente em suas relações. Comigo, por exemplo, é inexistente. Eu implorei para que ela voltasse de Paris quando precisei ser hospitalizada, mas ela ficou por lá, na sua companhia, pelo visto. Ela sempre prefere outras coisas a mim. Paris, os filhos dos empregados, das amigas… Qualquer coisa no mundo é mais importante que eu: a filha legítima de um casamento legítimo.
— Um típico dilema freudiano, facilmente resolvido na terapia, deveria tentar! — ironizou Deborah, depois de beber mais um pequeno gole de licor, provocando risos em Dario e Eva.
— Eu não preciso de terapia — retrucou Claudia, visivelmente irritada com os risos —, eu sou uma mulher moderna que ocupa a mente com trabalho.

 


 

Lunna Guedes… sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios e apreciadora de espaços urbanos. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. aprecia o outono em qualquer hemisfério.

| escreve por escrever somente |

seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros… a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabadas… nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. prefere reticências e cadernos com folhas de amarelecidos tons