FELIZ ANO VELHO…

 

Por Virginia Finzetto


Minhas idas ao centro são frequentes. Pego o Praça Ramos fora do horário de pico e vou sentada até o ponto da Xavier de Toledo. Quando eu desço do ônibus, outra viagem se apresenta. Dificilmente fico no presente assim que olho para o Teatro Municipal. Envolvida em reminiscências, pergunto-me como tamanha beleza ainda se conserva como baluarte da história paulistana a despeito de tantos estragos já promovidos ao seu redor, seja pela falta de consciência de programas políticos, que não levam em conta a preservação do nosso patrimônio, seja pela ausência de cidadania dos ignorantes, que deliberadamente depredam e emporcalham nossas ruas.

Sigo em caraminholas, enquanto atravesso o viaduto do Chá em direção à Praça do Patriarca. No vaivém da multidão, de repente, alguém segura meu braço com firmeza. Levo um tremendo susto, pensando em assalto…

Qual deveria ser minha reação diante do avanço da miséria e da violência que aumentou barbaridade? Mas olho melhor para ele: um idoso de expressão bondosa, olhos de íris opacas amareladas, sorrindo com dentes marcados pelo abuso do fumo, face envolta em longa barba alva, prestando muita atenção em mim.

— Bom dia, menina, você continua bela!

— Ãhn…?

Rapidamente, minha memória vasculha nos arquivos recônditos imagens da infância e da juventude tentando encontrar alguma que case com a da insólita figura. Para minha surpresa, certa que estou de se tratar de um desconhecido, e já me esquivando com ar de ofensa, ele me chama pelo meu nome completo na língua do pê!

Depois, gargalhando ao ver minha expressão de “cruz credo”, ele prossegue:

— Ei, Virginia Finzetto, sou eu… o Papai Noel! Não se lembra de mim?

Não faço a mínima ideia de como esse sujeito maluco descobriu meu nome. Isso só pode ter sido, para não fugir do espírito natalino, uma presepada de algum amigo que estaria por ali escondido e rindo da minha cara. Em seguida, o bom velhinho me solta e desaparece rapidinho na contramão.

Oh, céus! Só posso ter enlouquecido em meus delírios, penso.

Então, venho tornar público o caso, para que, quem sabe, possa chegar até ele, agora, todos os pedidos que armazenei desde a época em que passei a ser uma garota incrédula sobre sua real existência.

Diz a lenda que Papai Noel lê, além de cartinhas, o coração de todos os puros. Mesmo assim, resumo minha lista em apenas este desejo:

Xô, 2017!

Dissolva e leve, com a mesma velocidade vertiginosa com a qual você aconteceu, todos os equívocos cometidos covardemente em nome de qualquer divindade.

Assinado:

Eu,

a que prefere apostar em sonhos realizáveis.”

Feliz ano, velho! 

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COLUNA PLURAL | A barra de ser leitor…

Por Virginia Finzetto


 

QUANDO LHE ENSINARAM as primeiras letras, nada era diferente dos rabiscos que vinha praticando desde os seus primeiros anos de vida. Ao lado das figurinhas coloridas, as garatujas também faziam parte de uma mesma coleção, na qual todos os elementos carregavam um único e preciso significado. Em sua maioria, esses esboços davam nome às coisas, àquelas que povoavam seu mundo, ainda, de restrito saber de um iniciante. Coisas e nomes estavam tão unidos entre si, que era difícil identificar onde começava um e onde terminava outro.

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Coletivo |Apresentação…

Por Lunna Guedes…

 


 

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

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Virginia Finzetto


Autora do livro “vi e/ou vi”

 


 

Escolhida entre as múltiplas que lhe habitam, atrás de seu par de olhos escuros, surge a humorista de ocasião nas redes sociais. Essa promete às demais um rodízio, até que todas as outras possam também representar o seu núcleo de incertezas. Hoje, desconfiada que as palavras não pertençam a nenhuma delas, ela se acha apenas uma garota de vários recados. Dos papeis que já representou, sendo o de jornalista o mais frequente, assina todos eles com seu nome próprio sem arrependimentos.

Palavra do Editor | vi e ou/vi…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 

A Poesia pode ser — de acordo com os rótulos tradicionais — uma espécie de etiqueta, que nos avisa da qualidade da roupa que cobre o corpo: moderna, maldita, parnasiana, marginal, contemporânea… mas, nenhum rótulo é capaz de afirmar o sentimento que transborda no leitor ao ler um verso bem feito.

A poesia nos cala, consome… nos deixa nus, a nos equilibrar em epítetos. Julgar a poesia é condenar a si mesmo. Rotular é se repetir… mas, somos assim — e isso parece ser incorrigível.
Outro rótulo muito usado nesse tempo — denominado contemporâneo — é: poeta… no entanto, por mais que se insista, não veste qualquer pele… muito embora se multipliquem nas sombras os que tomam para si a palavra e apontam para nós os seus sufrágios.

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vi e/ou vi

 

“Nascer ou morrer, tudo ou nada, sim ou não, par ou ímpar… E nos intervalos, eu me ocupo com o quê? A criar diversidade de tons que preencham os vãos desses extremos. A revelar em poemas a rebeldia contra os fatos consumados e nenhum senso comum. Neste livro, pretendo ser agente de artimanhas que provoquem algum assombro ou diversão. É para o impacto de sentir o sopro na pele que eu o convido a ler VI E/OU VI que o vento é aqui.

Virginia Finzetto

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